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Peixinhos pós-modernos

Gansos

A publicidade é descaradamente intrusiva. Ubíqua e omnívora, ninguém lhe escapa. Interpela sem pedir licença. Até a consciência dispensa. E expande-se! Apoderou-se, num ápice, da Internet. Intromete-se. Chegamos ao cúmulo de pagar para a evitar. O YouTube é um exemplo. Ao abrir um vídeo, somos agraciados com um mínimo de cinco segundos publicitários. Até em casa, o “último reduto”, a publicidade se insinua. A publicidade é o nosso molho quotidiano. Com a agravante de nos conhecer bem, demasiado bem. Somos uns “peixinhos pós-modernos” (ver vídeo 1). Gansos e tansos. Os anúncios Les Oies e Le Tombeau, da France Televisions Publicité, ilustram, breves como cartoons, a omnipresença absurda da publicidade (ver vídeos 2 e 3).

Marca: Renault Clio. Título : Le Pêcheur. Agência: Publicis Conseil (Paris). Direcção: Eben Mears. França, 2007.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Les Oies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Le Tombeau. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.

Amor sobre rodas

O anúncio espanhol Electric Love, da Smart, dá-se ao luxo de tomar o seu tempo (2:39). É repetitivo e atarda-se em cada sequência. Respira jovialidade, confiança e sedução. Adivinha-se o público-alvo. Trata-se de um anúncio meticuloso: cada imagem, cada som, no seu momento oportuno.
Para constratar, passemos da publicidade para a música. Clássica ou moderna, a Espanha sempre foi um país de boa música. Héroes del Silêncio consta entre os melhores grupos rock espanhóis. A revista Rolling Stone, de 22 de novembro de 2012, atribui-lhe o segundo lugar num conjunto de cinquenta grupos rock “mais representativos de Espanha” (http://rollingstone.es/noticias/especial-rs-los-50-mejores-grupos-de-rock-espanol/). Retenho duas cançõe: El Estanque, do álbum El Mar No Cesa (1988) e La Chispa Adecuada, do álbum Avalancha (1995).

Marca: Smart. Título: Electric Love. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Victor Carrey. Espanha, Março 2017.
Héroes del Silencio. El Estanque. El Mar No Cesa. 1988. Versão acústica ao vivo, 30 de Abril de 1996. Miami.
Héroes del Silencio. La Chispa Adecuada. Avalancha. 1995.

Morte, erotismo e política (revisto)

 

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

01. Jean-Michel Basqjuiat. Riding with Death. 1988.

Riding With Death, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), é uma pintura que surpreende. Foi concluída em 1988, ano em que Basquiat faleceu, com 27 anos de idade, vítima de uma overdose de uma mistura de cocaína e heroína. Muitos encaram esta pintura como uma premonição. Mas quase toda a obra de Basquiat convoca a morte: esqueletos, caveiras, corpos transparentes, frases… Entre as imagens da morte, não tenho memória de uma “figura humana”, eventualmente híbrida, a cavalgar a morte. São, aliás, raras as imagens em que a morte aparece subordinada, como no episódio da descida de Cristo ao inferno (ver O Triunfo sobre a Morte).

Quem conduz? O título do quadro não é “Riding Death”, cavalgando a morte, mas Riding With Death, cavalgando com a morte. Estes cambiantes lembram duas lendas. Na primeira, conduz quem é montado. É o caso do rapto de Europa por Zeus, transformado em touro. Europa senta-se no dorso do touro que a sequestra ( ver O rapto de Europa. Com os olhos no retrovisor). Na segunda lenda, com Filis e Aristóteles, conduz quem monta.

Alexandre O Grande andava perdido de amores por Fílis, uma bela mulher proveniente da Índia. Ao ponto de descurar as responsabilidades e o governo do império. Aristóteles, tutor de Alexandre, chamou-o à razão: devia moderar os seus encontros com Fílis. Alexandre acedeu ao pedido de Aristóteles.

Fílis não gostou da interferência de Aristóteles. Decidiu, com êxito, seduzi-lo. É a vez de Aristóteles andar perdido de amores por Fílis.

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França

06. Filis e Aristóteles., Cadouin Abbey, França. Fim do séc. XV – início do séc. XVI.

Um dia, Fílis propõe a Aristóteles: “dou-te o meu corpo, mas, primeiro, acedes que ande montada nas tuas costas”, segundo algumas imagens, com rédeas, chicote e esporas (ver Figura 9). Alexandre, avisado, assistiu à cena. Quis expulsar Aristóteles. Mas, em verdade, só agora a lição se perfazia: se até um velho sábio não resiste ao encanto de uma mulher, que esperar de um jovem rei”.

A imagem de Fílis a montar Aristóteles, com trejeitos de sadomasoquismo, tornou-se célebre, em particular, na Idade Média e, sobretudo, no chamado Renascimento do Norte. De qualquer modo, esta lenda comporta uma lição claramente expressa: o erótico desafia o sábio e o político.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

09. George Pencz. Fílis e Aristóteles. 1530. Para além das rédeas, Filis usa esporas.

Um último apontamento sobre a Farsa de Inês Pereira (1523), de Gil Vicente. Inspirada na máxima “mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, a farsa termina com o segundo marido a carregar às costas Inês Pereira para a levar até ao amante, o Ermitão. “Pois assi se fazem as cousas” ( ver pdf: Gil Vicente. Farsa de Inês Pereira. Parte final).

Como os animais

Sagami Act of Love

“[As fábulas] não são apenas Morais; elas facultam outros conhecimentos. Os atributos dos Animais, e os seus diversos caracteres, nelas se exprimem; por conseguinte, os nossos também, porque nós somos a abreviatura daquilo que há de bom e de mau nas criaturas irrazoáveis” (Jean de La Fontaine. Fables. Préface, 1668).

“Nós somos a abreviatura daquilo que há de bom e de mau nas criaturas irrazoáveis”. Pensando bem, até somos irracionais. Segundo Karl Marx, “a anatomia do homem dá-nos uma chave para compreender a anatomia do macaco” (Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política, 1858). Prefiro acreditar, com La Fontaine, que o macaco e os outros animais são o molde do homem. Atente-se nas danças do anúncio aos preservativos Sagami Original, em que os seres humanos imitam os rituais de galanteio dos animais. “O amor é profundamente animal: é a sua beleza” (Remy de Gourmont, Physique de l’Amour, Essai sur l’instinct sexuel, 1903. Nada que os Maroon 5 não cantem (Animals, 2014).

Marca: Sagami Original. Título: Act of Love. Agência: White Briefs. Direcção: Greg Brunkalla. Japão, Janeiro 2016.

Maroon 5. Animals. Álbum: V. 2014.

Fotogenia

Albert EinsteinPor que motivo Einstein mostra a língua? É um dos mistérios do século XX, agora desvendado pela Sony graças a uma alta tecnologia de reconstituição fotográfica. Afinal, Einstein está a colar envelopes de correio, sendo a língua o humidificador. Quem pensou noutro motivo, pecou. Noutra fotografia célebre, o riso de Marilyn Monroe ofusca o sorriso da Gioconda. Funciona, segundo a Sony, como um recurso para se livrar de apuros. Quem pensou numa virtude, errou! Ambos os casos convocam a sedução: Einstein seduzido pela gula, Marilyn, sedutora por conveniência.

Marca: Sony Cybershot. Título: Einstein. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.

Marca: Sony Cybershot. Título: Marilyn. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.

Cosméticos

OPI

Não basta “encher os olhos”, importa regalá-los. E desintelectualizar. Este anúncio da L’Oréal, dirigido por Bruno Aveillan, lembra outro mais antigo da OPI (2012). Ambos franceses, a marcas de cosméticos, centrados na cor, cada um com o seu esquema de sedução: a fragmentação sensual e um repto de dança a um cavalo, “animal das trevas e do poder mágico”, símbolo “da impetuosidade do desejo”  (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robbert Laffont/Jupiter, 1982, p. 223).

Marca: L’Oréal. Título: Color Rich. Agência: McCann. Direcção: Bruno Aveillan. França, Março 2015. Música original: Raphaël Ibanez de Garayo.

Marca: OPI. Título: Instinct of Color. Agência: DAN Paris. Direcção: Hans Emanuel. França, Outubro 2012.

O charme da imperfeição

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Insisto no tema da relação com o outro e da composição dos pares. No caso dos palhaços Branco e Augusto, a diferença atrai, como a electricidade negativa e positiva. A propósito da escolha do cônjuge, Alain Girard fala em tendência para a homogamia (Le Choix du Conjoint, Paris, INED /PUF, 1964): casamos com quem nos é social e culturalmente próximo. Teoricamente, esta mesmidade seria entrópica. A prática não o confirma. Importa considerar, ainda, uma relação alternativa. Não são as diferenças nem as semelhanças que aproximam mas as imperfeições. Já não “vamos juntar os trapinhos”, mas as imperfeições. Gosto deste novo mandamento. Impõe-se como um truísmo: se ninguém é perfeito, não há outro remédio senão juntar imperfeições. Por outro lado, diminuir a carga negativa da imperfeição é compensador. É gratificante sentir que alguém aprecia as nossas imperfeições: não gosto das minhas imperfeições, mas tu gostas; não gostas das tuas imperfeições, mas eu gosto. Um novo barco do amor. Subsistem imperfeições, mas quem quer ser perfeito? Estamos perante um efeito Cyrano de Bergerac. Em suma, o lema deste anúncio, agradável e original, do site de encontros Meetic não podia ser mais bem escolhido: “Si vous n’aimez pas vos imperfections quelqu’un les aimera pour vous”. Brincadeira à parte, este tipo de relação existe e não deve ser descurado.

Marca: Meetic. Título: Love your imperfections. Agência: Buzzman. França, Dezembro 2014.

A luxúria da castidade

Forest Essentials. Apsaras. 2012Há muitas formas de pintar o paraíso. Há muitas formas de pintar a mulher no paraíso. Há muitas formas de pintar a tentação que ora nos afasta ora nos aproxima do paraíso. Há muitas formas de não o conseguir. Não é o caso destes anúncios indianos para a marca Forest Essentials. Transpiram criatividade, pureza, beleza, prazer e tentação.

Marca: Forest Essentials. Título: Apsaras. Agência: Wieden + Kennedy Delhi. Direção:  Paul Minor. Índia, Outubro 2012.

Marca: Forest Essentials. Título:  Luxury of Purity. Agência: Jack in the Box Worldwide. Direção:.Abhijeet Chhabra. Índia, Janeiro 2012.

Machos com cio

O blogue atingiu, ontem, num único dia, 420 visualizações. Não tantas, porém, quanto, neste anúncio, as visualizações de uma jovem mulher por uma alcateia equivocada de lobos com cio. Nem sequer falta o Old Spice Man. Ridicularização? Sem dúvida. Naturalização? Talvez. Parece uma paródia invertida dos anúncios Axe. Uma coisa é certa, com um televisor Samsung com Motion Control o efeito de sedução é outro.

Marca: Samsung. Título: Seductive Motion. Agência: BETC London. Direção: Matt Kirkby. UK, Maio 2012.