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Do tamanho do coração

 

Pfizer. Graffiti

Publiquei este anúncio no Facebook em 2011. Republico-o, com maior resolução, no Tendências do Imaginário. Não o vou cobrir com palavras. A grandeza, das coisas e das almas, tornou-se um valor discreto na nossa sociedade. A contracorrente, o graffiti deste anúncio é quase do tamanho do coração.

Marca: Pfizer. Título: Graffiti. Agência: Zig. Direcção: John Mastromonaco. Canadá, 2008.

Tragédia quotidiana

 

Virgem Maria e o Menino Jesus. Escultura tumular. Cemitério de Auteuil.

Virgem Maria e Menino Jesus. Escultura tumular.

De que mundo se fala, quando se fala do mundo? As notícias cobrem-no e recobrem-no com um manto todo esburacado. Há imagens que chocam. A presença do que, para nós, não existe é obscena. Preferimos a ausência do que existe. Com o filho inválido às costas, uma mãe percorre, a pé, dezenas de quilómetros para aceder aos cuidados de saúde. Será notícia? Trata-se de uma vítima improvável de um evento extraordinário por motivos plausíveis  num espaço simbólico? Não, trata-se apenas de sofrimento desamparado, dia após dia, todos os dias. Nada acontece! A notícia releva do drama, a realidade da tragédia.

Marca: Promart Teleton. Título: Largo Camino. Agência: Fahrenheit DDB. Direcção: Eduardo Gutiérrez. Perú, Maio 2017.

O maior parvalhão do universo

the biggest asshole

The World Biggest Asshole, da Donate Life, é um anúncio de consciencialização dedicado à doação de órgãos. O protagonista é um homem execrável. Grande parte do anúncio aplica-se a mostrá-lo. Mas eis que morre de repente. Descobre-se que, afinal, é um herói, um ser humano exemplar: é um doador de órgãos, um salvador de vidas. Este é um esquema corrente: uma narrativa que se precipita numa reviravolta final. Por outro lado, a doação de órgãos parece funcionar como uma indulgência. Neste mundo e no outro.

Anunciante: Donate Life. Título: The World Biggest Asshole. Agência: The Martin Agency. Direcção: Speck Gordon. USA, Agosto 2016.

Excelência

nike

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais” (Público, 11.03.2016).

“Para já, o que se fica a saber é que, em 19 áreas clínicas, foram apresentadas 134 candidaturas e seleccionadas 74 (que na realidade correspondem a  82 instituições, se considerarmos todos os serviços, uma vez que há centros que vão funcionar em consórcio, o que é novidade em Portugal). Os que não foram escolhidos não serão prejudicados, porque continuam a fazer o que faziam. “Isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”, sublinha Alexandre Diniz, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e membro da comissão de peritos que escolheu as unidades” (Público, 11.03.2016).

Sobressalto de espanto e júbilo: “Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”! Na ciência, também existem muitos centros de excelência. E mais que excelentes! Pontos de referência. Para quem? Lembro-me de uns rectângulos avermelhados que, molhados, eram pontos de referência para as moscas.

Os centros “que não foram escolhidos (…) continuam a fazer o que faziam”. Precise-se que “isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”. A avaliação esmera-se. Mais um caso nacional em que a avaliação se faz para avaliar e, por contágio, descriminar. Consequências? O arrasto do costume.

“O que muda para os doentes? Por enquanto, não haverá grandes alterações, porque para que um paciente seja tratado num destes centros precisa primeiro de ser encaminhado pelo seu clínico assistente” (Público, 11.03.2016).

Resta uma postura nacional com tradição excelente e, por sinal, de referência: esperar! Pela centelha da predição criadora do oráculo burocrático. Entretanto, vou deslocar-me para Lisboa, Porto ou Coimbra. Cidades onde a gente é gente, com centros de excelência e pontos de referência. Quanto ao clínico, mais do que um médico, espero que seja bom encaminhador e, caso disso, bom alavancador.

Sculpture of a theater mask dating from the Hellenistic. National Archaeological Museum in Athens.

Boquiaberto. Escultura de uma máscara de teatro do período helenístico. Museu Arqueológico Nacional. Atenas.

As palavras têm altos e baixos. Ora estão na mó de cima, ora estão na mó de baixo. Excelência e referência são palavras em que as burocracias europeias apostam. Pouco importa se os ventos são atlânticos ou nórdicos, estas duas palavras incham que nem sapos com um cigarro na boca. Como nos vasos comunicantes, outras palavras esvaziam-se. Por exemplo, a palavra “elite”, penalizada pelo lastro histórico. Ressalve-se, porém, que não é por uma burocracia integrar uma sociedade democrática que ela é democrática. As burocracias não são democráticas!

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”. Já? Nem sei o que pensar.Tanta excelência deve ser excelente!

Desta vez, não comento o anúncio. O anúncio ilustra, como contraponto de referência, o comentário.

Marca: Nike. Título: Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direcção: Lance Acord. USA, 2012.

Apagamento

Este anúncio da MDN Australia parece um tributo ao passado: a música, “Don’t Dream It’s Over”, é um cover de Neil Finn (1991) e a “Fading Symphony” é uma adaptação da Sinfonia do Adeus de Joseph Haydn (ver https://tendimag.com/2012/11/21/despedida/). O objectivo justifica, porém, os meios: a luta contra a esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa que elimina, sucessivamente, diversas capacidades vitais, “aprisionando uma mente sã num corpo paralisado”. José Afonso foi vítima desta doença.
Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.

neurónios

https://www.youtube.com/watch?v=jr9f1pfib_8

Marca: MDN Australia. Título: The Fading Symphony With Tim Michin. Agência: The Works Sydney. Direcção: Husein Alicajic. Austrália, Dezembro 2015.

Pela nossa saúde

Quino. Álbum - A la Buena Mesa.

Quino. Álbum – A la Buena Mesa.

Depois das alheiras e do arroz de cabidela, das salsichas e dos enchidos, da pegada ecológica do atum e do bacalhau, é a vez da diminuição do sal nos restaurantes.

Numa notícia com o título “Restaurantes garantem reduzir sal a partir de 2016 nas sopas e nos acompanhamentos” (Público, 30 Out 2015) lê-se o seguinte:

“Os restaurantes que fazem parte da maior associação do sector, a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (Ahresp), comprometeram-se a reduzir em 3% a 4% a quantidade de sal na sopa e em acompanhamentos, como o arroz, a massa e as batatas, a partir do próximo ano, informou o director do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, Pedro Graça (…) As “reduções são imperceptíveis ao paladar”, explica o nutricionista. O objectivo é chegar ao valor de referência de 0,2 gramas de sal por 100 gramas de alimento”.

É uma boa notícia. Há anos, Portugal foi pioneiro na diminuição do sal no pão. Agora, a iniciativa consiste na dessalinização do povo português. É a sina do cidadão do terceiro milénio: paciente e assistido, numa sociedade mais saudável e menos onerosa. Muito se escreveu nos anos setenta sobre o poder médico e a medicalização da sociedade. Recorde-se Michel Foucault, Ivan Illich, Robert Castel e Jean Claude Lachaud. Longe, no entanto, de imaginar que a sociedade se iria converter num laboratório e num hospital gigantescos. São boas medidas, mas são tantas que o quantitativo se torna qualitativo (Hegel). O advento de um mundo novo e de um governo por receita.

Quino. Álbum - Quinoterapia.

Quino. Álbum – Quinoterapia.

Michel Foucault, Histoire de la folie à l’âge classique, Gallimard, 1972.
Ivan Illich, Medical Nemesis, London, Calder & Boyars, 1974.
Jean Claude Lachaud, Le Pouvoir Médical, Paris, Privat, 1975.
Robert Castel, L’Ordre psychiatrique, Paris, Minuit, 1977.

Uma pitada de sal

Salt-–-Gentleman-Scholar-at-Cap-Gun-Los-AngelesHá verdades que todos conhecem, consensuais. Algumas até justificam, entre impostos e multas, a esmola ao Estado. Os autodestrutivos nunca pagam quanto custam. À margem, dizem-se coisas insensatas, tais como o exercício físico pode ser excessivo e as dietas, desequilibradas… e, segundo este anúncio, uma pitada de sal não faz mal. Duvido, mas não censuro. O melhor é cada um continuar a pensar pela cabeça dos outros. Pode aceder aos argumentos do Salt Institute neste endereço: http://www.saltinstitute.org/news-articles/does-salt-lead-to-longer-life/.

Anunciante: Salt Institute. Título: Salt Longevity. Agência: Grey San Francisco. Direcção: Dave Laden. USA, Fevereiro 2015.

A vaga digital

Estatísticas sobre o mundo digital num anúncio da Life Healthcare.

Anunciante: Life Healthcare. Título: Digital in Healthcare. Agência: Life Healthcare. Reino Unido, Novembro 2011.

Bricolage médico

A argumentação pelo absurdo existe. Há muito tempo. Os Médecins du Monde chocam-nos com uma paródia daquilo que pode ser uma intervenção médica sem recursos apropriados, cenário que, em muitos lugares do mundo, não anda muito longe da realidade.

Anunciante: Médecins du Monde. Título: Tibia. Agência: Saatchi & Saatchi. França, 2011.