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Filhos de um deus menor

En premier lieu toute prière est un acte. Elle n’est ni une pure rêverie sur le mythe, ni une pure spéculation sur le dogme, mais elle implique toujours un effort, une dépense d’énergie physique et morale en vue de produire certains effets. Même quand elle est toute mentale, qu’aucune parole n’est prononcée, que tout geste est presque aboli, elle est encore un mouvement, une attitude de l’âme (Mauss, Marcel, 1909, La prière).

Mais, par choses sacrées, il ne faut pas entendre simplement ces êtres personnels que l’on appelle des dieux ou des esprits; un rocher, un arbre, une source, un caillou, une pièce de bois, une maison en un mot une chose quelconque peut être sacrée (Durkheim, Émile, 1912, Les formes élémentaires de la vie religieuse).

O sagrado somos nós ! Todos sabemos o que é uma prece. O anúncio True Love, da True Corporation Public Co., aproxima-se de uma oração. Oremos, que a vida é um altar!

Anunciante : True Corporation Public Co. Título: True Love. Agência: GreynJ United Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Abril 2018.

Que língua falam os santos?

Peneda Escadório

Santuário da Senhora da Peneda. Escadório e templo.

Ontem, 6 de Agosto, fiz uma comunicação sobre a fronteira no âmbito do evento Filmes do Homem, organizado pela câmara municipal de Melgaço e pela Associação Ao Norte. No magnífico auditório da Porta de Lamas de Mouro, cerca de uma centena de pessoas, a maioria estrangeiras e profissionais do audiovisual.

Como se compreendia que a romaria da Senhora da Peneda, sendo em território português, tenha, desde tempos imemoriais, tantos peregrinos galegos? Esta adquire ainda mais oportunidade quanto no catálogo dos Filmes do Homem escrevo um artigo sobre a festa.

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08.2017

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08.2017

A geografia do sagrado pode não coincidir com a geografia política. São duas arquitecturas distintas de construir o mundo. É certo que quem desenha fronteiras políticas pretende outorgar-lhes uma aura sagrada:

Regere fines, o acto que consiste a “traçar por linhas direitas as fronteiras”, a separar o “interior e o exterior, o reino do sagrado e o reino do profano, o território nacional e o território estrangeiro”, é um acto religioso realizado pela personagem investida da mais alta autoridade, o rex, encarregado de regere sacra” (Bourdieu, Pierre, 1980,  “L’identité et la représentation”, In: Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 35, Nov. 1980, pp. 63-72, p. 65).

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08. 2017

Filmes do Homem. Lamas de Mouro. 06.08. 2017

A Igreja também desenha fronteiras, a começar pelas paróquias cujo traçado nem sempre coincide com o das freguesias. Os lugares sagrados têm fronteiras. Os romeiros que chegam ao escadório da Senhora da Peneda sabem e sentem que têm que moderar o comportamento. Há gestos e palavras que devem ficar para trás. A contenção reforça-se com a aproximação ao templo. O sagrado tem fronteiras, que têm sido motivo de conflito, por exemplo, com as comissões das festas. Por finais dos anos vinte, a Igreja, incomodada com as cenas de paganismo sob os olhos dos santos, adoptou uma série de interdições relativas aos locais de culto.

A geografia religiosa e a geografia política são distintas. Os fenómenos religiosos podem combinar uma ancoragem local e uma irradiação, em último caso, global. Atente-se nas peregrinações a Santiago de Compostela, a Lourdes, a Meca e a Fátima. Os pés dos peregrinos pisam fronteiras. A devoção não tem ceptro, nem centro, nem pouso fixo. O que move os romeiros é a fé. Deslocam-se no seu território, o território do sagrado. Uma fronteira política representa, quando muito, uma adversidade suplementar na narrativa dos sacrifícios.

Estas frases são como ossos de um esqueleto. Convém acrescentar um pouco de carne. Algo como uma conversa que não significa nada mas perdura na memória.

Iglesia Santa Maria la Real de Entrimo

Igreja Santa Maria La Real, em Entrimo (Ourense).

José Pinto (Os santos esperam mas não perdoam… Um estudo sobre a romaria da Peneda, 2002, ed. do autor) relata o testemunho de uma devota. Tem em casa uma imagem da Senhora da Peneda. Fala com ela e, por vezes, garante que a santa lhe responde. Quero acreditar que, se fosse em Entrimo, na Galiza, a Senhora da Peneda responderia na mesma, mas, não admiraria, em galego, a língua de S. Rosendo.

Seguem os links par a página dos Filmes do Homem (http://www.filmesdohomem.pt/) e para o catálogo deste ano (http://www.filmesdohomem.pt/doc/fdh2017.pdf). Para terminar, o Ave Mundi, de Rodrigo Leão e o Games Without Frontiers, do Peter Gabriel.

Rodrigo Leão. Ave Mundi. Ave Mundi Luminar. 1993.

Peter Gabriel. Games Without Frontiers. 1980.

Obscenidade

Pink  Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Pink Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Há fenómenos que parecem talhados para ilustrar processos semióticos, por exemplo, a sacralização do profano e a profanação do sagrado. O anúncio The Bicky Beef Miracle, da Bicky, destaca-se como um caso exemplar.

Das entranhas de uma vaca saem caixas com hamburgers. Um milagre, admitem o padre e o bispo. Promove-se uma procissão, criam-se imagens “santificadas” da vaca, substituem-se as hóstias por hamburgers aparecidos no ânus do animal. Em suma, assiste-se a uma escalada na sacralização do profano. Por outro lado, reconhecer um milagre num hamburger evacuado, promover uma procissão a uma vaca equiparada a uma santidade e substituir a hóstia pela caixa de hamburger, tudo isto releva de uma profanação do sagrado. Um delírio grotesco com escatologia acintosa. Vale a pena afrontar o público e enojar o espectador?

Esta dialética entre sagrado e profano é corrente no mundo publicitário. Mas também floresce no quotidiano mais banal. Uma anedota, memória da infância, mostra os extremos a que pode conduzir a profanação humorística do sagrado.

A missa estava inusitadamente concorrida. O padre conta as hóstias. Não chegavam. Ordena ao sacristão:
– Vai ao curral, colhe bosta seca, corta às rodelas, pinta-as de branco e traz-mas.
O sacristão assim fez. A missa começa. E a comunhão decorre sem falhas. Entretanto, o Manuel, entre pragas e caretas, mastigava. A mulher, a seu lado, admoestou-o:
– Comporte-se que é o corpo de Cristo!
O Manuel murmurou:
– Foi-me logo calhar a parte do cú.

O processo é similar ao do anúncio da Bicky: sacralização do profano (a bosta) e profanação do sagrado (a hóstia associada ao traseiro).

O anúncio comporta riscos, como, por exemplo, associar o Hamburger Bicky aos intestinos miraculosos de um bovino. A ousadia afasta ou cativa os consumidores? A obscenidade e a escatologia compensam? Polémicas à parte, o anúncio apresenta uma história bem contada com um cocktail de símbolos explosivo.

Jens Mortier, fundador e director criativo da agência mortierbrigade, esclarece:

However, we’re not creating these attention-grabbing campaigns solely as gimmicks or for a quick laugh; the incredible results of our work with Bicky so far shows that we are really striking a note with burger lovers”.

Spike van der Werf, director de Marketing & Inovação da Bicky, prossegue:

“Bicky can be anything, except virtuous. We save the good taste for our 100 per cent Angus burgers. When it comes to our brand communications, we want to create content that act as an adrenaline shot to the heart of our customers. Mortierbrigade is exactly the right partner to help us to tell stories that don’t smell like advertising and, instead, become part of the cultural conversation. This collaboration with Lionel Goldstein fits our brand perfectly well” (http://www.lbbonline.com/news/what-beefy-miracle-is-hiding-in-this-holy-cows-anus/).

Marca: Bicky. Título: The Bicky Beef Miracle. Agência: mortierbrigade. Direcção: Lionel Goldstein. Bélgica, Junho 2016.

Vaca por vaca, prefiro a vaca dos Pink Floyd. Atom Heart Mother (1970) não é dos álbuns mais famosos dos Pink Floyd. E depois? Segue a última faixa do lado A: Remergence.

 

O espírito do surf

Corona The Flow

Em modalidades como o surf, “os desportistas controlam aparelhagens leves e flexíveis gerindo, em equilíbrio instável, as informações provenientes do ambiente (água e vento) de feição a retirar, não pela força mas graças aos reflexos e ao domínio técnico, o melhor proveito da situação” (Gonçalves, Albertino, Vertigens: Para uma sociologia da perversidade). É comum afirmar-se que em desportos como o surf o adversário é a natureza. Duvido. O surfista não joga contra a natureza; joga com a natureza, sua parceira. O surf é um desporto informacional e ecológico. Mas subsistem outros saltos no raciocínio. Encarar, por exemplo, o surf como uma experiência cósmica e quase sagrada, e a sua prática como uma espécie de oração. Proliferam as páginas da Internet que associam o surf ao sagrado. Dorian Paskowitz, surfista, médico, falecido em 2014, uma referência do surf, confirma:

“O surf é algo muito especial. Sei que cada um de vós tem uma ideia do surf – e está correto -, mas à medida que vão envelhecendo vão perceber que há algo de mágico no surf, e misterioso. É do sol que vem a energia para fazer o vento, o vento faz as ondas e nós só precisamos de surfá-las. É como surfar o sol, somos filhos das estrelas. É quase sagrado (…) É preciso o melhor de cada um de vocês. Têm de tomar conta da vossa saúde, amizades, responsabilidades. Surfar é uma prece, é a nossa forma de rezar” (Surftotal – Dorian Paskowitz: https://vimeo.com/110658972).

Acredito que muitos surfistas se reconhecem nas palavras de Dorian Paskowitz. Ao cósmico e ao quase sagrado (almost holy), convém acrescentar a estética. Estética de quem pratica e estética de quem observa. O surf é arte e espectáculo.

Edu Petta

Edu Petta. Uluwatu. Bali. Indonésia.

O anúncio Flow, da Corona, convoca estas vertentes do surf, desde a primeira onda do surfista até à comunhão final. O anúncio absorve estes traços, reais ou imaginados, envolve-os em emoção e beleza, de modo a dar corpo ao espírito do surf e, por extensão, da cerveja Corona. Se tal existe, deve ser isto a sobriedade eloquente.

Dedico este artigo ao Edu Petta, um aficionado do surf e um nómada à escala planetária. Sempre com a câmara fotográfica e a prancha na mão.

Marca: Corona. Título: Flow. Agência: Wieden + Kennedy Amsterdam. Holanda, Maio 2016.

The Memorable Doc Dorian Paskowitz. Surftotal TV.

Via láctea

 

milch-machts_620x349

Tudo neste anúncio está perversamente bem concebido. Não há tempo para comentar. Nem é preciso.

Marca: Plain Milch. Título: Mutter. Direcção: Bernd Faass. Alemanha, Janeiro 2015.