Cupido e a dança dos esqueletos

Aproxima-se o São Valentim. É tempo de preparar sementeiras. Altura propícia para Cupido se soltar e começar a fazer da suas. Nem sequer os esqueletos escapam! Junto uma animação 3D com um Cupido barroco que me acaba de enviar o Eduardo Pires de Oliveira. Um bom pretexto para recolocar uma dança erótica esquelética. Ambas as animações (mappings) foram produzidas pelo coletivo artístico belga Skullmapping.
Anjos

Por marretada de um anjo caído (ver imagem), tenho dificuldade em escrever, no teclado e no papel. Os anjos inundam a moda (ver vídeo 1). Por outro lado, assombram os Manfred Mann (ver vídeo 2).
Adrenalina

Cosmos, estratosfera, voo, liberdade. Vertigem, aceleração, velocidade, adrenalina. Queda, mergulho, regeneração, biografia. Instante, Intensidade, vitalismo. Emoção, corpo, plenitude. Radical, risco, ousado, não convencional. A estética e a sensualidade como marcadores da experiência humana. Flores da nossa (pós)modernidade, valores do tempo presente. Cupra, marca do novo automóvel do grupo SEAT, aposta vigorosamente neste anúncio. Com a participação da atriz Nathalie Emmanuel (A Guerra dos Tronos) e música original de Loyle Carner, o anúncio estreia no intervalo do jogo de futebol entre o Real Madrid e o Barcelona.

As imagens do anúncio lembram a figura de Ícaro. Seguem duas pinturas: uma de Pieter Brueghel (Paisagem com a queda de Ícaro, 1558), a outra de Pieter Paul Rubens (A queda de Ícaro, 1636).
Transpiração
O olfato “é o sentido desagregador e anti-social por excelência” (Simmel, Georg. 1981. “Pour une sociologie des sens”, in Sociologie et épistémologie, Paris, PUF).

Pode um anúncio ser reflexivo? Funcionar como um espelho? É o objetivo da maior parte dos anúncios. A mais ínfima parte do corpo humano intervém na interação social. Um nada corporal, significativo, pode decidir a relação com o outro. E com o próprio. A transpiração é um excesso de comunicação, uma ameaça ao self, tal como, noutro registo, o ato incontrolado de corar. Bem sugeria Simmel que o odor separa e afasta. Quem não se revê nas inseguranças do protagonista, nos clichés dos seus receios e impasses? Gosto deste anúncio: consegue o que pretende. Aposta nas noções, religiosas, de condenação e de salvação. Entre ambas, uma epifania: o chamamento, a revelação e a graça do desodorizante Hidrofugal.
Umbilicados, narcisistas e egoístas
Andamos precisados de uma onfalectomia (intervenção cirúrgica para a extracção do umbigo). Esta sociedade é a mais umbilical de toda a História. Nunca se umbilicou tanto. Mais que líquidos, plásticos, tribais ou pós-humanos, somos umbilicados. Não confundir com narcisistas. Narciso vê a sua imagem pelos seus olhos. O umbilicado vê o mundo pelo seu umbigo. Narciso mata-se, o umbilicado faz birra. Por seu turno, o egoísta zela pelos seus interesses, é heterocentrado, concentra-se nos outros; o umbilicado atende aos seus impulsos, é autocentrado, concentra-se em si mesmo. O egoísta conquista, o umbilicado reclama. Os umbilicados são o grau zero da solidariedade e da acção colectiva. Nós sem laços. Mais vale plantar pedras na serra da Peneda do que apascentar umbilicados na cidade.
A nobreza da arte
“Nunca confunda movimento com acção” (Ernest Hemingway).
No dia 21 e 22 de Abril ocorreu a 5.ª edição da Escola da Primavera do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Este ano, o destino foi Amarante. Estranharam alguns colegas e alunos não os ter acompanhado. Na semana anterior, a família visitou a Escócia. Também não a acompanhei. Por quê? Só a estrita obrigação me impele a viajar. Os tempos e as circunstâncias transformaram-me num eremita, que apenas se desloca de eremitério para eremitério: de Braga para Moledo e de Moledo para Braga; de Braga para Melgaço e de Melgaço para Braga. Pareço, cada vez mais, o Nero Wolfe. A cada um as suas taras e moléstias. Esta eremitagem resulta penalizadora. Para que serve a quietude nesta vertigem pirotécnica? Vale, curiosamente, a globalização: se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. Nenhum sábio me convence que o movimento das ideias e dos corpos coincidem. Tomados pela ultraburocracia e pela estereotipificação quotidiana, arriscamos, imprudentemente, a mais inumana das sociedades humanas. Tornamo-nos indiferentes à diferença. Numa época “empoderada” por tantos recursos, parecemos serigrafias saídas da Factory de Andy Warhol.
Em casa conhecem os meus gostos de cor e salteado. Das viagens, trazem-me originalidades que encantam. Em Edimburgo, a minha companheira e o meu rapaz mais novo tiraram estas fotografias na Galeria Nacional da Escócia. Um quadro com quadros de Willem van Haecht: Art Cabinet with Anthony van Dyck’s ‘Mystic Marriage of St Catherine’, datado de 1630. Acertaram no alvo! Desconhecia a obra e o autor, um bom auspício. Por outro lado, interessa-me a história da exposição das obras de arte, desde os templos antigos até à Internet, passando pelas colecções privadas, pelos museus, pelas galerias e pelas reprografias.

Willem van Haecht: Gabinete de Arte com o Casamento Místico de Sta. Catarina de Anthony van Dyck. 1630.
Willem van Haecht (1593-1637), natural de Antuérpia, retrata, com minúcia e detalhe, a exibição de obras de arte no interior de espaços privados (kunstkamers: salas de arte). A sua obra coincide com o auge das coleções que prenunciam, de algum modo, a criação dos museus no séc. XVIII: o British Museum, em 1753; o Museu Pio-Clementino, no Vaticano, em 1771; a Galleria degli Ufizzi, em Florença, em 1779; e o Louvre, em Paris, em 1793. Não são raros os museus que têm origem em coleções privadas.
Willem van Haecht concebeu várias “naturezas mortas com obras de arte”. Mas não foi o único, nem sequer o primeiro. Jan Brueghel, o Velho, nascido em 1568 em Bruxelas e falecido em 1625 em Antuérpia (1568-1625), e Frans Francken, natural de Antuérpia (1581-1642), anteciparam-se meia dúzia de anos (ver figuras ). Não obstante, Willem van Haecht destaca-se neste género de pintura.
- Peter Paul Rubens & Jan Brueghel, o Velho. Alegoria da Visão e do Cheiro. 1618.
- Jan Brueghel (I), Hendrick van Balen e Gerard Seghers. Alegoria da Vista e do Cheiro. 1620.
- Frans Francken the Younger, Uma Colecção, 1619,
- Frans Francken, o Jovem. Gabinete de Amador. 1620-25.
Willem van Haecht nasceu numa família de pintores. O pai, Tobias Verhaecht, foi professor de Rubens. Entre 1615 e 1626, trabalhou em Paris e na Itália. Em 1928, assume a curadoria da coleção de arte de Cornelis van der Geest, mercador de especiarias, colecionador e mecenas de arte, patrono de Peter Paul Rubens.
Inspirado na colecção de Cornelis van der Geest, Willem van Haecht entrega-se à pintura de quadros de quadros, acompanhados por esculturas e “curiosidades”. filhos da imaginação, constituem alegorias intertextuais saturadas de citações, referências, alusões e segredos. As personagens são, contudo, reais, bem como os quadros.
Na Galeria de Cornelis van des Geest (1628), as personagens são identificáveis. Em baixo à esquerda, está sentada a Infanta Isabel Clara de Espanha, na companhia do Arquiduque Alberto da Áustria, do pintor Peter Paul Rubens e do Príncipe Wladyslaw Vasa da Polónia. O anfitrião, Cornelis van des Geest, aponta para um quadro. Do “catálogo”, constam obras de Ticiano, Antony van Dick, Guido Reni, Francesco Albani, Rubens, Dürer, Jan Brueghel, o Velho, Quentin Metsys ou Correggio, um sortido de artistas actualmente célebres (para uma identificação mais detalhada dos quadros expostos na Galeria de Cornelis van des Geest, consultar Deprouw-Augustin, Stéphanie, La devinette de Willem van Haecht: https://deprouw.fr/blog/la-devinette-de-willem-van-haecht/).
A Wikimedia Commons proporciona uma identificação interactiva das obras constantes no quadro Apeles pintando Campaspe (ca. 1630). Para aceder, carregar na figura acima.
Por seu turno, a página Howling Pixel (https://howlingpixel.com/wiki/Cornelis_van_der_Geest), assinala e ilustra as obras reproduzidas, e, por vezes, repetidas, no conjunto nos três quadros com “gabinetes de arte” da autoria de Willem van Haecht.
As pinturas de salas de arte configuram um misto de realidade e fantasia. O quadro O arquiduque Leopoldo Guilherme em sua galeria de pinturas em Bruxelas, de David Teniers (nascido em Antuérpia no ano de 1610) talvez represente uma excepção. Alguns destes quadros eram enviados a outras pessoas como testemunhos, senão catálogos.

David Teniers (II). A Galeria do Arquiduque Leopoldo em Bruxelas. 1651.
“En este caso, personajes y obras convierten a esta pintura en uno de los pocos ejemplos donde se muestra una colección concreta y existente, por lo que puede definirse como un cuadro- catálogo que exhibe las riquezas pictóricas atesoradas por el archiduque en el palacio de Bruselas. En el repertorio predominan los cuadros italianos, pero los pocos flamencos tienen gran importancia conceptual y simbólica. A la izquierda, San Lucas pintando a la Virgen de Jan Gossaert (1478-1532) identifica la procedencia artística de Teniers, mientras que el Retrato de Isabel Clara Eugenia por Anton van Dyck (1599-1641), a la derecha, alude a la posición de Leopoldo como heredero del gobierno de Bruselas. No cabe en esta representación la idea de búsqueda de ennoblecimiento común a otras galerías -Leopoldo era por nacimiento un miembro de los Habsburgo, que se muestra con símbolos habituales de poder como la espada y los perros-, pero sí subyace en ella la justificación del poder principesco mediante el disfrute de una exquisita colección de pinturas, que el archiduque era capaz de apreciar por sí mismo, como evidencia su mirada hacia la Santa Margarita de Rafael.
A mediados del siglo XVII la pintura había triunfado ya sobre las demás artes y era el principal elemento de representación cortesana, por encima incluso de las armas. El poder de un príncipe no se medía exclusivamente por el valor militar, sino también por su gusto y su afición pictórica. Teniers realizó para Leopoldo varias obras similares que fueron enviadas a distintas cortes para impresionar por sus virtudes como aficionado artístico y por la magnificencia de sus tesoros pictóricos. En ese sentido, al remitir a Felipe IV esta obra al poco de ser realizada, el archiduque parece que quiso homenajear a su tío como aficionado a la pintura italiana,imitando las colecciones del Alcázar de Madrid; pero quizá también retarle, al mostrar cómo las guardadas en el palacio de Bruselas podían competir con ellas (Texto extractado de Pérez Preciado, J. J. en: El arte del poder. La Real Armería y el retrato de corte, Museo Nacional del Prado, 2010, p. 126).” (Museo del Prado: https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-archiduque-leopoldo-guillermo-en-su-galeria-de/461e64f1-71a3-46fb-961b-3958286a12c5).
Este artigo começou com uma fotografia tirada na Galeria Nacional da Escócia e derivou para Antuérpia. Manhas do destino. Um destes dias vou a Antuérpia, não para ver a casa de Rubens, mas para visitar o meu rapaz mais velho. A deslocação parada é uma conquista do século séc. XX, mas ainda tem algumas falhas.
Chuteiras bestiais
Tudo me lembra alguma coisa. Idade a mais, criatividade a menos. Sintonizo-me com a sociedade em que dizem que vivo. Nenhuma outra a sucede. É a última; e não avança. É tão “após”; e tão pouco “antes”! Pós-industrial, pós-colonial, pós-moderna, pós 11 de Setembro… Os milenaristas, os iluministas, os modernos e os marxistas erguiam a cabeça e viam a ponta do nariz. Entretanto, acabaram-se as grandes narrativas, a prevalência dos projectos e, até, a própria história. Somos a primeira sociedade orgulhosamente órfã do futuro! Consta que agarramos o presente… O presente não se agarra, vive-se. Faz-se. Para além da idade e da falta de criatividade, vivo nesta sociedade da repetição. Nestes moldes, recordar pode parecer um desperdício. Quem não espera o futuro não tem por que se sentar no passado.
Marca: Adidas. Título: Instinct takes over. Internacional, Agosto 2014.
Vêm estes depautérios a propósito do último anúncio da Adidas: Instinct Takes Over. Em sequência acelerada e sincopada, o futebolista turco Mesut Özil é associado a diversos animais, cuja potência simbólica reverte para as chuteiras Predator. Pois, o anúncio lembra-me coisas antigas. Lembra-me as gravuras de quatro artistas, todos com um artigo no Tendências do Imaginário:
Giambattista della Porta (1535-1615): http://tendimag.com/2012/08/26/homens-e-bestas/
Ticiano Vecellio (c. 1485-1576): http://tendimag.com/2012/08/27/homens-e-bestas-2/
Peter Paul Rubens (1577-1640): http://tendimag.com/2012/08/29/homens-e-bestas-3/
Charles Le Brun (1619-1690): http://tendimag.com/2012/09/03/homens-e-bestas-4-charles-le-brun/.
Por estranho que pareça, recordar também pode ser uma forma de tomar balanço.
- Giambattista della Porta. Vaca.
- Ticiano. Alegoria da prudência. C. 1565-1570.
- Peter Paul Rubens. Estampa.
- Charles Le Brun. Camelo.
Homens e Bestas 3. Rubens
Théorie de la Figure Humaine é a tradução francesa, editada em 1773 (ver frontispício na figura 1), do original em latim da autoria de Peter Paul Rubens (1577-1640). Parte do tratado associa os corpos e os temperamentos dos seres humanos aos animais. “O rosto do homem tem muito a ver com a cabeça do cavalo; esta semelhança é visível na cabeça de Júlio César, e na estampa I [figura 2], onde se pode comprovar como o rosto próximo do cavalo deve ser longo e oval, com nariz longo e recto, ossos bem marcados, rosto duro, tal como as faces, preservando porém alguma delicadeza e doçura (…). A estampa V [figura 5] evidencia como a cabeça de Hércules, e a dos atletas, ou dos homens mais vigorosos, remete para o leão, mas com tanta arte e suavidade que se nos torna difícil discerni-lo (…) Para cada homem existe sempre um qualquer animal com o qual mais se aparenta ” (pág. 10-11). Nem mais, nem menos!


















