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Adrenalina

Pieter Paul Rubens. A queda de Ícaro. 1636.

Cosmos, estratosfera, voo, liberdade. Vertigem, aceleração, velocidade, adrenalina. Queda, mergulho, regeneração, biografia. Instante, Intensidade, vitalismo. Emoção, corpo, plenitude. Radical, risco, ousado, não convencional. A estética e a sensualidade como marcadores da experiência humana. Flores da nossa (pós)modernidade, valores do tempo presente. Cupra, marca do novo automóvel do grupo SEAT, aposta vigorosamente neste anúncio. Com a participação da atriz Nathalie Emmanuel (A Guerra dos Tronos) e música original de Loyle Carner, o anúncio estreia no intervalo do jogo de futebol entre o Real Madrid e o Barcelona.

Pieter Brueghel O Velho. Paisagem com a queda de Ícaro (ca. 1558).

As imagens do anúncio lembram a figura de Ícaro. Seguem duas pinturas: uma de Pieter Brueghel (Paisagem com a queda de Ícaro, 1558), a outra de Pieter Paul Rubens (A queda de Ícaro, 1636).

Marca: Cupra. Título: Drive, live, feel another way. Agência: &Rosas. Direção: Nicolas Mendez. Espanha, Janeiro 2021.

Transpiração

O olfato “é o sentido desagregador e anti-social por excelência” (Simmel, Georg. 1981. “Pour une sociologie des sens”, in Sociologie et épistémologie, Paris, PUF).

Jan Brueghel I &Peter Paul Rubens. Smell. Museu do Prado. Cerca de 1617-1618.

Pode um anúncio ser reflexivo? Funcionar como um espelho? É o objetivo da maior parte dos anúncios. A mais ínfima parte do corpo humano intervém na interação social. Um nada corporal, significativo, pode decidir a relação com o outro. E com o próprio. A transpiração é um excesso de comunicação, uma ameaça ao self, tal como, noutro registo, o ato incontrolado de corar. Bem sugeria Simmel que o odor separa e afasta. Quem não se revê nas inseguranças do protagonista, nos clichés dos seus receios e impasses? Gosto deste anúncio: consegue o que pretende. Aposta nas noções, religiosas, de condenação e de salvação. Entre ambas, uma epifania: o chamamento, a revelação e a graça do desodorizante Hidrofugal.

Marca: Hidrofugal. Título: Tommy. Alemanha, 2020.

Umbilicados, narcisistas e egoístas

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

The Universal Man, Liber Divinorum Operum of St. Hildegard of Bingen, 1165

Andamos precisados de uma onfalectomia (intervenção cirúrgica para a extracção do umbigo). Esta sociedade é a mais umbilical de toda a História. Nunca se umbilicou tanto. Mais que líquidos, plásticos, tribais ou pós-humanos, somos umbilicados. Não confundir com narcisistas. Narciso vê a sua imagem pelos seus olhos. O umbilicado vê o mundo pelo seu umbigo. Narciso mata-se, o umbilicado faz birra. Por seu turno, o egoísta zela pelos seus interesses, é heterocentrado, concentra-se nos outros; o umbilicado atende aos seus impulsos, é autocentrado, concentra-se em si mesmo. O egoísta conquista, o umbilicado reclama. Os umbilicados são o grau zero da solidariedade e da acção colectiva. Nós sem laços. Mais vale plantar pedras na serra da Peneda do que apascentar umbilicados na cidade.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.

Gerard van Kuijl. Narcissus. 1645.

Chuteiras bestiais

Tudo me lembra alguma coisa. Idade a mais, criatividade a menos. Sintonizo-me com a sociedade em que dizem que vivo. Nenhuma outra a sucede. É a última; e não avança. É tão “após”; e tão pouco “antes”! Pós-industrial, pós-colonial, pós-moderna, pós 11 de Setembro… Os milenaristas, os iluministas, os modernos e os marxistas erguiam a cabeça e viam a ponta do nariz. Entretanto, acabaram-se as grandes narrativas, a prevalência dos projectos e, até, a própria história. Somos a primeira sociedade orgulhosamente órfã do futuro! Consta que agarramos o presente… O presente não se agarra, vive-se. Faz-se. Para além da idade e da falta de criatividade, vivo nesta sociedade da repetição. Nestes moldes, recordar pode parecer  um desperdício. Quem não espera o futuro não tem por que se sentar no passado.


Marca: Adidas. Título: Instinct takes over. Internacional, Agosto 2014.

Vêm estes depautérios a propósito do último anúncio da Adidas: Instinct Takes Over. Em sequência acelerada e sincopada, o futebolista turco Mesut Özil é associado a diversos animais, cuja potência simbólica reverte para as chuteiras Predator. Pois, o anúncio lembra-me coisas antigas. Lembra-me as gravuras de quatro artistas, todos com um artigo no Tendências do Imaginário:

Giambattista della Porta (1535-1615): https://tendimag.com/2012/08/26/homens-e-bestas/
Ticiano Vecellio (c. 1485-1576): https://tendimag.com/2012/08/27/homens-e-bestas-2/
Peter Paul Rubens (1577-1640): https://tendimag.com/2012/08/29/homens-e-bestas-3/
Charles Le Brun (1619-1690): https://tendimag.com/2012/09/03/homens-e-bestas-4-charles-le-brun/.

Por estranho que pareça, recordar também pode ser uma forma de tomar balanço.

Homens e Bestas 3. Rubens

Théorie de la Figure Humaine é a tradução francesa, editada em 1773 (ver frontispício na figura 1), do original em latim da autoria de Peter Paul Rubens (1577-1640). Parte do tratado associa os corpos e os temperamentos dos seres humanos aos animais. “O rosto do homem tem muito a ver com a cabeça do cavalo; esta semelhança é visível na cabeça de Júlio César, e na estampa I [figura 2], onde se pode comprovar como o rosto próximo do cavalo deve ser longo e oval, com nariz longo e recto, ossos bem marcados, rosto duro, tal como as faces, preservando porém alguma delicadeza e doçura (…). A estampa V [figura 5] evidencia como a cabeça de Hércules, e a dos atletas, ou dos homens mais vigorosos, remete para o leão, mas com tanta arte e suavidade que se nos torna difícil discerni-lo (…) Para cada homem existe sempre um qualquer animal com o qual mais se aparenta ” (pág. 10-11). Nem mais, nem menos!