O nariz
O nariz é um órgão injustiçado. Abaixo dos olhos (ai os olhos!), acima dos lábios (ai os lábios!), o nariz (ui o nariz!) fica entre as orelhas (ui as orelhas!). O nariz é um órgão simbolicamente menosprezado. Não fosse Cleópatra e a humanidade nunca teria um nose turning. Graças ao anúncio da companhia de seguros Geico, deparamo-nos com narizes músicos, o que já se previa. Abusando da imaginação, as trompetas de Jericó foram, na realidade, narizes. No anúncio, o avô adormecido toca com o nariz o Flight of the Bumblebee, de Rimsky-Korsakov (ver https://tendimag.com/2018/06/12/chuva-dissolvente/). Mas que tem este concerto nasal a ver com uma companhia de seguros? Assim como os cirugiões seguram as mãos, urge meter no seguro o nariz do avô e do cão.
Marca: Geico. Título: Grandpa´s Nose Solo. Estados Unidos, Outubro 2018.
O anúncio Grandpa’s Nose Solo lembra a ópera O Nariz (1928), de Dmitri Shostakovich, inspirada no conto homónimo de Nicolai Gogol, publicado em 1836. Na Metamorfose (1915), de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em insecto. Na ópera de Shostakovich, o Major Kovaliov acorda sem nariz. Para não tentar a desgraça, convém desligar os pesadelos ao acordar.
Dmitri Shostakovich. The giant tap-dancing noses scene. The Nose (1928). The Royal Opera.
Chuva dissolvente
Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.
Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.
Acrescento um zumbido clássico.
Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.
Com um burro às costas. Música com humor.
Estive sete dias sem Internet. O apoio técnico por parte da operadora, a única entidade que o pode prestar, só chegou hoje. Uma simples troca de modem. Podia ter recorrido a outros acessos à Internet, mas estas conversas são pessoais e têm um nicho, a minha casa. Sou fetichista.
Há quem acredite que a técnica nos conduzirá à eternidade. Quanto a mim, a técnica, parente da obsolescência, é aceleradora da morte. Atropelam-se os funerais de técnicas de ponta, computadores incluídos. Deus não fez, neste mundo, obra perfeita. O que fez desfaz-se. Não faltam porém divindades de barro em busca da perfeição. São os piores inimigos da humanidade.
Neste País de mil leis, uma operadora não tem prazo para acudir a uma participação de avaria! E nem sequer é possível denunciar o contrato. Por causa da fidelização. Quando o poder político e o poder económico se sentam no mesmo banco, o melhor é o consumidor não se pôr a jeito. Para a próxima, pense duas vezes antes de avariar, não vá carregar dois burros às costas.
Esta abstinência digital lembrou-me quatro músicas dedicadas a animais. Na primeira, os burros zurram; na segunda, as galinhas esgaravatam; na terceira, os cucos parasitam; e na quarta, os zangões zumbem.
La Fête de l’Ane. Excerto. Música medieval. Clemencic Consort.
Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728. Sir Neville Merrimer.
Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735. Trevor Pinnok.
Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900. David Garrett.




