Moleza

Regresso de Melgaço com alguma fadiga no corpo e na alma. Subir e descer do ninho é mais dado à criação do que à idade. Excesso de afeto mói! No Jardim do Luxemburgo, em Paris, apreciava sentar-me junto à estátua de Verlaine. Com a ajuda de Léo Ferré, vou estender-me um momento a repousar na imaginação.
Jardin du Luxembourg. Paul Verlaine. Por Auguste de Niederhausem Rodo (1863-1913)
Os avatares do Tendências do Imaginário

“Car je est un autre” (Arthur Rimbaud, carta a Paul Demeny datada de 15 de maio de 1871).
Tenho três avatares: o Dionísio, o mais trágico e cínico; o Porfírio, o mais prometeico e entusiasta; e o Amâncio, o mais poético e sensível. Cada um é responsável pelo que assina e todos me fazem companhia. Seguem três exemplos de assinaturas:
– Uma máxima do Dionísio:
“Nunca desvalorizar os seres humanos, mas descrer sempre deles”.
– Um anúncio que convence o Porfírio:
– E um vídeo musical que comove o Amâncio:
As flores do mal

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).
Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).
Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.
O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.
O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.
Amigos da escuridão
”É errado dizer: Eu penso: dever-se-ia dizer: sou pensado – Perdão pelo jogo de palavras – Eu é um outro”. Assim escrevia Arthur Rimbaud em 1871. Somos bipolares, plurais, mutantes, camaleónicos, caleidoscópicos… Em suma, “eu sou vários”. Não somos feitos de uma peça só, não somos clarins, nem violinos. Sabemos isso há muito tempo. Basta ler as “Metamorfoses” de Ovídio, contemporâneo de Cristo. Não foi preciso esperar por Bakhtin, Goffman, Strauss, Bauman ou Deleuze. Duas figuras trágicas assombram, especialmente, o nosso imaginário: o lobisomem e o vampiro, ambos (nem) bestiais e (nem) humanos. O seu rastro no cinema é obsessivo: há dezenas de filmes com o lobisomem e o Drácula de Tod Browning data de 1931. Vem este arrazoado inútil a propósito do novo anúncio da Audi em que o carro assume o papel de um implacável exterminador de vampiros incautos. Bestial! Mas ecologicamente inconveniente. Importa proteger as espécies amigas da escuridão. Importa proteger-nos. Dostiévski, Baudelaire, Rimbaud, Wilde, Kafka agradecem.
Marca: Audi. Título: Vampire Party. EUA, Janeiro 2012.
