Goyesco

O Uber Eats estreou na Espanha sua nova campanha de marca, intitulada “Peça Quase Tudo”, em parceria com a agência Ogilvy e estrelada pelo ator Antonio Banderas. Natural de Málaga, o artista interpreta a si mesmo em uma narrativa divertida e caótica, na qual um pedido aparentemente simples acaba resultando em um “Goya inesperado (…)
A nova campanha do Uber Eats também aposta na irreverência ao incorporar elementos da cultura popular e da história da arte espanhola. Com toques de humor, o filme faz referência a obras icônicas de Francisco de Goya — como O Três de Maio de 1808, O Cão Meio Afundado e A Maja Vestida. A campanha ainda inclui uma citação divertida ao célebre “Ecce Homo” restaurado de forma desastrosa, agora reinterpretado como uma intervenção artística surreal.” (Acontecendo Aqui: https://acontecendoaqui.com.br/propaganda/quando-o-goya-chega-no-delivery-antonio-banderas-vive-momento-surreal-com-uber-eats/).
Zodíaco do Antigo Egipto. Entre o sonho e a realidade

“Dói-te alguma coisa?
Dói-me a vida, doutor.
E o que fazes quando te assaltam essas dores?
O que melhor sei fazer, excelência.
E o que é?
É sonhar.”
(Mia Couto, O fio das missangas. Caminho, 2003)
Sonho, logo insisto! No palco de um teatro grego, a Universidade retira a máscara clássica e anda de mãos dadas com a Farsa, enquanto, devagar e sorrateiro, se aproxima o Trágico. Dou um esticão nos neurónios e catapulto-me para o outro lado do Mediterrâneo. No que resta do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egito, a 50 quilômetros ao sul de Luxor, a poeira de séculos e as inconveniências das aves ocultam relevos magníficos e pinturas prodigiosas.
Oportuna, uma equipa de arqueólogos da universidade alemã de Tübingen empenha-se numa lenta e longa limpeza, sistemática, profunda e cuidada das colunas, paredes e tetos. À semelhança dos frescos e mosaicos de Pompeia, o que cobre acaba por preservar. Oferece-se uma policromia extraordinária, quase intacta, de deuses híbridos e figuras astrológicas, incluindo um zodíaco da era ptolemaica, motivo raro importado dos babilónios ou dos romanos, que, milenar, nos interpela. Um tesouro insuspeito de cores vivas. O Egipto não se cansa de nos surpreender!
E flutuo, lúdico, a ensaiar identificar os signos: sagitário, escorpião, leão, balança, gémeos… Eis que, de súbito, esferas animadas dançam na noite escura do ecrã. Estremeço, belisco-me, esfrego os olhos… Afinal, não são sonhos, senhor(a), mas realidades!
Galeria: Fotografias do Templo de Khnum em Esna, no Alto Egipto

















Restaurado

Missão cumprida. À seguinte! A conversa “A Arte do Restauro: Alcance e Dilemas” (Conhecer o Mosteiro de Tibães. Curso: Restauro, Sala das Cavalariças do Mosteiro de Tibães, 14/10/2023) correu melhor do que temia atendendo à insuficiente preparação (ando a espremer os minutos). Senti-me em casa, na grata companhia da Margarida Coelho e da Aida Mata. O Mosteiro de Tibães tem sido um abrigo. A título individual ou com os cursos de sociologia da Universidade do Minho, designadamente o mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, cujos alunos tiveram a gentileza de comparecer. Para além de várias comunicações, recordo o seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo (2005), a exposição Vertigens do Barroco: em Jerónimo Baía e na Atualidade (2007), os Encontros de Sociologia (2018 e 2019) e as aulas em contexto, anuais, sobre a Educação pelos Sentidos no Mosteiro. Regresso, portanto, como quem nunca se despediu, feliz pelo reencontro, à vontade e satisfação que são, à partida, meio caminho andado para cativar o público, que não deixou cadeiras vazias.

Cumpria-me abrir dispondo de uma hora. Sem cuidar, excedi-me. Quando perguntei pelo tempo de que dispunha, afinal, já o tinha ultrapassado. Soy muy raro, como dizem os espanhóis: palrador em público, calado em privado. Afortunadamente, a audiência não aparentou acusar o abuso. O estilo ajudou. Descontraído e despretensioso, a namorar por vezes a confidência. Com uma enxurrada de diapositivos à mistura (38 imagens de pinturas e esculturas), atraentes e surpreendentes. Conquistam cada vez maior protagonismo. Intervalam a soporífera monotonia da oralidade. Aprendi como docente com os alunos que a concentração e a atenção pedem momentos de distração e descompressão.
Acrescem como amortecedores da massagem a arte e o motivo da comunicação. Com a idade, fui degenerando. A aposentação e o afastamento da universidade agravaram a tendência. Dispenso cada vez mais o coro das generalidades e das grandes teorias. Prefiro o concreto e o particular: o caso. Conto historinhas, de preferência extraídas da minha própria experiência. Partilho assim testemunhos únicos. Promovo, efetivamente, partilha, originalidade e imprevisibilidade.

O teórico e o nomotético emergem do concreto e do particular, com uma espessura quase corporal. Nas antípodas do modelo da aula académica, salto, saboreando, de assunto em assunto. E divirto-me, sobrepondo o prazer ao saber. Inspiro-me mais no Perrault e no La Fontaine do que no Descartes ou no Kant. Encadeio episódios que sugerem, quando muito, uma ou outra elação proverbial.
Assumir que o discurso voa baixo, que não se pretende teórico, não implica que a teoria esteja ausente. Semelhante quimera não é possível! “Está no sangue”. Se existe algo que a universidade inculca são teorias. Exposto uma vida, quase meio século, não há modo de escapar ao veneno. Por outro lado, proporciona-me imenso gozo sentir os pequenos pormenores, palavras soltas, a beliscar ou a fazer cócegas às teorias.

Ainda de ressaca, este memorando de escrita automática, amaneirado quanto baste, já vai demasiado longo. Estou cansado. Proponho-me publicar uma ou outra historinha da conversa sobre o restauro. Por enquanto, não disponho de tempo. Sexta, volto a ter espetáculo. Em Melgaço, no Serão dos Medos, de que sou o animador. Aguardam-me duas conferências e uma conversa coletiva “socioterapêutica” em torno das premonições e dos prenúncios de morte. De motivo em motivo, sem repetir, vou(-me) entretendo.
Estou a ouvir a banda sonora do filme Into The Wild, de 2007. Mas, não obstante me embalar a voz escorreita do Eddie Vedder, opto pela irreverência do Klaus Nomi. Seguem três canções inéditas no Tendências do Imaginário que já contempla uma dezena deste contratenor excecional que, precocemente falecido em 1983, foi uma das primeiras vítimas conhecidas da SIDA: Lighting Strikes; Wasting My Time; e Simple Man.
Conhecer o Mosteiro de Tibães. Curso: A Recuperação
É já amanhã!

Vestir os Nus. Vídeo da conferência
Eu saí nu do ventre da minha mãe e nu hei de voltar ao seio da terra. Deus mo deu, Deus mo tirou (Job: 1:21)
Na última década e meia, pouco me preocupei com a divulgação dos meus estudos. Quando muito um ou outro apontamento no blogue Tendências do Imaginário. Entretanto, a predisposição mudou. Passei a atender à transmissão dos conhecimentos amealhados, desde que pelos canais e do modo que bem entendo: sem demandas, candidaturas ou submissões. Multiplico, portanto, conversas e partilhas. Durante três dias a fio, empenhei-me na montagem do vídeo da conferência “Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte”. Embora obra de amador, não deixo de apresentar o resultado obtido.
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Acabei de me inteirar de um novo caso de “agasalho de um nu”. Desta vez, o São Sebastião, de Guido Reni (1617-1618), da coleção do Museu do Prado. Acabado de restaurar, o original está exposto desde o mês de março.
Ésquilo, o abutre e a tartaruga


Ando absorvido, acelerado e fragmentado. Excessivo na recuperação do tempo perdido, sinto-me a ultrapassar o ponto previsto pelo princípio de Peter. Quinta, 15, entrevista aos Porto Canal sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro; sábado, 18, a conferência “Vestir os Nus”, no Museu D. Diogo de Sousa; ontem, 24, arguição da dissertação, excelente, de Sílvio Messias dedicada à figura do palhaço; hoje e amanhã, últimos retoques no capítulo “Castro Laboreiro: Acessibilidade e migrações até aos anos 1930”; na próxima semana, duas atividades previstas no âmbito do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza (BRAGA) de que sou membro; na quinta, 2 de março, gravação de entrevista sobre o nu na sociedade atual para o programa da A Voz do Cidadão, da RTP, a emitir sábado, 4 de março, às 14 horas; no sábado, de manhã, às 10 horas, aula “A arte do restauro: Alcance e dilemas”, no mosteiro de Tibães (ver programa anexo).

Mais tartarugas me vão cair, certamente, na cabeça. Poucas folgas para o Tendências do Imaginário e o Margens. A agenda lembra demasiado o ritmo e as variações de algumas composições espanholas. Sem a formosura das intérpretes Ana Vidovic e Alexandra Whittingham. Não me resta outra solução senão abrandar e fazer escolhas. Como se costuma dizer, já não tenho estofo nem pedalada para tanto.
A propósito da “queda de tartarugas na careca”, Jean-Martin Rabot, uma autêntica enciclopédia dos óbitos de celebridades, relata este derradeiro episódio de Ésquilo, completamente calvo, na ilha da Sicília.
Algumas aves quando pretendem quebrar um objeto duro, agarram-no, sobem alto e deixam-no cair. Um abutre pegou uma tartaruga e lançou-a contra o que lhe pareceu uma pedra a brilhar no solo. Era a cabeça de Ésquilo que caiu fulminado.



