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Sociocídio

Escultura alusiva ao conto O Rei Vai Nu, de Hans-Christian Anderson. Colónia. Alemanha.

Escultura alusiva ao conto O Rei Vai Nu, de Hans-Christian Anderson. Colónia.

“Não existe defeito que, com o tempo, numa sociedade corrupta, não se torne um mérito, nem vício que a convenção não consiga elevar à virtude (Alvaro Corrado, Il nostro tempo e la speranza, Milano, Bompiani, 1952).

Hoje, é dia do Senhor, e dos bons pensamentos. Neste mundo, é mais fácil valorizar os defeitos ou as qualidades? Que a resposta não salte da ponta da língua mas mergulhe na inteligência. O disparate desnuda o Rei. Perguntas sem resposta estimulam, como diria Hercule Poirot, “as pequenas células cinzentas”. Hoje, dia do Senhor, abraço uma “nova regra sociológica”: Não cometer sociocídio, no sentido de não mumificar a vida social. Não reifiques, semeia! Stoopid?

Alice Cooper. Hey Stoopid. Álbum homónimo. 1991.

Um Mundo Bobo

The Fool’s Cap Map of the World, circa 1580-1590

The Fool’s Cap Map of the World, circa 1580-1590

Desde Pitágoras e Aristóteles que a terra é um globo. Sempre a globalizar-se. Hoje, globalização é uma palavra mestre. Sem deixar de  ser grande, o mundo está a ficar mais pequeno… Comprime-se. Aumenta a acessibilidade e a exposição. E o tempo? Será que a abertura espacial se presta a um encolhimento do tempo, designadamente histórico? Quanto mais nos perdemos no tempo, mais pressentimos a estreiteza do espaço. Um espaço sem distância e um tempo sem espessura. Acode-me um conceito, ora pedante, ora vadio, de uma certa tradição marxista (Georg Lukacs, Lucien Goldmann, Joseph Gabel, Herbert Marcuse, Karel Kosic): reificação. Folhas sem tronco nem raiz; flores sem terra. Em tempos idos, alguém concebeu um mundo globalizado bobo. Quatro séculos depois, estamos a vivê-lo.

Plantu

Plantu

A mulher, o homem e o objecto

A figura da mulher centrada nos seus dotes corporais parece em vias de desaparecimento nos anúncios publicitários. Esvazia-se, assim, uma relação pavloviana que remonta, pelo menos, às origens da reprodução técnica da imagem. Esvaziamento por desgaste, mas também por censura, como é o caso da campanha brasileira em curso, “Hope: lessons”, com a modelo Gisele Bündchen.

Em contrapartida, o homem surge cada vez mais na publicidade a exibir os seus atributos corporais. Os anúncios com homens objecto são tantos que se torna difícil seleccionar exemplos. Assinale-se, como quem murmura, as marcas Nespresso e Axe. Mas o lado predador masculino não desaparece, apenas se dobra: o homem tornou-se num caçador caçado. Os homens atraentes dos anúncios Axe resumem-se a presas expostas a predadoras persistentes, sejam elas anjos ou demónios. Esta caricatura do homem não é exclusiva do ecrã, multiplica-se na experiência quotidiana onde se alteraram as regras de conveniência, os padrões estéticos, as apetências dos consumidores e as relações de género. Acresce que os movimentos masculinistas, sem lustro, nem eficácia, acabam por descuidar a denúncia dos abusos (da imagem do homem) às altas autoridades da publicidade. Fazem mal! Porque proibir é uma forma de dissuadir.

Focalizar o olhar na mulher objecto e no homem objecto comporta o risco de se passar ao lado da realidade emergente. Para além da crescente eufemização, o homem objecto e a mulher objecto têm vindo a ser substituídos por objectos “humanos”. Os homem objecto rivaliza com os objectos humanizados, que, à semelhança da mercadoria de Karl Marx, rodopiam incorporando propriedades humanas. São agora os objectos que, de algum modo, nos fazem salivar. Neste contexto, o conceito de reificação de Karl Marx e Georg Lukacs nunca foi tão actual e tão esquecido.

Estes três anúncios inserem-se neste deslize do humano objecto para o objecto humano. O anúncio da Perrier foi produzido, e logo proibido, em 1976. É um clássico da publicidade que mostra que o fenómeno tem os seus pergaminhos. Os restantes, “Toy Boy” (1999) e “Contrexperience” (2011) , ilustram o nível de refinamento, e de projecção, associado ao “sex appeal do inorgânico” (Mario Perniola). Nos três casos, a mulher toma a iniciativa.

Marca: Perrier. Título: Bouteille. Agência: Langelaan & Cerf. Direcção: Bernard Lemoine. França, 1976.

Marca: Hyundai. Título: Toy Boy. Agência: Leo Burnett. Direcção: Jitzmark/Ericstam. Suécia, 1999.

Marca: Contrex. Título: Contrexperience. Agência: Marcel Paris. França, Outubro 2011.