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A assobiar para a frente

Transeuntes, trabalhadores, palhaços, espantalhos ou esqueletos, para onde vamos a assobiar para a frente? Quem é o flautista?

Telstra – Wherever we go 2. Agência: Bear Meets Eagle On Fire. Austrália, março 2026
Telstra – wherever we go 2. Construction. Agência: Bear Meets Eagle On Fire. Austrália, março 2026
Telstra – wherever we go 2. Skeleton. Agência: Bear Meets Eagle On Fire. Austrália, março 2026
Telstra: Wherever we go 2 – Clown. Agência: Bear Meets Eagle On Fire. Austrália, março 2026

Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.

Camisola com faíscas

Fotografia: Álvaro Domingues.

O Álvaro Domingues é uma inspiração abençoada. A crónica “Paisagem eléctrica com rebanho” (Público, 09/03/2019) baralha qualquer algoritmo de ideias.

Um rebanho apascenta à sombra de painéis fotovoltaicos. Talvez a lã se destine a uma nova produção de camisolas Thermotebe, as únicas com “características turboeléctricas”, capazes de resistir ao arrefecimento global. O algodão já não engana. Respeitando determinadas proporções no fabrico, a lã destas ovelhas faz faíscas.

As camisolas Thermotebe deixaram de se produzir há cerca de 20 anos, tendo alcançado nos anos oitenta um sucesso internacional espantoso (https://observador.pt/2015/02/15/tem-frio-isso-e-porque-ja-nao-existe-thermotebe/). Com a ajuda dos painéis fotovoltaicos e a boa vontade das ovelhas, reúnem-se condições para voltar a investir na produção de camisolas Thermotebe, com o lema: “Thermotebe, a camisola amiga do ambiente”.

Thermotebe. Portugal.

Funcionários do espírito

O mais avisado é não escrever nada. Acrescentar apenas uma ilustração.

Quino. Monotonia

Quino. Monotonia.

Ignorância de estimação

Nietzsche

O PINTOR REALISTA
“A Natureza”; fiel e completa!” Como pode ele
chegar a isso?
Quando é que alguma vez se conseguiu liquidar a
natureza numa imagem?
A minha ínfima parcela do mundo é uma coisa infinita!
Dele só pinta aquilo que lhe agrada.
E o que é que lhe agrada? Aquilo que sabe pintar!
(Nietzsche, Frederico, 1882, A Gaia Ciência, Lisboa, Guimarães Editores, 1996, p. 31).

Abraham Kaplan (The conduct of inquiry: methodology for behavioral science, 1964) ilustra uma falácia habitual na Sociologia com a seguinte anedota:

Noite cerrada, um bêbado regressa, cambaleante, a casa. Chegado à porta, não encontra a chave. Começa a procurar. Passa um segundo bêbado que lhe pergunta:
– Que estás a fazer?
– A procurar uma chave.
– E perdeste-a junto ao candeeiro?
– Não sei! Mas aqui vê-se melhor.

Estou em crer que a falácia denunciada por Nietzsche e Kaplan é um vírus ainda activo. Investiga-se o investigado e comunica-se o comunicado. O que “se sabe pintar”. O resto pode inexistir à vontade. Estatisticamente falando, a distribuição da investigação científica por temas aproxima-se mais de uma distribuição de Student do que de uma distribuição normal. A ciência apraz-se a “chover no molhado”. Segundo Vilfredo Pareto, existem elites em todo o lado. Em todo o lado, existem membros que se destacam. Sobre as elites, produziram-se muitos estudos. Em todas as categorias sociais, existem parasitas. Um fenómeno da maior relevância. E, no entanto, pouca obra sobre o assunto. Para encontrar uma obra dedicada ao parasitismo social, convém pedir a Diógenes de Sínope a lanterna com que procura o homem. Trata-se, porventura, de uma “douta ignorância” (Pierre Bourdieu).

O mundo da ciência é uma caricatura. Quanto mais saturado está um domínio, mais rende. Mais encontros, mais parceiros, mais citações, mais revistas e, sobretudo, mais afinidades nos concursos e nos financiamentos. Se insiste em ser parvo, seja original!

Distribuição t de Student

Distribuição de t de Student

Distribuição normal

Distribuição normal