O piano, as mãos e o resto.

As palavras pedem férias. Enquanto não as leva o vento, não nos dão tréguas. As palavras são a coisa humana mais infestante.
Khatia Buniatishvili é uma pianista célebre, famosa pelas mãos e pelos decotes. Seguem três interpretações: Rachmaninov, Schubert e Brahms.
Querido mês de Agosto. As costas também andam.

Escrever como quem brinca.
Agosto está a acabar. Não é verdade que “é em Setembro que se pode viver a sério” (Gilbert Bécaud, C’est en septembre, 1978). Em Setembro, a vida torna-se séria, sisuda.
Agosto, mês dos banhos; ninho dos deslocados; aceleração dos atrelados. Em Agosto, queima a areia, o fogo, o ar, o corpo; as romarias escaldam. Nos corredores de Setembro, não há portas para o sagrado (se se proporcionar: Gonçalves, Albertino & Gonçalves Conceição, “Uma vida entre parênteses: tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”).
Despeço-me de Agosto com Rachmaninov. Logicamente, não sei a razão da escolha. Se fosse místico, diria que foi Rachmaninov que me escolheu. Um êxtase ou uma aparição. Quando algo assenta bem não costumo fazer muitas perguntas. Basta o milagre!
All by myself, um sucesso dos anos setenta, de Eric Carmen, inspira-se no Piano concerto nº2, de Rachmaninov. Dar as mãos é uma bênção. Bem como admitir que quando andamos, as costas também andam. All by myself. Nunca me pressenti tão só como no mês de Setembro. Mea culpa!
A melodia do repouso
Nos últimos quatro dias, tive que escrever dois textos: um sobre a street food, outro sobre a fotografia. Como diria La Palice: quem não é especialista de nada acaba especialista de tudo. Para descansar das letras, costumo ouvir música. Nem livros, nem vídeos. Procurar músicas dá trabalho, mas é um trabalho que descansa. Gosto do violinista Joshua Bell. Tem um toque humano. Um dia foi tocar para o metro. Ninguém lhe prestou a mínima atenção. O Tendências do Imaginário já contempla uma ou outra música interpretada por Joshua Bell. Acrescento duas: uma de Dvorak, outra de Rachmaninov.
Joshua Bell. Dvořák. Zigeunerlieder. Gypsy Songs, opus 55.
Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.

