Tag Archive | Preconceito

Kiss my ass (Beija minha bunda)

asta-philpot-video

Todo o tempo é pouco para a beata burocracia. Após um jejum de vários dias, regresso ao blogue com este Beyond Appearances – Diversity Song, um anúncio impatante, combativo, com garra, senão raiva, contra o preconceito, a discriminação e o estigma. Interpela as boas consciências. Termina com um trunfo, um joker, inesperado: o intérprete da canção, Asta Philpot, sofre de artrogripose. O anúncio desconcerta-nos desmontando, caso a caso, a ilusão das primeiras impressões. Os agredidos tornam-se agressivos? Eles ou quem os representa? Quem fala, a pessoa ou a máscara pública? Segue uma passagem do livro Estigma, de Erving Goffman. Pensar e agir, no que respeita à discriminação e ao estigma, é caminhar em terreno movediço.

https://vimeo.com/118030728

Anunciante: Asta Philipot Foundation. Título: Beyond Appearances – The Diversity Song. Agência: Being Paris. Direcção: Pierre Edelmann. França, Abril 2014.

“Assim, mesmo que se diga ao indivíduo estigmatizado que ele é um ser humano como outro qualquer, diz-se-lhe que não seria sensato tentar encobrir-se ou abandonar “seu” grupo. Em resumo, diz-se-lhe que ele é igual a qualquer outra pessoa e que não o é – embora os porta-vozes concordem pouco entre si em relação a até que ponto ele deva pretender ser um ou outro. Essa contradição e essa pilhéria constituem a sua sorte e o seu destino. Elas desafiam constantemente aqueles que representam o estigmatizado, obrigando esses profissionais a apresentar uma política coerente de identidade, permitindo-lhes que percebam logo os aspectos “inautênticos” de outros programas recomendados, mas, ao mesmo tempo com muita lentidão, que não pode haver nenhuma solução “autêntica”.

O indivíduo estigmatizado, assim, se vê numa arena de argumentos e discussões detalhados referentes ao que ele deveria pensar de si mesmo, ou seja, à identidade do seu eu. Aos demais problemas, ele deve acrescentar o de ser simultaneamente empurrado em várias direcções por profissionais que lhe dizem o que deve fazer e pensar sobre o que ele é e não é, e tudo isso, pretensamente, em seu próprio benefício. Escrever ou fazer discursos defendendo qualquer uma dessas saídas é, em si, uma solução interessante, mas que, infelizmente, é negada à maior parte dos que simplesmente lêem e escutam.” (Erving Goffman, Estigma).

Imagens do outro

Exposition Coloniale  de Paris. 1931

Estes dois anúncios propõem uma representação do outro. O primeiro, Chez les antropophages, da Gitane, foi publicado em 1932, no rescaldo da Exposição Colonial Internacional de Paris, de 1931 (ver Albertino Gonçalves, Quando a janela é postal: http://postaisilustrados.blogspot.pt/2008/08/quando-janela-um-postal.html). O segundo, Papou, da Brun, foi lançado 47 anos depois. Já não há antropófagos, apenas comilões de bolachas com chocolate.

Não vou comentar os anúncios. O meu colega Luís Cunha fez, há anos, um estudo sobre “A imagem do negro na B.D. do Estado Novo” (Cunha, Luís M. J. 1995, Cadernos do Noroeste, 8 (1): 89-112). Convido-o a escrever o comentário.

Marca: Gitane. Título: Chez les antropophages. França, 1932.

Marca: Brun. Título: Les Papous. França, 1979.

O lado feminino do homem

Granja del SolPanar alguns preconceitos de género e fritá-los com desenvoltura. O masculino agradecerá ao feminino. Eis uma receita corrente mas não antiga: nem sempre se assumiu que o masculino tem um lado feminino.

Marca: Granja del Sol. Título: Lado Feminino. Agência: Cravero (Buenos Aires). Direção: Javier Garrido. Argentina, 2013.

Desconforto

Fondation Abbé Pierre. La Maison

Uma das virtudes da ficção consiste em mostrar-nos a realidade. Uma realidade que os nossos olhos não estão habituados a ver, a não ser emoldurada no ecrã. É o caso das condições miseráveis de habitação de muitos dos nossos concidadãos.

Anunciante: Fondation Abbé Pierre. Título : La Maison. Agência: BDDP & fils, Paris. Direção: Valérie Pirson. França, Novembro 2012.

Dar música à reflexividade

Não é para moralizar, nem para solidarizar, nem para incluir, nem para promover um estudo de caso. É só para reflectir, ou, como se diz agora com outro lustro teórico, para dar corda à reflexividade. Às vezes, a publicidade de consciencialização faz jus ao nome. Louvemos!

“One of Australia’s most celebrated bands, Rudely Interrupted is an independent rock group with five of the six members living with disabilities.
They are supporting ‘See The Person’ Week through the release of this new single and live performances around Melbourne.”

Anunciante: Scope. Título: See the person. Agência: Leo Burnett Melbourne. Direcção: Tov Belling. Austrália, Junho 2011.

Awards: Spikes Asia 2011 Film Product & Service Gold; Spikes Asia 2011 Film Craft Craft: TV Gold; Cannes Lions 2011 Film Lions Public Awareness Messages Gold.

As tesouras do preconceito

O anúncio da Otrivin culmina com uma surpresa. A menina apenas está constipada e nós sofremos de preconceito. Pergunto: quem não reagiu como a professora?

Este anúncio (Otrivin) e o do post anterior (Cadillac) não deixam de me intrigar. Nenhum predispõe bem o espectador. Não lhe levantam o ego nem lhe estimulam o humor. Geram apreensão e constrangimento. São disfóricos. Deixando Masoch em paz, somos tentados a admitir que o desprazer pode cativar ou, no mínimo, convencer. O medo, a frustração, a raiva, a dor também são sentimentos capazes de nos mover. Esta é, por sinal, a receita adoptada por boa parte da publicidade dita de sensibilização.

Anunciante: Novartis. Título: Scissors. Agência: Saatchi & Saatchi. Direcção: Sam Holst. Suíça, 2011.