Anúncio português vintage 5: As Algemas
O preconceito imagina a realidade dispensando alternativas (ver Com a verdade me enganas e Falácias da Perceção). O anúncio “Algemas”, da associação Olho Vivo, apanha-nos, desprevenidos, em flagrante. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo]

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A Almerinda Van Der Giezen acaba de me enviar este vídeo com a canção “Atmosphere” dos Joy Division. Para além de recordar o Ian Curtis, creio que se ajusta, com a devida gravidade, a este artigo.
Crise da reflexividade crítica e autodestruição
A quem nunca tem dúvidas e raramente se engana

El sueño de la razón produce monstruos (Francisco de Goya)
Preocupam algumas dinâmicas e tendências atuais. Em particular, a crescente mobilização em termos raciais, étnicos, religiosos, nacionalistas… com pretensas estirpes naturais, “antropológicas” e “biológicas”. Por exemplo, vários maniqueísmos tais como filias e fobias sionistas e islamistas.

“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e pessoas da história mundial acontecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, 1ª ed. 1852). Nada impede, porém, que se repitam como tragédias, eventualmente maiores.
Imagem: Francisco de Goya. Visión fantasmal, ca.1801

Parece estar em curso um eclipse do propriamente político e do espírito (auto) crítico. O regresso à identificação e ao pensamento automáticos e estereotipados. Convém recordar o mundo e, especialmente, a Europa antes da primeira e da segunda guerras mundiais.
Imagem: Francisco Goya (atribuído a). O colosso. Após 1808
Para complicar, a história também revela que a mera razão não é suficiente para enfrentar o delírio simbólico. Sem o sustento e o fermento do imaginário e do emocional pouco consegue. O racional carece de uma centelha irracional para se manter aceso, para motivar e mover os seres humanos.

Existem anúncios de consciencialização que se propõem, e podem, ajudar. É o caso do anúncio “The 100th Edition”, do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Grande Prémio, na categoria “impresso”, no âmbito dos 2024 New York Festivals Advertising Awards.
Imagem: Francisco de Goya. Pátio de um manicómio. 1794
Hegel e Marx podem estar certos. É plausível que a história se repita de um modo cíclico ou em espiral. Mas existe uma realidade que não obedece a este retorno. Não só não recua como não para de avançar: a capacidade humana de autodestruição.
Mãos que protegem; mãos que castigam

Moi j’ai les mains sales. Jusqu’aux coudes. Je les ai plongées dans la merde et dans le sang. Et puis après ? Est-ce que tu t’imagines qu’on peut gouverner innocemment ? (Jean-Paul Sartre. Les Mains Sales. Éditions Gallimard. 1948. Pág. 200)
A associação francesa StopVEO Enfance Sans Violences acaba de publicar um anúncio de sensibilização excelente a alertar para a violência de que são vítimas as crianças com a justificação de contribuir para a sua educação. A mão, motivo principal brilhantemente explorado, remete sobretudo para o contato físico. Aguarda-se uma segunda parte que incida sobre a cabeça e a violência psicológica. Evidência que a Stop VEO não ignora:
“L’acronyme « VEO » est la Violence (physique, psychologique ou verbale) utilisée envers les enfants dans une intention Éducative (pour leur « bien », pour qu’ils aient un « bon comportement »), culturellement admise et tolérée, dans tous les lieux et tous les milieux ; elle en devient alors « Ordinaire ».”
“Les conséquences de la VEO sont considérables. Elles constituent une question de santé publique parce qu’elle est encore très largement employée : 85 % des parents reconnaissent avoir recours à la fessée (71,5% à des « petites gifles »). La moitié des enfants sont frappés avant l’âge de 2 ans, et les trois quarts avant l’âge de 5 ans (étude menée par l’OVEO (Observatoire de la violence éducative ordinaire) en 2017)”. (https://stopveo.org/veo-violence-educative-ordinaire/)
It’s the age, stupid! Discriminação etária

Uma vez assente a poeira, gostaria de revisitar uma bolha mediática que, pela mão de políticos e da comunicação social, absorveu e preocupou os portugueses.
Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros (Título de artigo, 08 nov, 2022: https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2022/11/08/jovem-de-21-anos-sai-da-faculdade-para-o-governo-e-vai-ganhar-quatro-mil-euros/307102/).
Aponta-se o dedo, mediático, a uma “anomalia”: suspeita-se de entorse político. Até que ponto é admissível um jovem de 21 anos ir para o governo ganhar quatro mil euros? Inverto a pergunta: por que é que não é possível? Por causa da idade, por ter 21 anos? Este é o nó da discórdia, os outros argumentos convocados ou são meros corolários ou falácias. Assumir que um jovem de 21 anos não deve ir para o governo ganhar 4 000 euros, brutos, é um preconceito entranhado que se traduz numa discriminação abusiva baseada na idade. E, no entanto, quanta obra notável da história da humanidade empreendida por pessoas com menos de 21 anos na música, na arte e na literatura, na ciência e na técnica, na economia, na política e na guerra! Tal como não existe raça ou género, também não existe idade que diminua, à partida, um ser humano. Esta penalização pela idade, por mais espontânea que seja, nem sempre é bem-intencionada. Neste caso, o denunciante é tão suspeito quanto o denunciado.
A experiência profissional oferece-se, de algum modo, como um corolário da idade, um avatar preconceituoso, logo nem sempre justificado, que dificulta o acesso dos mais jovens à vida ativa. Configura um preconceito considerar mais garantia para a assessoria de um órgão do governo a experiência profissional, seja ela qual for, em detrimento das experiências política e de gestão associativa, sejam elas quais forem.
Em suma, discriminação e preconceito de braço dado.
Jovem de 21 anos sai da faculdade para o Governo e vai ganhar quatro mil euros
(…) Um jovem de 21 anos que acabou recentemente o curso de Direito foi contratado para ser adjunto da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, sem ter qualquer experiência profissional.
Tiago Alberto Cunha vai ganhar cerca de quatro mil euros brutos por mês.
Segundo a nota biográfica publicada em Diário da República, Tiago acabou o curso de Direito no ano passado, na Universidade do Porto, e este ano ingressou no mestrado na Universidade de Lisboa, na mesma área.
Nas últimas autárquicas foi candidato à Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia pelo Partido Socialista, não tendo no entanto sido eleito. Ocupava o 32.º lugar da lista.
Entre 2020 e 2021, o agora adjunto de Mariana Vieira da Silva foi secretário-geral do Conselho Nacional de Estudantes de Direito (CNED).
Faz também parte da Assmblei de Freguesia de Vilar de Andorinho, em Vila Nova de Gaia.”
Lição de género

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).
É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.
Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.
Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.
Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.
O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.
“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.
O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:
“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).
Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?
Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.
És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).
Racismos
“Somos sempre o estranho de alguém. Aprender a viver em conjunto, eis o que é lutar contra o racismo” (Jelloun, Tahar Ben, 1998, Le racisme expliqué à ma fille, Paris, Éditions du Seuil).
O anúncio português O mundo está cheio de pessoas assim, de Festival Política, não condiz com a quadra. O que vale é que a quadra natalícia não é nenhum espanador de ideias.
O racismo contamina a relação com o outro. E, dialogicamente, a relação consigo mesmo. O racismo é uma poluição humana. Caricaturar o outro, rebaixá-lo, estigmatizá-lo e reduzi-lo a um exemplar não se me afigura anti-racismo. Antes pelo contrário. O racismo é uma falácia, uma entorse do espírito, a que ninguém é imune. Todos somos vulneráveis. É avassaladora a tentação de embalsamar o outro com os nossos medos e as nossas certezas. O racista está convencido que escreve direito por linhas tortas. Ousemos escrever torto por linhas direitas.
Marca: Festival Política. Título: O mundo está cheio de pessoas assim. Agência: 004. Direcção: Gonçalo Franco. Portugal, Abril 2017.
Sob suspeita
Prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos (Jean-Jacques Rousseau [1762], Émile, La Pléiade, IV, pág. 323).
Um anúncio de consciencialização que incide, sem eufemismos nem artifícios, num problema específico é uma dádiva rara. Que obstáculos enfrenta uma pessoa, nomeadamente uma mulher, que pretende retomar a actividade profissional? A “campanha contra os preconceitos” da associação Tissons la Solidarité encena um diálogo desigual entre uma mulher à procura de emprego e o responsável pelos recursos humanos da empresa, que sabe o que quer. Não quer, por exemplo, contratar quem interrompeu a carreira profissional. Pelos vistos, é mau sinal, sinal de dúvida acerca da motivação da candidata. Findo o crivo, resta à candidata agradecer a mortificação do eu a que foi submetida. O disparate não reside nos preconceitos do responsável pelos recursos humanos. Este é apenas um intérprete da política laboral desta e de outras empresas. Explícito, este anúncio não é hiper-real. Mas é duro. Consciencializar não é ameaçar, mas enquadrar e esclarecer. O preconceito, o estigma e a injustiça no trabalho amesquinham a nossa cidadania.
Anunciante: Tissons la Solidarité. Título: Entretien avec Mathilda May. Agência : Publicis Conseil. Direcção : Jérome Bonnel. França, Fevereiro 2017.
A Cor dos Caras Pálidas
Os caras pálidas são uns troca-tintas. Mudam de cor como quem muda de pele. Não são unos. Nem puros. Nada são em permanência. E depois? É preciso ser claramente coisa alguma? Ser-se, como se diz, igual a si próprio? Arriscado é combater o racismo com os argumentos do racismo. Este anúncio faz sentido com sentido de humor. Eventualmente, como paródia de si mesmo.
Anunciante: Anti Racism. Título: Dear White fella: Colours of racism. Agência: M&C Saatchi. Direcção: Chris Palmer. UK, 2001.
Violência é violência
Sabe-se que existem vítimas masculinas da violência doméstica. Os próprios organismos de apoio à vítima o testemunham directamente. Sabe-se, mas não se releva. O preconceito e a ideologia servem para evidenciar mas também para encobrir. O primeiro sentido do conceito de ideologia era, precisamente, “disfarce interessado”. Há um lado oculto da lua. E a lua teima em dar voltas. A Mankind Initiative é uma associação britânica de apoio às vítimas masculinas da violência doméstica. Afiança que “40% of domestic violence is against men in the UK”. Permito-me duvidar. A Mankind Initiative produziu, em 2013, um documentário dedicado ao tema: http://www.youtube.com/watch?v=-YNkuc6n1KU. Oxalá a nossa cegueira não esteja a fazer estragos. Porque, com mais ou menos chocolate, uma pessoa é uma pessoa. Segue o anúncio Violence is Violence.
Anunciante: Mankind Initiative. Título: Violence is Violence. Agência: Dare London. Direção: David Stoddart. UK, Maio 2014.




