A microfísica do prazer. Sociologia sem palavras 16.
O episódio do banquete no filme A Festa de Babette é sublime. É lento, mas repleto de sentimentos e emoções. O banquete é um momento de prova, um momento único. Nunca aconteceu antes, jamais voltará a acontecer. Nas expressões e nos gestos mais ínfimos, adivinham-se os corações a rejubilar, entre a sede da alma e a fome do corpo. O episódio evolui num ambiente de profunda religiosidade existencial. Duas epifanias emergem sem se cruzar: a redescoberta do prazer por parte do General, com a sublimação do amor pelo paladar, e a descoberta do prazer pelos habitantes da aldeia, desde o exorcismo preventivo até ao aleluia da conversão. Um prazer que liberta as pessoas e restaura a comunhão do grupo. São doze os comensais, descontando Babette. Trata-se de uma ceia. Cada ingestão, cada bocada, cada gole, é um passo de transubstanciação. Babette, a cozinheira responsável por este estado de graça, é um anjo ambivalente: redime pelo prazer. O filme termina com a seguinte frase proferida por uma das irmãs para quem Babette trabalha: “No Paraíso tu serás a grande artista que Deus tinha pensado que serias. Como serão felizes os anjos!”
Este excerto do filme A Festa de Babette é um magnífico exemplo de microfísica do prazer. Desafia e agracia os sociólogos: rituais, religiosidade, interacção, bastidores, clivagens, linguagem corporal, mudança, felicidade, estética do bom e do bem… Os excertos da série Sociologia sem palavras raramente se prolongam para além dos seis minutos. Este caso é uma excepção, atinge os dez minutos. A dinâmica entre o “apetite corporal” e o “apetite espiritual” justifica-o. Bem haja quem me fez descobrir este filme!
Gabriel Axel, Babette’s Feast. 1987. Excerto.
Acariciar o desejo
Há anúncios que surpreendem. Não precisam de ser bons para ser os melhores. Um solo de bateria e um gole de cerveja! Nem mais, nem menos. E, contra a corrente, um trago solitário. Os anúncios de cerveja convocam, normalmente, grupos de amigos em partilha festiva. Este, nem por isso. A cerveja convida, por instantes, o espectador seduzido: “só tu e eu, num momento íntimo de prazer.” E assim se acaricia o desejo.
Marca: Greene King. Título: King Snare. Agência: Grey. Direcção: George Belfield. UK, Novembro 2014.
Coro dos anjos
Este anúncio sul-africano da Cadbury foi concebido antes da expulsão do paraíso, enquanto Adão e Eva comiam a maçã. Não há som, nem imagem, que não seja abençoado.
Nas igrejas, existe um coro alto e, naturalmente, um coro baixo. Estes trigémeos cantam no coro do meio, o mais aconchegado e aprazível. Enquanto o chocolate circular, não param de cantar. Cadbury, uma tentação que se propaga de geração em geração.
O realizador deste anúncio é um caso sério no mundo da publicidade. Nascido na Namíbia, palpita-me pelo nome, Adrian de Sa Garces (ou Garcias), ter ascendência portuguesa. Relembro Aesthetics, um anúncio extraordinário que dirigiu em 2006 para a BMW.
Marca: Cadbury. Título: Triplets – Feel the joy. Agência: Ogilvy & Mather (Johannesburg). Direção: Adrian de Sa Garces. África do Sul, Setembro 2014.
A Bengala Branca
Fazer um anúncio é criá-lo. Não há outro modo. No Reconsider, da Ireland/Davenport, a atenção oscila entre os sítios e o visitante. De sensação em sensação, tece-se uma trama de prenúncios. A bengala branca é a chave final: o visitante é cego. Há tanto prazer para além do ver! Curiosamente, no anúncio, o som resume-se à música e à voz. Uns não vêem, outros não ouvem. “Avózinha, para que é esse silêncio tão grande? É para te ver melhor”. Naturalmente.
Anunciante: South African Tourism. Título: Reconsider. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. República da África do Sul, Maio 2014.
Tenho bastante admiração pela agência Ireland/Davenport, da República da África do Sul. Produziu, em tempos, um dos mais belos anúncios da história da publicidade: Aesthetics. Vale a pena rever.
Anunciante: BMW. Título: Aesthetics. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Adrian de Sa Garces. República da África do Sul, Novembro 2006.
Abraço à terra
Ama a tua terra. Fisicamente. Abraça-a. Carnalmente. “E deixa-te estar assim eternamente”. Cola-te com prazer a um semáforo, a um vidro, a uma parede, a um marco de correio. Os tempos que correm são pan-libidinais. Mas não te esqueças de ver este anúncio. É de uma beleza tão serena que até dá vontade de o encostar ao peito.
Anunciante: BBC Local Radio. Título: Show your love / Love where you live. Agência: Rainey Kelly Campbell Roalfe / Y&R. Direção: Vince Squibb. Reino Unido, Agosto 2010.




