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Lembranças (do blogue Marginália)

O aniversário do Tendências do Imaginário recordou-me um blogue pessoal anterior, de que já nem sequer sabia o nome. Voltei a escavar. Primeiro, confirmei que era blogger do Blogspot desde 2008. Em seguida, procurei o nome do blogue, com a ajuda da IA. Descobri muita coisa, mas não o que pretendia. Decidi pesquisar, pelos meus próprios meios, no caos imenso dos meus discos duros. Utilizei muitas palavras-chave, até que me acudiu “dobras”. Surgiu apenas um documento promissor: um atalho para a Internet datado de 27 de agosto de 2010. Carreguei e… eis-me no blogue Marginália. Era esse o nome do meu blogue. Quem diria? Ignoro a quantidade de artigos que publiquei entre 2008 e 2012. Para já, só consegui aceder a doze. Recoloco Lembranças, de 5 de agosto de 2008. Dedicado a postais ilustrados, resulta uma boa mensagem de parabéns.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Lembranças


Postais 1 e 2

Neto de comerciante, foi-me dado assistir à morosa hesitação da escolha dos postais ilustrados. Não deixa de constituir tarefa azada, quase um milagre, conseguir acomodar, num rectângulo tão exíguo, emissor, destinatário, pretexto, mensagem e imagem. Lembro-me, também, da recepção de alguns postais. Ao estremecimento e à comunhão iniciais, com o postal a passar de mão em mão, sucedia-se a exposição num “altar improvisado”e o recolhimento numa gaveta, caixa ou álbum destinado às relíquias memoráveis. Quase todos nós, apesar dos anos e das mudanças, preservamos alguns destes tesouros semiprivados. Compõem uma espécie de bálsamo para a nossa identidade.


Postal 3

Os postais ilustrados comportam uma vertente estética. Podem ainda apresentar uma aura de magia, risco, aliás, próprio de um objecto que se interpõe entre duas pessoas. Absorvem o emissor que neles se inscreve (“estou aqui!”) e convocam o destinatário que neles se adivinha (“Esta menina és tu a pedir à Nª Sª pª vires passar as férias a casa”: postal 1). Podem, inclusivamente, aspirar a uma certa tangibilidade das almas ou, se se preferir, a um magnetismo dos corpos separados: “Se o pensamento fosse visível, ver-me-hias sempre ao teu lado” (postal 2). Muitos postais ilustrados são dádivas. Antes de mais, dádivas de si. São lembranças, “something between a message and a present” ( Andrew Martin: http://blogs.guardian.co.uk/travelog/2008/07/postcards_back_from_the_edge.html).


Postal 4

São prendas! Apreciadas, exibidas e guardadas. Pessoalizadas em sintonia com o outro, pedem criatividade, dedicação e sentido de oportunidade. Confesso nutrir alguma predilecção pelos postais ilustrados anteriores a 1902, aqueles em que “de um lado só se escreve a direcção”. Reduzem o importante ao essencial. E o essencial, como bem sabemos, cabe no buraco de uma agulha. As soluções, variadas, oscilam entre a incontinência de letras que afoga a imagem e o gesto discreto e precioso que lhe acrescenta valor. Mesmo com a possibilidade de escrita no reverso do postal, as marcas e as inscrições na imagem perduraram, como uma espécie de luxo ou de requinte pessoal ( atente-se no postal 3 e, sobretudo, no pormenor do postal 4: estes postais podem ser vistos no blogue Postais Antigoshttp://postais.do.sapo.pt/). É certo que, na maioria dos casos, estas prendas são surpresas esperadas, ao sabor das efemérides ou das viagens. Se tardam, sente-se a falta, num misto de frustração e inquietação.

Publicada por Albertino Gonçalves à(s) 09:41 Sem comentários: 

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