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Sem sombras

Rodolphe-Théophile Bosshard. L’accordeoniste aveugle. 1923. A figura do acordeonista cego, eventualmente pedinte, faz parte do nosso imaginário.

Há mais de uma centena de músicos cegos célebres (ver um inventário em https://en.wikipedia.org/wiki/Category:Blind_musicians). Ray Charles, Stevie Wonder, José Feliciano e Andrea Bocelli constituem alguns exemplos. É admirável, mas sem pasmar. Como diria Vilfredo Pareto, o cego ouve e fala. Mais espantoso é um surdo compor uma sinfonia. Ou talvez não! Cego mesmo cego é o “que não vê com o coração”.

Cego não é invisual, invisual é aquilo que não se vê; invisual não é quem não vê. Assim como um cego não é um invisual, um velho não é um idoso, um sénior ou um terceiro idoso. Um velho é um velho! Os trapos são trapos! Irritam-me os reformadores de palavras empenhados em enfeitar artificialmente a língua.

Deu-me para colocar duas músicas com intérpretes cegos. De preferência, em dueto, para observar a interacção no palco. Optei por José Feliciano e Andrea Bocelli. José Feliciano fez, em 1968, um cover da canção Light my fire, dos Doors. Canta com Minnie Riperton um novo cover (1979). Pares não faltam a Andrea Bocelli. Hesitei entre a canção Time to say goodbye, com Sarah Brightman, e Dare to live, com Laura Pausini. Seja Laura Pausini.

Andrea Bocelli & Laura Pausini. Dare to live. Ao vivo no Teatro Del Silenzio. Itália, 2007.

Para aceder ao vídeo com o José Feliciano e a Minnie Riperton, carregar na imagem seguinte ou neste link: https://www.youtube.com/watch?v=RMttEWdVj7k.

José Feliciano & Minnie Riperton. Light my fire. Do álbum Minnie, de Minnie Riperton, publicado em 1979.

Absurdo sem gelo

Trident Sniper

Se fazer rir é difícil, criar o absurdo não é menos. E se o absurdo não apelar ao estranho mas ao familiar, o caso ainda é mais problemático. Uma narrativa absurda não precisa de mudar nem o cenário nem os protagonistas. O mesmo cenário, os mesmos actores, do princípio ao fim. O absurdo inteligente é simples: basta operar uma quebra de sentido numa sequência banal, um desvio insólito, por exemplo, a intrusão da legenda no enredo do filme, um thriller para não variar. O anúncio Sniper, da Trident, é perfeitamente absurdo. Aproveito para recomendar outro anúncio da Tridente: Pet store, de 2012: https://tendimag.com/2012/10/22/surreal-2/.

Marca: Trident. Título: Sniper. Agência: JWT (Porto Rico). Direcção: Luís Gerard. Porto Rico, 2010.

Sem pestanejar

Há anúncios assim. Comparativamente longos, optam por se atardar em torno de um assunto lateral. O produto propriamente dito é abordado na parte final. O corpo e a conclusão do anúncio requerem, no entanto, algum tipo de ligação. É frequente a ligação entre o tema e o produto convocar as figuras do excesso e da excepção. Por excesso, a mulher, ofuscada pelo Honda, não conseguiria parar de pestanejar. O anúncio aposta, porém, na excepção: seduzida pelo automóvel, a mulher, contra a natureza humana, deixa de pestanejar. De qualquer modo, seja por excesso, seja por excepção, o produto, o automóvel, respira diferença e distinção, num piscar de olhos feito de luz e visão.

Existe um anúncio argentino, enternecedor, que também incide sobre o ato de pestanejar  (para aceder: https://tendimag.com/2012/06/24/teus-olhos-risonhos-sao-mundos-sao-sonhos-alves-coelho/).

Marca: Honda. Título: Papadeos. Agência: DraftFCB, Puerto Rico. Direção: Alvaro Aponte Centeno, Porto Rico, Agosto 2013.

Amizade sobre rodas

Há anúncios que não mostram o produto. Já se sabe! Há anúncios que convocam maus sentimentos e péssimos valores (e.g, anúncios do Ford Sport Ka). Já se sabe! Há anúncios que em vez do produto mostram maus sentimentos e péssimos valores. Fica a saber-se! Mas contam uma história, entranham-se e vendem!

Marca: Toyota Yaris. Título: Friends. Agência:  Saatchi & Saatchi, Puerto Rico. Direção: Cali Ameglio. Porto Rico, Maio 2012.

Marca: Ford Sport Ka. Título: Bird/Cat. Agência: Ogilvy & Mather. UK. 2004.