Política e escatologia
Uma das mudanças mais marcantes ao nível do exercício do poder na Europa aponta para o eclipse da figura do político carismático. Desvanece-se, assim, a confiança empática, sem cálculo, por parte dos cidadãos. A adesão tende a ser negociada ou sofrida. Que saudade de um bom discurso político! Os políticos, agora, quase não discursam; prestam declarações. Esta evolução recorda-me, perversamente, certas figuras do passado, assaz populares na Idade Média. Figuras codificadas, prenhes de sentido. As três figuras contempladas neste artigo operam um movimento de rebaixamento associado a uma purgação ou catarse. A iluminura provém do Gorleston Psalter, datado de cerca de 1310 (British Library). Com o “Penico John Bull” (1897), Rafael Bordalo Pinheiro também não resiste à tentação escatológica. A escultura, eventualmente do século XVIII, encontra-se no Musée de Flandre, que faculta a seguinte interpretação:
“This man in the middle of defecating is part of an ancient and common iconography in Flemish art. In several of the works by Hieronymus Bosch (?- 1516), Pieter Bruegel (1525/1530 – 1569) and Pieter Balten (1520/1525 – before 1598), women or men are captured in this position, relieving themselves. There is nothing shocking about this: reality was reproduced as it was. In 1559, Bruegel, in Flemish Proverbs, depicted two figures, with only their bare buttocks visible, caught in their latrine by surprise. Below them, a nobleman throws coins into the water. Childplay, dated 1560, shows a square chamber pot in the foreground and, a little further away to the right, a little girl stirs the excrement with a stick for fun. This scatological dimension is portrayed in an entirely natural way as part of everyday life.
“These sketches may come across as misplaced, slightly coarse and rude humour. But there is a meaning and symbolism of words behind the pictures. Indeed, this theme conceals something very subtle. In Flemish culture, the expression: “Uit schijten” (to leave droppings) also means “to mock”. This brings us to the moral of the picture: the pooper is not only a means of making fun of human nature, but also puts Man back into his rightful place: we are all equal during our time on Earth.” (Musée de Flandre http://museedeflandre.lenord.fr/en/Collections/HetSchiijtmanneke.aspx).
Sociologia sem palavras 3. Globalização
O bailado do ditador com o globo terrestre, cena famosa do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, é um desafio ao pensamento. Ocorre-me, por exemplo, que, graças à globalização, alguns, quase nenhuns, têm a capacidade de dar pontapés no planeta e muitos, quase todos, têm o direito de recebê-los.
Sociologia sem palavras. Episódio 3. Globalização.
Chove na Natalidade
E a natalidade, senhores? E a natalidade? Não conta? Então… Acham que este Daddy vai contribuir para a sementeira humana? Logo agora que o governo português incentiva a natalidade… Quarenta anos depois de o problema se colocar! Aguardámos que amadurecesse. Agora, está maduro. Portugal teve, em 2013, a taxa bruta de natalidade mais baixa da União Europeia (7,9 ‰). A França adoptou medidas sistemáticas há mais de 30 anos: se o valor da taxa de natalidade não se inverteu, estabilizou, desde os anos noventa, em torno dos 13 ‰. Em 2013, a França (12,3 ‰) tinha, a seguir à Irlanda (15,0 ‰) e à Islândia (13,4 ‰), o terceiro valor mais elevado da União Europeia. Que me recorde, as resoluções francesas eram claras e directas: por exemplo, um prémio ao nascimento e um subsídio mensal durante um período alargado de tempo. A proposta portuguesa aposta num leque variado de medidas: alargamento da licença parental, redução do horário de trabalho, vantagens no IRS, no IMI e no Imposto sobre veículos, ajustamentos na educação e na saúde, compromissos com as autarquias… Oxalá este bombardeamento de partículas funcione! Pelos meus netos. Gostava que um dia nascessem e em Portugal.
Marca: Citroen. Título: Daddy. Agência: Les Gaulois. Direcção: Steve Rogers. França, Junho 2014.
A arte de não dizer nada
Vigora a arte de não dizer nada. Com muita classe. Isto de ouvir alguém a não dizer nada tornou-se um vício nacional. Não há maneira de esquivar esta dádiva. Bem leio os jornais como quem joga tetris e ouço os comentários durante o reiki. Em vão. Quem não diz nada ouve-se por todo o lado. Quanto menos se diz mais se é interpretado. Dizer claramente alguma coisa é o mesmo que estar calado. Cria-se, assim, um enorme sumidouro semântico. Acabei de não dizer nada, a pensar no minueto de Boccherini (1743-1805). Lembra-me a cultura política e palaciana, não tanto o dolce far niente, mas o dom de nada dizer falando com mestria, de modo a exaltar as palavras numa dança de pequenos passos.
Luigi Boccherini. Minueto. Itália, 1775
Terrivelmente delicioso

O anúncio Terribly Delicious incide sobre uma variedade de peixe que se tornou uma epidemia ambiental. Para o combater, nada como o transformar em petisco nacional. Coma-se a praga!
Por cá, também existem infestantes. Se nas águas do Pacífico prolifera o peixe leão, no nosso País, nada o peixe gato e engorda o peixe orçamento (budget fish). Falta-nos, no entanto, a voracidade colombiana. O peixe orçamento tira-nos o apetite.
Anunciante: Ministerio de Ambiente y Desarrollo. Título: Terribly Delicious. Agência: Geometry Clobal Colombia / Ogilvy & Mather. Direção: Agustin Calderon. Colômbia, Maio 2014.
Oratória
Sempre que um político fala, inquieta-me uma pergunta: será o povo assim tão estúpido? Rafael Bordalo Pinheiro desenhou, a seu tempo, uma resposta. Mas foi há mais de um século!

Rafael Bordalo Pinheiro (Fundação Mário Soares).
Parto milesimal
A Oxfam, criada em Inglaterra em 1942, é uma confederação internacional que luta contra a pobreza e a injustiça. Este anúncio, da Oxfam Deutschland, é uma paródia relativa ao projeto europeu de criação de uma taxa sobre as transações financeiras. Trata-se de um projeto cujo parto político se tem manifestado sinuoso e problemático. Os parteiros europeus deviam vir a Portugal aprender com a experiência da extorsão dos gémeos subsídio de férias e subsídio de Natal: uma extorsão lesta, iníqua e logo submersa pelas dívidas da cave e pelas derrapagens do sótão. Sabe bem atirar uma moeda a um poço e formular um desejo. Ainda mais sabe atirar com 14% do salário a um poço sem fundo e pasmar à espera do eco.
Anunciante: Oxfam. Título: Eine schwere Geburt. Agência: M&C Saatchi Berlin. Alemanha, Agosto 2012.









