O medo dos palhaços e os dentes de lagarto

Argui, há seis meses, uma dissertação dedicada à figura do palhaço (ver https://tendimag.com/2023/02/25/esquilo-o-abutre-e-a-tartaruga/). Durante a prova não resisti a desconversar ressalvando que a figura do palhaço podia assumir significados negativos. Assim sucede quando afirmamos que determinado ato não passou de uma palhaçada ou uma dada pessoa se comportou como um palhaço.
Imagem: Pablo Picasso. Le Clown. 1962
Mas não era esta a negatividade que queria vincar. Aludia, principalmente, à associação da figura do palhaço ao medo e ao terror. Existe, inclusivamente, uma fobia aos palhaços conhecida como coulrofobia. Encontramos palhaços assustadores na literatura, no cinema, na publicidade… Recordo filmes como Palhaços Assassinos (1988) ou IT – A Coisa (2017); e deparo-me com o anúncio, estreado este mês, The Visitor, da Bell, inspiração imediata deste artigo.
Mas o exemplo mais superlativo talvez continue a ser o anúncio Carousel , da Philips, de 2009.
Enfim, parece que já não consigo inovar. Não há nada que escreva que já não tenha escrito antes. Redigi já lá vão sete anos, em 2016, o artigo O caso dos palhaços assustadores (https://tendimag.com/2016/11/06/o-caso-dos-palhacos-assustadores/). Não param de me revisitar este tipo de ecos. Nada de novo a toque de teclado! Estou obsoleto. O pouco convívio também contribui para esta calvície do intelecto. Sem a centelha dos outros, estrelinhas fulminantes num infinito de ideias geniais, sinto-me (narcisista?) como um lagarto que anda à roda, à roda, à roda, até abocanhar a própria cauda. Então, trinca, trinca, trinca, até lhe sobrarem apenas os dentes. Quem quer dentes de lagarto?
Embora o riso seja das atividades mais características e mais sociais do ser humano, surpreendo-me a rir sozinho, “com os meus botões”. Às vezes, acorda-se prazenteiro.
Depilação
Desde a sociedade de corte, temos vindo a civilizar os nossos costumes (Norbert Elias). Refreamos as pulsões e a violência. Endireitamos os corpos e as vontades. Em suma, autodisciplinamo-nos. Esbatem-se protuberâncias e reentrâncias. Tapam-se os orifícios. Reduz-se tudo quanto é intercâmbio entre o corpo e o mundo: excreção, secreção, ingurgitação, transpiração, respiração… Há actividades fisiológicas que quase desapareceram como a expectoração. Este processo continua nos nossos dias. Continuamos, por exemplo, a polir o corpo: ajustamos os seios e as barrigas, endireitamos os dentes e declaramos guerra aos pêlos, a nossa floresta amazónica. Neste momento, não há pelo que escape! Acabaram-se os santuários do pêlo. Só a barba, pêlo sisífico, teima em renascer todos os dias. Embarcado na tendência, este anúncio da Philips mostra subtilmente como sem pêlos, o encanto é outro.
Marca: Philips. Título: Smooth. Direção: Brendan Beachma. USA, Setembro 2012.
