Banda filarmónica em hotel do Peso

Ao Valter Alves
Hoje, domingo, deu-me para arrumar um disco duro. Abri uma pasta cujo nome não me permitia adivinhar o conteúdo. Surpreenderam-me várias imagens das Termas do Peso, provenientes do Arquivo Municipal de Paredes de Coura, cujo conhecimento me foi proporcionado, há bastante tempo, por uma amiga, a Fátima Cabodeira. Retenho, em particular, duas fotografias antigas com uma banda filarmónica, durante a monarquia, a julgar pelas bandeiras, num dos hotéis, creio que o Novo Hotel Quinta do Pezo (Figueiroa), da autoria do fotógrafo Adolfo Gonzalez, de Entrimo. Talvez o Válter Alves queira acrescentar mais informação.


O peso das coisas
Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés (João Negreiros. O Manual da Felicidade. 2015).
Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango. Fácil de dizer, mas difícil de ilustrar. Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.
A carrinha Ford aguenta a violência dos gorilas, mas é um brinquedo na sua mão. A Toyota enfrenta a fúria do mar, mas flutua como uma boia de pesca. A Dodge perfura o planeta, num voo caído, sem fundo.
No anúncio da General Motors, os automóveis, pesados, levitam. Não existe uma via única para conjugar leveza e levitação. Até as ilhas levitam ou voam, como nas viagens de Gulliver, nas pinturas de Magritte ou nos vídeos dos Gorillaz. Na Idade Média, gordos e magros desafiaram a gravidade. Gostava de te sussurrar ao ouvido que para voar não é preciso ter asas, mas peso. Para voar, importa começar. E não te esqueças de fazer um sinal, “um bom sinal, um sinal de que não estamos fixos” (ao jeito de Jacques Prévert). Estende-me um tapete e descolarei, como São Bento, rumo aos céus.
Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.
Marca Toyota Tacoma. Título: Tide. Agência: Saatchi & Saatchi (Los Angeles). Direcção: Baker Smith. USA, 2006.
Marca: Daimler Chrysler Dodge Nitro. Título: Planet. Agência: BBDO (New York). Direcção: Acne. USA, 2006.
Marca: General Motors. Título: Elevation. Agência: Deutsch (Los Angeles). Direcção: Phil Joanou. USA, 2007.
Cabecinha pensadora
“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade” (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, 1984)
Os pensamentos têm peso. Existem pensamentos elevados e leves, mas no nosso imaginário gravitam, sobretudo, pensamentos sólidos e profundos. Quando alguém pensa arrisca-se a ficar com a cabeça pesada. E para sustentar a cabeça não basta o pescoço, é necessária a ajuda das mãos, bem apoiadas. Com o olhar fixo, entre o umbigo e o infinito, esta é a imagem predominante do pensador. Desde há milénios! Ilustra-o a seguinte amostra de esculturas e pinturas.
Um conselho: não pense enquanto salta, chocalha as ideias; nem enquanto nada, o pensamento mete água; não pense na cama, as ideias tornam-se soporíferas; nem na montanha russa, as ideias ficam para trás…
Afortunadamente, um consórcio internacional envolvendo 89 centros de investigação, entre os quais um português com sede em Boston, está a trabalhar num dispositivo capaz de maximizar a posição da cabeça enquanto saltamos, nadamos, dormimos e nos divertimos.
Brincadeira à parte, devo este artigo ao Fernando Sousa Ribeiro que me chamou a atenção para os pensadores de Angola, estatuetas que são um ícone nacional.
Galeria de imagens
Só sobe o que tem peso
Estou convencido que a leveza atrai mais as pessoas do que a liquidez, a velocidade, a imaterialidade ou a fragmentação. Consumimos comidas e bebidas leves. Deslizamos em desportos leves tais como o surf e o asa delta. Os corpos e os gestos querem-se elegantes e graciosos.
A leveza anda associada à liberdade. Os pássaros não voam em gaiolas. Pelo menos à vontade. Devem, vadios, acabado o voo, vir ter connosco, decididos. Tive duas aves assim, soltas. Uma era uma pega que, tendo todo o mundo à disposição, vinha pousar no meu ombro ou na minha mão.
A leveza é uma aspiração, raramente uma realidade. As nossas vidas têm conta, peso e medida. A sociedade emprega-nos e desemprega-nos, mas não nos larga. A leveza pede desgravitação e desprendimento. Normalmente, arrastamo-nos. Arrastamos os passos, arrastamos os dias, arrastamos a alma, arrastamos a vontade. Eis o nosso valor de uso.
Santiago ‘Bou’ Grasso é um realizador argentino admirável. Não falta quem escreva poemas com imagens. Simultaneamente, sóbrios e generosos, são obra rara. A primeira curta-metragem é dedicada à leveza; a segunda, ao peso de chumbo da existência. As nossas vidas em poesia e em prosa.
Santiago ‘Bou’ Grasso. El Pájaro e el Hombre. Argentina, 2005
Santiago Bou Grasso. El Empleo. Argentina, 2011














