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Infradotado

Leonard Cohen.

Um perito, uma opinião. Dois peritos, uma contradição. Três peritos, uma confusão (Anónimo).

Nunca me deparei com tantos peritos e especialistas como durante a epidemia. Infradotado, confesso que pouco ou nada aprendi. Valha-me o Leonard Cohen.

Leonard Cohen. Hey, That’s No Way To Say Goodbye (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.
Leonard Cohen. Sisters of mercy (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.

A quem tem o monopólio de me aturar!

Excelência

nike

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais” (Público, 11.03.2016).

“Para já, o que se fica a saber é que, em 19 áreas clínicas, foram apresentadas 134 candidaturas e seleccionadas 74 (que na realidade correspondem a  82 instituições, se considerarmos todos os serviços, uma vez que há centros que vão funcionar em consórcio, o que é novidade em Portugal). Os que não foram escolhidos não serão prejudicados, porque continuam a fazer o que faziam. “Isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”, sublinha Alexandre Diniz, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e membro da comissão de peritos que escolheu as unidades” (Público, 11.03.2016).

Sobressalto de espanto e júbilo: “Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”! Na ciência, também existem muitos centros de excelência. E mais que excelentes! Pontos de referência. Para quem? Lembro-me de uns rectângulos avermelhados que, molhados, eram pontos de referência para as moscas.

Os centros “que não foram escolhidos (…) continuam a fazer o que faziam”. Precise-se que “isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”. A avaliação esmera-se. Mais um caso nacional em que a avaliação se faz para avaliar e, por contágio, descriminar. Consequências? O arrasto do costume.

“O que muda para os doentes? Por enquanto, não haverá grandes alterações, porque para que um paciente seja tratado num destes centros precisa primeiro de ser encaminhado pelo seu clínico assistente” (Público, 11.03.2016).

Resta uma postura nacional com tradição excelente e, por sinal, de referência: esperar! Pela centelha da predição criadora do oráculo burocrático. Entretanto, vou deslocar-me para Lisboa, Porto ou Coimbra. Cidades onde a gente é gente, com centros de excelência e pontos de referência. Quanto ao clínico, mais do que um médico, espero que seja bom encaminhador e, caso disso, bom alavancador.

Sculpture of a theater mask dating from the Hellenistic. National Archaeological Museum in Athens.

Boquiaberto. Escultura de uma máscara de teatro do período helenístico. Museu Arqueológico Nacional. Atenas.

As palavras têm altos e baixos. Ora estão na mó de cima, ora estão na mó de baixo. Excelência e referência são palavras em que as burocracias europeias apostam. Pouco importa se os ventos são atlânticos ou nórdicos, estas duas palavras incham que nem sapos com um cigarro na boca. Como nos vasos comunicantes, outras palavras esvaziam-se. Por exemplo, a palavra “elite”, penalizada pelo lastro histórico. Ressalve-se, porém, que não é por uma burocracia integrar uma sociedade democrática que ela é democrática. As burocracias não são democráticas!

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”. Já? Nem sei o que pensar.Tanta excelência deve ser excelente!

Desta vez, não comento o anúncio. O anúncio ilustra, como contraponto de referência, o comentário.

Marca: Nike. Título: Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direcção: Lance Acord. USA, 2012.

Do pensador ao perito

Quino

Quino

Os peritos penduram-se nos galhos mais altos das sociedades democráticas burocráticas. Lembram nobres de toga em corte de rei pasmado. Até os políticos se dão ares de peritos. Como os gatos, os peritos metem, inimputáveis, o focinho em tudo. O que mais me irrita nos peritos é a sua vontade de nos aperfeiçoar. Fazem tudo para nosso bem. São os novos anjos da guarda. E escolhem primorosamente a gaiola em que nos vão libertar. Libertam-nos de todos os vícios, de todas as gorduras, de qualquer autonomia e, se possível, do mais ínfimo rendimento. Neste excerto do filme Laranja Mecânica, um jovem ultra-violento está em vias de ser curado por dois peritos. Um perito para ti! Um perito para mim! E a vida sorri!

Stanley Kubrick. Laranja Mecânica. 1971. Excerto.