Pensadoras

O artigo “Cristo ensimesmado” (https://tendimag.com/2024/03/18/recaida-no-vicio-das-imagens/) peca por omissão. Arrisca sugerir que entre as figuras que antecedem O Pensador, de Auguste Rodin, só existem homens. Nada mais falso. Existem muitas (imagens de) pensadoras.




Se no masculino se destaca Cristo, entre as mulheres sobressaem Penélope, apoquentada pela demora de Ulisses, e Maria Madalena, figura maior da hagiografia cristã, nem Eva, nem Virgem, que, retirada em penitência no deserto, se entrega à meditação.









Não obstante os casos exemplares de Penélope e Maria Madalena, a figura cuja pose mais se aproxima da do Pensador de Rodin parece-me ser a alegoria da Escultura, de Valerio Cioli (1529–1599), no túmulo de Michelangelo, concluído por volta de 1574. Só falta despi-la!



Pernas cruzadas

Pasmei perante a escultura romana de uma jovem mulher sentada (imagem 1). Presumivelmente, uma cópia de um original grego do século IV a. D. Até as botas são um encanto. Tem as pernas cruzadas acima dos joelhos (para uma estátua, com as pernas cruzadas abaixo do joelho, ver imagem 2). Parece estar à espera. Do nosso olhar? Na minha ignorância, desconhecia este tipo de representação. Na realidade, existem outros exemplares. Ao olhar para a escultura, insinua-se uma sensação de equilíbrio tenso. O corpo apoia-se num segmento de reta que une o braço e a cadeira. Lembra o estilo clássico. O resto do corpo desdobra-se em pregas de emoção. A cabeça curvada desprende uma aura de melancolia. Não fosse pecado anacrónico, diria que lembra o estilo “barroco”. O equilíbrio tenso transforma-se em desequilíbrio ancorado.

Existem várias figuras gregas e romanas com uma mulher que cruza as pernas. Mas Penélope sobressai: “Penelope is presented as sitting, with her chest turned towards the observer, her legs crossed, and her chin or her cheek resting on one of her hands” (Capettini, Emilio, Charicleia the Bachante, in Emilio, Cueva, Edmund et alii, Re-Writing The Ancient Novel – Volume 1: Greek Novels,Groningen, Barkhis & Groningen University Library, 2018, pp. 195-220, p. 207). Calculei que as pernas cruzadas exprimissem resguardo e castidade, o que condiz com a resistência de Penélope aos pretendentes. Não foram necessárias muitas leituras para o comprovar. “The only iconographic element entirely peculiar of Penelope are the crossed legs, which indicate her emotional and sexual unavailiability” (Capettini, Emilio, Ibid, p. 207). A Penélope do Vaticano ergue-se como uma obra emblemática (Imagem 3)

« Dans les épigrammes funéraires grecques, qui reflètent les valeurs dominantes de la société grecque, les références implicites ou explicites à Pénélope sont extrêmement nombreuses : la majorité des défuntes sont présentées comme des épouses et mères modèles, et elles sont comparées à Pénélope en termes de sagesse, de retenue et de travail domestique » (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%A9lope).

Na arte funerária grega, Penélope é uma referência positiva.” A maioria das mulheres defuntas eram (…) comparadas a Penélope em termos de sabedoria, compostura e trabalho doméstico”. A escultura da jovem mulher sentada onde se inscreve?

Passados dois milénios, constata-se alguma continuidade na escultura de Penélope (imagem 5). É uma perdição observar a evolução dos significados de um gesto. Hoje, as pernas cruzadas falam outra língua. Um pouco mais de sedução e um pouco menos de contenção.
Teledesejo
Penélope transformou o teledesejo em tapeçaria. Na Idade Média, os cavaleiros andantes queriam-se teledesejantes. A saudade é teledesejo embalado no colo dos dias vazios. E, no entanto, os corpos movem-se. Mas o desejo voa!
José Afonso, Menina dos Olhos Tristes, 1969.


