Que língua falam os santos?

Santuário da Senhora da Peneda. Escadório e templo.
Ontem, 6 de Agosto, fiz uma comunicação sobre a fronteira no âmbito do evento Filmes do Homem, organizado pela câmara municipal de Melgaço e pela Associação Ao Norte. No magnífico auditório da Porta de Lamas de Mouro, cerca de uma centena de pessoas, a maioria estrangeiras e profissionais do audiovisual.
Como se compreendia que a romaria da Senhora da Peneda, sendo em território português, tenha, desde tempos imemoriais, tantos peregrinos galegos? Esta adquire ainda mais oportunidade quanto no catálogo dos Filmes do Homem escrevo um artigo sobre a festa.
A geografia do sagrado pode não coincidir com a geografia política. São duas arquitecturas distintas de construir o mundo. É certo que quem desenha fronteiras políticas pretende outorgar-lhes uma aura sagrada:
“Regere fines, o acto que consiste a “traçar por linhas direitas as fronteiras”, a separar o “interior e o exterior, o reino do sagrado e o reino do profano, o território nacional e o território estrangeiro”, é um acto religioso realizado pela personagem investida da mais alta autoridade, o rex, encarregado de regere sacra” (Bourdieu, Pierre, 1980, “L’identité et la représentation”, In: Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 35, Nov. 1980, pp. 63-72, p. 65).
A Igreja também desenha fronteiras, a começar pelas paróquias cujo traçado nem sempre coincide com o das freguesias. Os lugares sagrados têm fronteiras. Os romeiros que chegam ao escadório da Senhora da Peneda sabem e sentem que têm que moderar o comportamento. Há gestos e palavras que devem ficar para trás. A contenção reforça-se com a aproximação ao templo. O sagrado tem fronteiras, que têm sido motivo de conflito, por exemplo, com as comissões das festas. Por finais dos anos vinte, a Igreja, incomodada com as cenas de paganismo sob os olhos dos santos, adoptou uma série de interdições relativas aos locais de culto.
A geografia religiosa e a geografia política são distintas. Os fenómenos religiosos podem combinar uma ancoragem local e uma irradiação, em último caso, global. Atente-se nas peregrinações a Santiago de Compostela, a Lourdes, a Meca e a Fátima. Os pés dos peregrinos pisam fronteiras. A devoção não tem ceptro, nem centro, nem pouso fixo. O que move os romeiros é a fé. Deslocam-se no seu território, o território do sagrado. Uma fronteira política representa, quando muito, uma adversidade suplementar na narrativa dos sacrifícios.
Estas frases são como ossos de um esqueleto. Convém acrescentar um pouco de carne. Algo como uma conversa que não significa nada mas perdura na memória.
José Pinto (Os santos esperam mas não perdoam… Um estudo sobre a romaria da Peneda, 2002, ed. do autor) relata o testemunho de uma devota. Tem em casa uma imagem da Senhora da Peneda. Fala com ela e, por vezes, garante que a santa lhe responde. Quero acreditar que, se fosse em Entrimo, na Galiza, a Senhora da Peneda responderia na mesma, mas, não admiraria, em galego, a língua de S. Rosendo.
Seguem os links par a página dos Filmes do Homem (http://www.filmesdohomem.pt/) e para o catálogo deste ano (http://www.filmesdohomem.pt/doc/fdh2017.pdf). Para terminar, o Ave Mundi, de Rodrigo Leão e o Games Without Frontiers, do Peter Gabriel.
Rodrigo Leão. Ave Mundi. Ave Mundi Luminar. 1993.
Peter Gabriel. Games Without Frontiers. 1980.
Águia-real
“os Homens são como os animais: os grandes comem os pequenos e os pequenos picam os grandes!” (Voltaire, Le Sottisier, Paris, librairie des Bibliophiles, 1880).
O pensamento de Voltaire ajusta-se ao anúncio Freak Chain, da Mountain Dew. “Os grandes comem os pequenos” é um provérbio antigo consagrado numa gravura de Pieter Brueghel (https://tendimag.com/2012/03/02/o-telemovel-indiscreto-tecnologia-e-relacoes-conjugais/ ). Dizem que é o ciclo da natureza. Nos relevos dos braços das cadeiras do Coro Alto do Mosteiro de Tibães, os animais comem-se uns aos outros. Bebida energética ou naco envenenado, o bem ou o mal passa de boca em boca. Ao envenenar os lobos também se matam águias-reais. Uma ave de rapina que ainda não está extinta na serra da Peneda graças aos ventos de Espanha que vão trazendo novas águias (ver https://www.publico.pt/geral/noticia/aguiareal-a-historia-de-um-homem-e-da-sua-rainha-1613891).
Marca: Mountain Dew. Título: Freak Chain (reverse). Agência: BBDO (New York). USA, Abril 2016.
Estava em falta para com os Eagles. Segue a música “Desperado”, do álbum homónimo, de 1973.
Eagles. Desperado. Desperado. 1973.
Pântano
Vamos ao pântano! Na serra da Peneda, foi construída, em tempos, uma represa. Nasceu, assim, a lagoa da Meadinha, vulgo pântano da Peneda. Prendada com uma beleza estranha, só por ignorância não entrou no Senhor dos Anéis. A extensão de água varia ao longo do ano. Quem quiser tomar banho deve, contudo, ter cuidado. Não tanto com as cobras e mais com o fogo. Tenho um amigo que adora nadar na natureza. O pântano da Peneda é destino de eleição. Estava um dia a nadar no pântano quando ouve um barulho ensurdecedor. “Deve ser Deus a descer as escadas”. Levanta os olhos e vê um helicóptero com um balde enorme. Encosta-se ao rochedo e espera que termine o abastecimento. No Parque Nacional da Peneda-Gerês, os incêndios também acontecem. E os helicópteros demandam pontos de água. Parece impossível, mas uma pessoa a nadar numa lagoa pode acabar grelhada numa floresta. Seguem algumas imagens do pântano da Peneda recolhidas na Internet.
- Pântano da Peneda 01
- Pântano da peneda 02
- Pântano da Peneda 03
- Pântano da Peneda 04
- Pântano da Peneda 05










