Abensonhar

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.
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Pela diversidade, pela paz
Hesite um instante, por favor! Saia dessa corrente que o absorve! Deixe de se ofuscar pelo sol e preste alguma atenção ao que permanece na sombra. Ao contrário do que pensa, pouco terá a perder. Talvez não tenha consciência, mas andamos enrolados por maus caminhos.

Se não ouviu falar em Ofra Haza (1957-2000), aproveite a oportunidade. Conhecida como a “Madona do Médio Oriente”, descende de uma família de imigrantes iemenitas em Israel. Nasceu em Telavive em 1957 e faleceu, perto, em Ramat Gan, em 2000, com 43 anos, vítima, segundo consta, do vírus da sida. Única, a sua voz mezzo-soprano é prodigiosa.
Ofra Haza

A postura e as canções são reconhecidamente ecuménicas e interculturais. O LP, a meu ver um dos mais emblemáticos da sua carreita, Shirey Teyman (Yemenite Songs/Fifty Gates of Wisdom), de 1984, com letras em hebraico, árabe e aramaico, assume-se como uma homenagem às suas raízes iemenitas. Esta inspiração múltipla, aparentemente insólita, resulta excecionalmente bem conseguida.
Picasso. Le Bouquet de la Paix. 1958
Em 1994, foi a cantora convidada para a cerimónia de atribuição do Prémio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat.
Convém recordar que nós portugueses, pelo menos no que respeita à tradição musical, de sefarditas e mouriscos, quase todos temos um pouco. Abramos os ouvidos e o coração. Os tempos que correm assim o exigem.
Seguem as canções Kaddish, uma prece em memória dos entes falecidos, e Yerushalaim Shel Zahav (Jerusalem of Gold), ao vivo na sua última atuação em vida.
Energia e paz

Não tenho emenda. Adoro partilhar música. “Dar música”. Não sei se boa, se má. Música de que gosto. Sobejam os motivos e as ocasiões para colocar uma música. Umas vezes, acabo de a ouvir; outras, surpreende-me num filme, num anúncio, numa curta-metragem; noutros casos, é o arranjo ou a interpretação, mais do que a obra, que interessa; por último, algumas ideias quando surgem, surgem musicadas, por exemplo, associações tais como o duo “energia”/”paz” ou a trindade “jovialidade”/”elegância”/”leveza” (ver: https://tendimag.com/2022/01/02/jovialidade-elegancia-e-leveza/). Configurações como estas dão-me música. Vários autores assumem que, enquanto criam, conseguem ligar automaticamente a mão que escreve ao cérebro que pensa. Eu acrescento o ouvido, que dança com o cérebro na mão.
Energia e paz não são inconciliáveis, pois não? Parece, mas não! Pares como este, improváveis, costumam revelar-se deveras potentes na mobilização simbólica. Ao conjugar “energia” e “paz”, logo me acode o celebérrimo slogan “a força tranquila” que, criado pelo mago da publicidade Jacques Séguéla, é considerado como o responsável pela vitória de François Mitterand nas eleições presidenciais francesas de 1981 (ver https://tendimag.com/2015/02/18/criacao-e-recriacao/). A “energia” e a “paz” prestam-se também aos alegros e adágios de Karl Jenkins. Volvidas várias décadas, o slogan de Jacques Séguéla e os acordes de Karl Jenkins, “força tranquila”, “energia” e “paz, continuam a ressoar em muitas caixas cranianas.
Pergunto-me por que insisto em queimar, dia após dia, tantas “celulazinhas cinzentas” com a publicação destes pequenos artigos. Muito investimento, pouco proveito. Para comunicar ideias e sentimentos? O tamanho da audiência não o justifica, talvez a qualidade. Trata-se de uma fixação narcisista, de um vício compulsivo: o prazer de ler enquanto se escreve, com a ilusão de se rever no espelho da própria escrita. Não é uma virtude, nem uma dádiva, é uma tentação e um pecado. Por isso, mal termino um texto, o abandono à sua sorte. Cativa-me o rebento, aborrece-me a disseminação.
Quando só resta o amor

Viremos o disco. O grupo coral francês Les Prêtres é composto, como o nome o indica, basicamente, por três membros do clero: dois padres, Jean-Michel Bardet e Charles Troesch, e um seminarista, o vietnamita Joseph Dinh Nguyen Nguyen. Foi criado em 2010 com o intuito de apoiar iniciativas católicas e sociais. Por exemplo, a construção de uma igreja no Laos e uma escola em Madagascar. Reinterpretam, sobretudo, canções consagradas. Publicaram três álbuns (Spiritus Dei, em 2010; Gloria, em 2011; e Amen, em 2014), separando-se em 2011. Spiritus Dei ocupa, desde 2010, o segundo lugar dos discos mais vendidos em França. O grupo separou-se em 2014, após o abandono da Igreja por parte de Joseph Dinh Nguyen Nguyen, entretanto casado e pai. A música, ao mesmo tempo, abrangente, tonificante e apaziguadora, recorda, no nome, na composição e no conteúdo, o grupo irlandês The Priests.
Seguem, por ordem, as quatro primeiras faixas do álbum Spiritus Dei:
Nenúfares

Dedilhei os cds da última gaveta. Passei pelo Bob Marley e comentei: “O reggae é que foi um apagão! É difícil encontrar memória mais esquecida”. Respondem-me: “Mudaram as drogas. Agora são ácidos”. Fiquei a ruminar. A imagem veiculada pelo Woodstock (1969) foi a de uma descontração desvelada. Até os nus que deslizavam na água pareciam nenúfares. O mesmo no festival da ilha de Wight, em 1970. A imagem de Bob Marley respirava paz e amor (ver vídeo 2). A tendência era apolínea (Friedrich Nietzsche, O nascimento da tragédia, 1872; Ruth Benedict, Padrões de cultura, 1934). A aura dos festivais atuais parece mais dionisíaca. O meu rapaz envia-me um vídeo ilustrativo com a nova versão do Gollum numa tribo efervescente a chapinhar em trajes mínimos (vídeo 1).
Fernando e Albertino
O pacifismo das coxas de frango

Nada supera uma coxa de frango! Nem sequer as de Hollywood. Conciliam inimigos, protegem os fracos, resgatam os vencidos, evitam a guerra e impedem o pecado original. Artes mágicas numa viagem no tempo de um homem banal. A ser verdade, a coxa de frango merece o prémio Nobel da paz ou, no mínimo, o rótulo da Chicken Licken.
Na mão de Deus
Não resisto a acrescentar uma escultura de Gustave Vigeland (https://tendimag.com/2018/09/22/ate-que-a-morte-nos-separe-2/). Lembra Auguste Rodin, de quem era admirador, principalmente a escultura A Mão de Deus. Lembra, também, o soneto A Mão de Deus, de Antero de Quental (segue o original e a tradução em inglês). Para quem acredita em mãos, a mão de Deus promete um alívio infinito.
NA MÃO DE DEUS
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.
IN GOD’S HAND
In the right hand of God, in his right hand
My heart has found a resting-place at last.
Adown the narrow stairway I have passed
That leads us from Illusion’s magic land.
Like to the mortal flowers with which a band
Of children vainly deck them, I have cast
Away the transitory figment, and the vast
Deceit that Passion and the Ideal demand.
As a small child, upon a gloomy day.
Whose mother lifts him, smiling distantly,
And bears him, at her breast, upon her way.
Past woods and seas, o’er desert sand and sod.
Sleep thy deep sleep, O heart of mine now free.
Sleep thou forever in the hand of God!
Antero de Quental. Sonnets and poems of Anthero de Quental. University of California Press. Berkeley, California, 1922.


