Tag Archive | Paula Rego

Anjo da guarda

Paula Rego. Anjo da Guarda. 1998.

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.

Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).

Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Valentin de Boulogne. O Martírio de São Bartolomeu. ca. 1613–15.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.

A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.

Antes do ben-u-ron:

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975.

Após o ben-uron_

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14.

Gravidez e carreira profissional

Paula Rego. Pregnant Rabbit Telling Her Parents.1982.

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:

Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).

Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.

Anunciante: Global Women. Título: A Career-Limiting Move. Agência: Saatchi & Saatchi NZ. Direção Anna Mantzaris. Nova-Zelândia, março 2021.

Como um bom cão

Paula Rego. The Good Dog, Anos noventa.

Quando gosto de uma pessoa, espero por ela. Pode vir, pode não vir, pode não vir nunca. Mas eu espero por ela. Like a good dog (AG).

Quando escrevo gosto de ouvir a música das letras. Agora estão a tocar uma folia. Estou a escrever um texto que me traz afastado do Tendências do Imaginário. Muito trabalhoso e pouco original. Não respira, engasga-se. Não vou conseguir vendê-lo nem pela metade o preço. Tem uma coisa boa: as letras tocam a música The Robots, dos kraftwerk (1978) interpretada pelos Balanescu Quartet (Possessed 1992).

Balanescu Quartet. The Robots. Possessed, 1992. Cover de Kraftwerk, The Robots, 1978.

Preconceito pró-activo

Paula Rego. O Exílio. 1963.

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845).

Em matéria de discriminação de crianças, sabemos muito da realidade que a UNICEF nos quer ensinar. Saber é importante, mesmo quando fingimos o contrário. Mas não chega. Este “apanhado” da UNICEF é um “soco no estômago da gente”, que, como diz Michel Maffesoli, entra, sai e passa. De espanto em espanto, de palavra em palavra, o pensamento submerge.

O José Alberto enviou-me, em boa hora, este anúncio de sensibilização da UNICEF centrado no olhar (ver para crer). Enviou a versão comentada em brasileiro por Madeleine Lacsko (vídeo 2). Reproduzo, também, a versão original, parcimoniosamente despida de palavras (vídeo 1).

Anunciante. UNICEF. Título: Would you stop if you saw this little girl on the street?, Junho 2016.
UNICEF / Madeleine Lacsko. A forma como você trata uma criança depende da roupa que ela veste? Programa Radioatividade, da Rádio Jovem Pan, São Paulo, Brasil, Julho 2016.

As danças de Matisse

« J’ai toujours essayé de dissimuler mes efforts, j’ai toujours souhaité que mes œuvres aient la légèreté et la gaieté du printemps qui ne laisse jamais soupçonner le travail qu’il a coûté » (Matisse, Henri, 1948, Carta a Henry Clifford).

Henri Matisse pintando a Dança, c. 1931.

Henri Matisse pintando A Dança, c. 1931.

Matisse with his painting The Dance (1932–33) in Nice, France, 1933.

Henri Matisse à frente da pintura A Dança (1932–33) em Nice.

Entre dois relatório de atividades, o pessoal e o do Departamento, o olhar deixa-se atrair por outros encantos. Um quadro de Matisse é outra louça. Matisse é um caso à parte na história da pintura: expoente do fauvismo, foi um dos artistas mais influentes do século XX, sobretudo, nos Estados Unidos. Andy Warhol terá exclamado: “Gostava de ser Matisse”.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

As obras que Henri Matisse dedica à dança encontram-se entre as mais marcantes. Por exemplo, La Danse de 1910 (Museu Hermitage), mas também o tríptico La Danse de Mérion, encomendado por Albert Barnes, coleccionador de arte, patente na Barnes Foundation, em Filadélfia. Matisse pintou duas versões anteriores deste tríptico que se encontram no Musée de l’Art Moderne, em Paris.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

O que me distraiu não foram as pinturas de Matisse. Foi uma fotografia, enviada pela Adélia, com Matisse a traçar o esboço de um tríptico, em cima de um banco munido com uma cana de bambu. Quem diz que pintar é fácil não conhece Matisse: “Algumas das minhas gravuras acabei-as após centenas de desenhos” (citado em  Schneider, Pierre, 1984, Matisse, Flammarion, p. 578).

Como suplemento dançante, a música Avlägsen Strandvals (1981) do acordeonista sueco Lars Hollmer, acompanhada por uma selecção de quadros de Paula Rego. Trata-se de um excerto da parte final do vídeo O Desconcerto do Mundo (2005).

Albertino Gonçalves. O Carrossel. Excerto de O Desconcerto do Mundo. 2005.

A insofismável leveza do tacto

 

Não devia partilhar este anúncio! O insólito aveludado, mesmo reduzido ao mínimo, tem um efeito máximo. É antigo, ao jeito do vinho do Porto, com um humor de outras eras, enrugado e frutado, sem buttox. Raro, muito raro, este anúncio escapou, não se sabe como, à censura. Encalhou, há anos, nesta página e dela não vai sair. Um sorriso subtil fica sempre bem em qualquer lugar. Se tem menos de 16 anos ou humor de plástico, p.f., abstenha-se: não clique. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

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Paula Rego

Marca: Roge Cavailles Intimea Soap Wash. Título: The Painting. Agência: Grey Paris. Direção: Jean-Baptiste Leonetti. França, 2002.

Tendências do imaginário

Não devia partilhar este anúncio! O insólito aveludado, mesmo reduzido ao mínimo, tem um efeito máximo. É antigo, ao jeito do vinho do Porto, com um humor de outras eras, enrugado e frutado, sem buttox. Raro, muito raro, este anúncio escapou, não se sabe como, à censura. Encalhou, há anos, nesta página e dela não vai sair. Um sorriso subtil fica sempre bem em qualquer lugar. Se tem menos de 16 anos ou humor de plástico, p.f., abstenha-se: não clique.

Marca: Roge Cavailles Intimea Soap Wash. Título: The Painting. Agência: Grey Paris. Direção: Jean-Baptiste Leonetti. França, 2002.

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Assexia

Paula Rego. Pregnant rabbit telling her Parents. 1982.

Paula Rego. Pregnant rabbit telling her Parents. 1982.

Gosto da publicidade argentina. Os anúncios são impudicamente sexuados. Nada a ver com a “assexia” europeia. Quem acompanha a publicidade argentina e a publicidade europeia fica impressionado com o contraste. Curiosamente, a taxa de natalidade também é distinta: 17,3‰, em 2011, na Argentina; 8,5‰, ou seja metade, em 2012, em Portugal, 10,3‰, em 2012, na União Europeia. Permito-me um apelo aos nossos zelosos cuidadores empoleirados: acabem com o tabaco e com o arroz de cabidela, mas deixem o sexo!

Marca: PepsiCo Argentina. Título: Patinaje. Agência: BBDO Argentina. Direção: Luciano Podcaminsky. Argentina, 2012.

A Ceia do Amor

A cruzada pela natalidade difere das cruzadas contra os salários, o emprego, as pensões e o poder de compra. A cruzada pela natalidade encerra ressonâncias prazerosas, que lembram, em tempos de contenção, uma anedota reaccionária.

War 2003 by Paula Rego born 1935

Paula Rego. War. 2003.

O Manuel e a Maria casaram. Na noite de núpcias, Maria confessa não saber cozinhar. Manuel era empregado bancário e Maria não tinha emprego. Ciente que o dinheiro não chegava, Manuel propõe a seguinte solução: “Ao meio dia, almoçamos no restaurante; à noite, jantamos amor”. Meu dito, meu feito! Correram os dias, sempre a mesma dieta: ao almoço, comiam no restaurante e à noite, comiam amor…

Certo dia, Manuel sai do trabalho uns minutos mais cedo. Abre a porta do prédio e depara com a mulher a escorregar pelo corrimão. Chegada ao rés-do-chão, desata a correr escadas acima e volta a deslizar corrimão abaixo. Mal aterra, Manuel, preocupado, pergunta-lhe: “O que estás a fazer, Maria?” Melosa, Maria responde: “Estou a aquecer a ceia, meu amor!” Eis um bom estímulo para um Portugal fecundo: a ceia do amor em tempos de crise.