Jogar às cartas com o Diabo 5. Deus anda a fumar haxixe

A capacidade de resistência é espantosa, mas não evita traumas, nem desarma golpes.
Espécie de diário, o Tendências do Imaginário raramente passa uma semana sem novos artigos. Entre o 15 de Julho e o 17 de Agosto de 2021, passei quatro semanas de internamento hospitalar, com um intervalo em casa entre o 3 e o 9 de agosto. Representa bastante tempo!
O artigo Sofrimento (09.08.2021) lembra a única recordação dos cuidados intensivos: “visões do outro mundo”, pasmadas e recorrentes, “colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício”.
Dois episódios ocorridos durante os catorze dias de cuidados continuados ficaram-me especialmente gravados na memória.
Com oito internamentos, possuo um currículo hospitalar apreciável. Algumas situações beliscaram a dignidade. Um tratamento noturno, descrito no artigo Anjo da Guarda (17.08.2021), afetou-me em particular. A motivação foi, certamente, para me proteger, sobretudo de mim mesmo, mas talvez concretizada com excesso de zelo. As circunstâncias proporcionavam-se. Em plena pandemia de COVID 19, o pessoal estava esgotado. Para complicar, fui o primeiro caso com semelhante diagnóstico no Hospital: desconhecimento gera insegurança; e insegurança, agressividade. De qualquer modo, foi traumático. O anjo que estava de guarda naquela noite bem podia inspirar um quadro da Paula Rego, com moldura de enxofre. Senti-me embarcado numa Arca de Noé.

Apesar de efémeras, as relações entre doentes, visitantes, médicos, enfermeiros e auxiliares, nas enfermarias e nos quartos dos hospitais, mereciam um estudo.
Partilhei espaços e momentos com vários tipos de companheiros. Alguns diálogos resultam dignos de registo. Por exemplo, quando disse ao parceiro de quarto que “Deus andava a fumar haxixe”. Duvidava, realmente, da sageza e da clarividência divinas (artigo Raiva, 18.08.2021).
Os três próximos artigos culminam a série Jogar às cartas com o Diabo, uma revisitação ao Tendências do Imaginário entre o 3 e o 18 de agosto de 2021. Uma oportunidade para dançar com esqueletos, mas também para “arrumar sombras”. Um jeito de se limpar mergulhando no lodo.

O verão de 2021 foi uma fase de inversão. Antes, sempre a piorar, depois, sempre a melhorar. Da cama para a cadeira de rodas, o andarilho, o tripé e a bengala, que quase dispenso. Endireitei e “cresci”! Como se, após ter descido intempestivamente a escada do lado direito da gravura das idades da vida, a voltasse a subir com paulatinamente. Sobram, contudo, danos irreparáveis em determinados órgãos e funções, por exemplo, ao nível dos rins. Mudaram, inclusivamente, a atitude e a personalidade, mas essa é outra história, difícil de abordar resumidamente.
Sofrimento (09.08.2021)
Colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício. No vórtice, um corpo aberto.

Assombra-me a capacidade de sofrimento do ser humano. Perturba. parece não ter limites. Tão pouco o sadismo.
Anjo da guarda (17.08.2021)

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.
Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).
Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.
A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.
Antes do ben-u-ron:
Após o ben-uron_
Raiva (18.08.2021)


“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).
Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.
Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.
Tédio e lentidão


A um amigo que me ofereceu histórias de imagens, de Robert Walser.
A lentidão é um luxo, o tédio um tormento. Onde está a fronteira?
Regresso às “minhas” músicas; deixo os “tops of the pops” para outras oportunidades. Hoje, estive a ouvir o álbum Astral Weeks (1969), de Van Morrison. Coloco as três últimas faixas.
Gravidez e carreira profissional

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:
Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).
Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.
Como um bom cão

Quando gosto de uma pessoa, espero por ela. Pode vir, pode não vir, pode não vir nunca. Mas eu espero por ela. Like a good dog (AG).
Quando escrevo gosto de ouvir a música das letras. Agora estão a tocar uma folia. Estou a escrever um texto que me traz afastado do Tendências do Imaginário. Muito trabalhoso e pouco original. Não respira, engasga-se. Não vou conseguir vendê-lo nem pela metade o preço. Tem uma coisa boa: as letras tocam a música The Robots, dos kraftwerk (1978) interpretada pelos Balanescu Quartet (Possessed 1992).
Preconceito pró-activo

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845).
Em matéria de discriminação de crianças, sabemos muito da realidade que a UNICEF nos quer ensinar. Saber é importante, mesmo quando fingimos o contrário. Mas não chega. Este “apanhado” da UNICEF é um “soco no estômago da gente”, que, como diz Michel Maffesoli, entra, sai e passa. De espanto em espanto, de palavra em palavra, o pensamento submerge.
O José Alberto enviou-me, em boa hora, este anúncio de sensibilização da UNICEF centrado no olhar (ver para crer). Enviou a versão comentada em brasileiro por Madeleine Lacsko (vídeo 2). Reproduzo, também, a versão original, parcimoniosamente despida de palavras (vídeo 1).
As danças de Matisse
« J’ai toujours essayé de dissimuler mes efforts, j’ai toujours souhaité que mes œuvres aient la légèreté et la gaieté du printemps qui ne laisse jamais soupçonner le travail qu’il a coûté » (Matisse, Henri, 1948, Carta a Henry Clifford).
Entre dois relatório de atividades, o pessoal e o do Departamento, o olhar deixa-se atrair por outros encantos. Um quadro de Matisse é outra louça. Matisse é um caso à parte na história da pintura: expoente do fauvismo, foi um dos artistas mais influentes do século XX, sobretudo, nos Estados Unidos. Andy Warhol terá exclamado: “Gostava de ser Matisse”.
As obras que Henri Matisse dedica à dança encontram-se entre as mais marcantes. Por exemplo, La Danse de 1910 (Museu Hermitage), mas também o tríptico La Danse de Mérion, encomendado por Albert Barnes, coleccionador de arte, patente na Barnes Foundation, em Filadélfia. Matisse pintou duas versões anteriores deste tríptico que se encontram no Musée de l’Art Moderne, em Paris.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.
O que me distraiu não foram as pinturas de Matisse. Foi uma fotografia, enviada pela Adélia, com Matisse a traçar o esboço de um tríptico, em cima de um banco munido com uma cana de bambu. Quem diz que pintar é fácil não conhece Matisse: “Algumas das minhas gravuras acabei-as após centenas de desenhos” (citado em Schneider, Pierre, 1984, Matisse, Flammarion, p. 578).
Como suplemento dançante, a música Avlägsen Strandvals (1981) do acordeonista sueco Lars Hollmer, acompanhada por uma selecção de quadros de Paula Rego. Trata-se de um excerto da parte final do vídeo O Desconcerto do Mundo (2005).
Albertino Gonçalves. O Carrossel. Excerto de O Desconcerto do Mundo. 2005.
A insofismável leveza do tacto
Não devia partilhar este anúncio! O insólito aveludado, mesmo reduzido ao mínimo, tem um efeito máximo. É antigo, ao jeito do vinho do Porto, com um humor de outras eras, enrugado e frutado, sem buttox. Raro, muito raro, este anúncio escapou, não se sabe como, à censura. Encalhou, há anos, nesta página e dela não vai sair. Um sorriso subtil fica sempre bem em qualquer lugar. Se tem menos de 16 anos ou humor de plástico, p.f., abstenha-se: não clique. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.
Marca: Roge Cavailles Intimea Soap Wash. Título: The Painting. Agência: Grey Paris. Direção: Jean-Baptiste Leonetti. França, 2002.
Assexia
Paula Rego. Pregnant rabbit telling her Parents. 1982.
Gosto da publicidade argentina. Os anúncios são impudicamente sexuados. Nada a ver com a “assexia” europeia. Quem acompanha a publicidade argentina e a publicidade europeia fica impressionado com o contraste. Curiosamente, a taxa de natalidade também é distinta: 17,3‰, em 2011, na Argentina; 8,5‰, ou seja metade, em 2012, em Portugal, 10,3‰, em 2012, na União Europeia. Permito-me um apelo aos nossos zelosos cuidadores empoleirados: acabem com o tabaco e com o arroz de cabidela, mas deixem o sexo!
Marca: PepsiCo Argentina. Título: Patinaje. Agência: BBDO Argentina. Direção: Luciano Podcaminsky. Argentina, 2012.
A Ceia do Amor
A cruzada pela natalidade difere das cruzadas contra os salários, o emprego, as pensões e o poder de compra. A cruzada pela natalidade encerra ressonâncias prazerosas, que lembram, em tempos de contenção, uma anedota reaccionária.
O Manuel e a Maria casaram. Na noite de núpcias, Maria confessa não saber cozinhar. Manuel era empregado bancário e Maria não tinha emprego. Ciente que o dinheiro não chegava, Manuel propõe a seguinte solução: “Ao meio dia, almoçamos no restaurante; à noite, jantamos amor”. Meu dito, meu feito! Correram os dias, sempre a mesma dieta: ao almoço, comiam no restaurante e à noite, comiam amor…
Certo dia, Manuel sai do trabalho uns minutos mais cedo. Abre a porta do prédio e depara com a mulher a escorregar pelo corrimão. Chegada ao rés-do-chão, desata a correr escadas acima e volta a deslizar corrimão abaixo. Mal aterra, Manuel, preocupado, pergunta-lhe: “O que estás a fazer, Maria?” Melosa, Maria responde: “Estou a aquecer a ceia, meu amor!” Eis um bom estímulo para um Portugal fecundo: a ceia do amor em tempos de crise.








