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A Deriva das Ideias

A referência à fonte das ideias é cada vez mais um luxo dispensável. Com as novas tecnologias — IA, plataformas ou redes sociais —, exorbita a partilha e dissolve-se a autoria. As ideias circulam, misturam-se, reproduzem-se, transformam-se. Às vezes, enriquecem-se; outras, perdem o rasto de quem as teve primeiro.

Talvez haja aqui uma ironia: há doze anos, escrevi que gostava das minhas ideias “sobretudo quando são quase tuas”. Hoje, quando o “quase tuas” pode significar uma circulação quase instantânea e sem origem reconhecível, a frase ganha outro sentido. Continuo a gostar de ideias que deixam de ser apenas minhas. Já não gosto tanto que, ao deixarem de o ser, deixem também de ter raiz ou história.

Não imite nada nem ninguém. Um leão que copia um leão torna-se um macaco. (Victor Hugo, 1853)

Ideias quase tuas, 29.09.2014

Mais um dia, mais um ano

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá- las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso” (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940, tese 9).

Galeria: Devolução de grifo à natureza em Castro Laboreiro em março de 2022.

A exemplo do anjo de Paul Klee (figura 1), continuo a avançar com os olhos postos no passado. Mas, que me lembre, nunca antes abracei as ruínas com tanta ternura nem o futuro com tanta abertura. E, à semelhança do grifo devolvido à natureza em Castro Laboreiro (figuras 2 a 4), sinto-me cada vez mais devolvido à sociedade. Como um tronco de que irrompem portas e janelas (Figura 5). Não me lembro de receber tantos mimos e parabéns eletrónicos. A todos estou grato por este momento de confraternização.

Anabela Garelha e Salda Silva. Reutiliz’Art. Lamas de Mouro.