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Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.

O pastor, a cabra e o cordeiro

Thaïs Meretrix. De Adriaen Collaert, a partir de Maarten Vos. 1620

A ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet, baseia-se no romance homónimo de Anatole France (1889), que, por seu turno, se inspira nas vidas de São Paphnutius (Pafnúcio) de Tebas e Santa Thaïs (Taíde) de Alexandria, ambos de século IV, consagrados pelas igrejas católica, ortodoxa e copta, celebrados, respetivamente, nos dias 11 de setembro e 8 de outubro (para um resumo das suas vidas, consultar os seguintes links: Paphnutius of Thebes; e Santa Thais, Penitente).

Pafnúcio do Egito (Menologion de Basílio II). Anónimo. Constantinopla. 985

No romance de Anatole France, o anacoreta Paphnutius, arrependido de sua juventude frívola, retira-se no deserto, onde acaba por se tornar abade de um conjunto de monges fundamentalistas egípcios. Uma visão impele-o a sair do deserto para “salvar a alma” de Thaïs, uma bela e rica cortesã, “prostituta de elite”, da cidade de Alexandria. Com imensa dificuldade, consegue convertê-la, convencendo-a a ingressar num convento. O pastor transforma a cabra em cordeiro.

Mas será a sua vez de cair em tentação. Apaixona-se por Thaïs, sofrendo mil atribulações, incluindo ciúme pelos seus antigos amantes. Não há oração nem ascetismo capazes de o redimir. A salvação amaldiçoa o salvador. Trata-se de um desenlace perverso atendendo que a resistência às tentações representa uma das maiores virtudes dos anacoretas. As investidas do mal costumavam aparecer menos como demónios horrendos (ver o painel de Matthias Grunewald) e mais disfarçados sob figuras belas e atraentes (ver a pintura de Pieter Coecke Van Aelst, o Velho).

Recomendo a leitura do romance Thaïs, de Anatole France. Junto duas cópias em pdf: a primeira do original em francês, a segunda da tradução inglesa.

Seja-me permitido, a despropósito e a contramão, efabular ou proverbializar sobre a ambivalência dos símbolos: o pastor não deixa de ser um zeloso guardador de rebanhos; a cabra, sobretudo a montesa, uma apreciadora da liberdade; e o cordeiro, um potencial lobo disfarçado. Não dá para jurar, tão pouco ignorar.