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O grande e o pequeno

Um carro minúsculo, um BMW Isetta, atravessa, em 1964, a fronteira do Muro de Berlin. No regresso, transporta, escondido, um clandestino. A façanha repete-se. O segredo: o carro era tão pequeno que os guardas não imaginavam que pudesse esconder uma pessoa. O pequeno passa o grande quando o grande não passa o pequeno. O tom do anúncio é grave, nada heróico. O suspense ultrapassa a acção. A luz é nocturna e a música, disfórica, é uma peça-chave. Assim se cria um anúncio de referência.

Marca: BMW. Título: The Small Escape. Agência: Jung von Matt. Direcção: Alex Feil. Alemanha, Outubro de 2019.

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M&Ms

Aproxima-se o Halloween. Multiplicam-se os fatídicos anúncios de horror e de contacto com a morte. Da série “Bite Size” Horror, promovida por várias marcas (M&Ms, Fox, Starbust), segue o anúncio Floor 9.5. Qualidade garantida.

Marca: M&Ms. Título: Floor 9.5. Direcção: Toby Meakins. USA, Outubro 2017.

 

A epifania do soutien

valisere-primeiro-sutia-a-gente-nunca-esquece-marca-reformulacaoVestir pela primeira vez um soutien é uma epifania, a passagem de menina a moça. É este o mote do anúncio “O primeiro Valisère a gente nunca esquece”. O anúncio, antigo, remonta a 1987. A banda sonora revela-se crucial: com o soutien, a música é outra. Uma valsa que a menina, agora moça, dança com o reflexo no espelho! Descobri este anúncio nos trabalhos práticos de Júlia e Vicente, ambos brasileiros, para a disciplina de Sociologia e Semiótica da Arte. O anúncio é uma maravilha! De uma sensibilidade e de uma sensualidade nobres. Obrigado.

Marca: Valisere. Título: O primeiro Valisère a gente nunca esquece. Agência: W/Brasil. Direcção: Washignto Oliveto. Brasil, 1987.

Aventureiros do quotidiano

O anúncio The Wizard of Oz, da britânica Sustrans, não prima pela estética, pela imaginação ou pela emoção. Destaca-se pela causa e pelo texto. Quatro frases ocupam um terço, 23 segundos, do anúncio:

“The most important reason for going from one place to another, it’s to see what’s in between” (Norton Juster, Children’s Author).
There is no adventure without a journey.
Fewer children are walking and cycling to school than ever before.
Make our streets safer and give them back their in between.

Anunciante: Sustrans. Título: Wizard of Oz – Safe to School. Agência: Green.TV. UK, Setembro 2014.

O leque de sentenças é notável; e a ideia, perspicaz. A deslocação das crianças para a escola parece relevar cada vez mais do sacrifício e do desperdício. Importa abrir as portas à descoberta e à aventura. Transformar a passagem em travessia?

“A passagem presta-se a um andar que segue o caminho, balizado, previsível, seguro, com destino marcado; a travessia implica um andar que faz o caminho, errante, incerto, assumindo riscos, incluindo o de não chegar ao destino.” (Albertino Gonçalves, A Ponte e a Barca, in Pedro Costa, Reflectir a Barca do Imaginário Social, 2011

Sustrans.

Sustrans.

Não é, todavia, este o espírito do anúncio: passagem e travessia não só não se opõem como podem dar as mãos. Admite-se que “There is no adventure without a journey”, mas deseja-se que a journey seja uma aventura controlada, “in safer streets”. Trata-se, portanto, de uma soft adventure, tão odisseia ou travessia quanto as marchas e as pedaladas nas ciclovias urbanas.

“O carro tornou-se mais importante do que a estrada e a importância de mudar de lugar sobrepõe-se à experiência do caminho. Mesmo quando não há um meio de transporte envolvido, o percurso torna-se insignificante, o importante é percorrer a distância. Poucos exemplos serão melhores para expressar este fenómeno do que o jogging, em que a viagem se reduz ao simples deslocamento. O espaço em que decorre a corrida é irrelevante e se for possível abafá-lo com um iPod e auscultadores ainda melhor (João Gonçalves, Journey, 2014).

Assim se configura a aventura dos homens e das mulheres no século XXI: desportistas no sofá, mensageiros nas ciclovias, exploradores nos centros comerciais, gnus nas auto-estradas, navegadores por satélite e aventureiros nos trilhos urbanos.

Brincadeira à parte, a ideia merece atenção. O tempo que despendemos nas deslocações quotidianas é enorme. Parte das nossas vidas corre o risco de se reduzir ao vazio. Na prática, as deslocações rotineiras são menos vazias do que aparentam. Enchemo-las: sonhamos acordados, cuidamos de nós de outro modo e congeminamos uma infinidade de minudências… Tal como as aranhas de Francis Bacon tecem a teia com a própria substância, nós saturamos o vazio com os nossos próprios pensamentos e imagens. Os tempos vazios estão repletos de nós, das nossas coisas e das nossas vidas.

Vem a propósito a excelente dissertação de Heidi Rodrigues Martins, Tempos múltiplos, sobrepostos e segregados: Narrativas no Luxemburgo, do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, defendida em 2013, na Universidade do Minho. Aborda, precisamente, as deslocações entre a casa e o trabalho no Luxemburgo. Recomendo a consulta: http://repositorium.sdum.uminho.pt/xmlui/bitstream/handle/1822/28337/Heidi%20Rodrigues%20Martins.pdf?sequence=1.

Les aventuriers du quotidien é o título de um livro da socióloga Catherine Bidou (Paris, Presses Universitaires de France, 1984).