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Sentir-se bem

“o homem nasceu para o prazer. Sente-o.” (Blaise Pascal).

“A maior parte das coisas que dão prazer não são razoáveis” (Montesquieu).

O vento leva, o vento traz. Retomo este artigo adiado há dois dias.

Funciono por vagas. Ora música, ora publicidade, ora imagens, ora escrita. Assim me disperso. Esta semana, escrevi, escrevi, escrevi: ruminação obstipada com destempero de letras. Coisa séria e ensimesmada. Apetece-me fechar as palavras e abrir a janela às notas, à música. Deixar entrar prazer descontraído. Com os olhos desembaciados. Quero sentir-me bem! Com minudências. Por exemplo, a partilhar Bobby McFerrin, Anne Murray e Nina Simone.

Bobby McFerrin. Sing! Day of song – Improvisation. Ao vivo. Veltins arena. 2010.

Anne Murrey. I Can See Clearly Now (versão original). There’s a Hippo in My Tub. 1977.
Nina Simone. Feeling Good (Official Video). 2021.

Afinal, o que fica? Ainda os Farrangalheiros.

Existem, afortunadamente, registos do Entroido de Castro Laboreiro. O documentário Castro Laboreiro: Transumâncias, realizado por Ricardo Costa, em 1979, dedica um episódio de dois minutos ao Entroido castrejo (a partir de 20:50).

 Agradeço ao geógrafo conterrâneo Valter Alves o acesso a esta relíquia. Incansável, tem-se empenhado em resgatar documentação sobre Melgaço proveniente de uma multiplicidade de arquivos, alguns raros e improváveis, que publica na página Melgaço, entre o Minho e a Serra: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/. Tenho imenso gosto na nossa colaboração.

Ricardo Costa

Outros conterrâneos e outras páginas também zelam pela partilha de informação sobre o concelho. Por exemplo, Fred Sousa, administrador de Melgaço, Portugal começa aqui, e Justino Vieira, de FAS DE MELGAÇO. Sempre a aprender, sempre a corrigir.

Homem Montanhês / Castro Laboreiro. Segundo episódio: Transumâncias. Uma coprodução Diafilme com a RTP, com realização e montagem de Ricardo Costa. 1979

A riqueza humana

Os tios Celina e João Luís em Paris

Prima irmã (beneficiei do cuidado e do afeto de quatro “mães”: a mãe Ilda e as tias Celina, Leonor e Edite), a Salomé enviou-me, discretamente, esta “muy hermosa y sencilla canción”, The Haves, do Eddie Vedder. Mais do que qualquer outra realidade, a partilha da música é uma entrega pessoal, uma dádiva de si. Como é bom receber! Embora esteja em crer que é mais grato dar.

O avô Amadeu e as gémeas Rute e a Salomé

Bem hajas, pelo gesto e pelo exemplo! Não hesites em repeti-lo. Na autoestrada entre Viana de Castelo e Braga, destaca-se, num dos suportes para publicidade, o seguinte provérbio: “O que não é visto não é lembrado”. É uma meia verdade. Pelo sim, pelo não, junto três fotografias para regalar o olhar e a memória.

Com a Salomé

Dou-me bastante bem com o isolamento. Não convivo mal a sós comigo próprio. Aflige-me, no entanto, a clara consciência de que o outro é que é a minha maior riqueza.

Eddie Vedder. The Haves. Earthling. 2022.

Desigualdade perante o sono

Ariel

A publicidade interessa-se pelas questões de género. Retomando os termos de Louis Althusser, a publicidade não inventa, nem descobre os problemas de género, reinventa-os e vulgariza-os. O anúncio indiano Share the Load é refinado e persuasivo. Algo paira no ar. Sente-se. A um ritmo lento e magnético. Tudo se precipita nos derradeiros segundos. O problema: a mulher tem falta de dormir; “71% das mulheres dormem menos do que os homens devido às ocupações domésticas”. E a solução: repartir as tarefas, partilhar a lavagem da roupa, sem esquecer Ariel, o terceiro elemento. Os anúncios orientais têm o dom de expressar a vida quotidiana sob uma luz mágica.

Marca: Ariel. Título: Share de Load. Agência: BBDO India. Direcção: Shimit Amin. Índia, Março 2020.

A valsa dos valores


Os valores sociais mudam. Muito ou pouco, por vezes, apenas de fachada. Mas mudam. Bernard Cathelat fala em rosa-dos-ventos dos estilos de vida (Styles de vie, 1985). Vários autores estudaram empiricamente as dinâmicas dos valores sociais, por exemplo, Ronald Inglehart (The Silent Revolution, 1977), Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), Alain Girard e Jean Stoetzel (Les valeurs du temps présent, 1983) ou Pascale Weil (A quoi rêvent les années 90 ?, 1993). Os valores axiais estão sempre presentes na sociedade, mas, tal como as teclas de um piano, ora os castigamos, ora os acariciamos. O efeito, o som, é diferente. Assim como o vento agita as folhas, o tempo altera os valores. Parece sentir-se uma aragem nos valores da partilha, da comunhão e da amizade. Os anúncios Quel millionnaire serez-vous, do Euromillions, e Max et Romain, da Bouygues, oferecem-se como indícios. Somam-se a outros com idêntica orientação. Duvido que o murmúrio resulte num ciclone. A partilha, a comunhão e a amizade integram a rosa-dos-ventos dos valores sociais. A nossa sociedade aposta neles? Com que intensidade? A nossa sociedade pós-moderna é moderna, de uma modernidade pintalgada por pirilampos românticos. A partilha, a comunhão e a amizade são pirilampos numa sociedade apostada no progresso, no sucesso, na burocracia, na técnica, na competição, no controlo, na quantofrenia, na prevenção, na aparência, no individualismo, no egoísmo, na ganância e no amor ao poder. Don Quixote e Sancho Pança e Romeu e Julieta não são nossos estandartes. Não é esta a opinião dos visionários da torre gótica da sabedoria. As luzes dos pirilampos podem ofuscar quem vive no pensamento. E, no entanto, o mundo comove-se. Basta viver para sentir. Sentir a experiência do mundo da vida. Não sou herdeiro da scholé, da distância académica à urgência e à necessidade, em suma, da distância à realidade. Parafraseando Goya, a distância à realidade produz monstros. Não são os valores da partilha, da comunhão e da amizade importantes? Sem dúvida, mas não são os mais característicos da nossa sociedade. Nós somos a sociedade dos direitos e o amor é torto.

O anúncio Quel millionnaire serez-vous é falado e em francês. Não é o nosso forte. Passo a resumir. Um grupo de amigos espanta-se com o valor do prémio do “euromilhões”. Que faria cada um caso ganhasse? O último a pronunciar-se garante que o partilharia com os amigos, ou seja, com eles. Descrédito geral. Retira do bolso o bilhete… vencedor. “É vosso!”

Marca: Euromillions. Título: Quel millionnaire serez-vous ?. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Janeiro 2020.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Max et Romain. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Janeiro 2020.

Memórias de um subvivente

Gastão. Walt Disney.

Já se respira o espírito do Natal! Sempre caloroso. Amor para dar e defeitos para corrigir. Como nos livros de Charles Dickens ou nos anúncios da Lotaria Espanhola.

Quem tem uma vida meio vazia, com a memória folgada, consegue lembrar-se de minudências. Há meio século, a lotaria de Natal animava as pessoas. Comprar o bilhete inteiro e repartir as cautelas era um ritual. Cada um podia adquirir várias cautelas e pertencer a vários grupos. Na aldeia, junto à fronteira, tínhamos lotaria a dobrar. A lotaria espanhola, mormente a dos Reis, congregava tantos devotos quanto a nacional. Na Páscoa, repartiam-se os trabalhos da lavoura, no Natal reparte-se a sorte, em pequenas doses, palpáveis, de esperança. Por um tempo, o milagre anda à solta.

Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Pilar. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.
Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Ramón. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.

A repetição e a solidão

Graças à Internet acedemos a uma infinidade de interlocutores e informações. Esta conectividade contribui para nos encontrar ou para nos perder? Para o anúncio argentino You’re not alone, da Sprite, a Internet pode consciencializar-nos da existência de pessoas com particularidades e problemas semelhantes aos nossos. Não estamos sós! E sozinhos? Haver pessoas iguais diminui a minha solidão?

Marca: Sprite. Título: You’re not alone. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Nino Perez Veiga. Argentina, Outubro 2019.

Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

Com o mundo nas mãos

Conectados. Estudiantes.O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.

Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.

Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.

António Macedo. Canta amigo canta. 1974.

Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.

Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.

Partilha

themeltingpot1

A peça de teatro norte-americana The Melting Pot data de 1908. Não confundir com a peça The Shield de 2017.

Se fosse fácil derrubar barreiras e baralhar diferenças, não estaríamos a ver este anúncio.

Marca: TV2. Título: All That We Share. Dinamarca. Janeiro 2017.