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Anamorfose

Quando uma imagem à primeira vista estranha e deformada se torna nítida e significativa sob determinado ângulo ou mediante determinado instrumento, estamos perante uma anamorfose. Um dos casos mais célebres é a caveira do quadro Os Embaixadores (1533), de Hans Holbein. Este vídeo, “Qui Croire” (2011), de François Abélanet, apresenta uma anamorfose grandiosa, feita à escala da Place de l’Hotel de Ville, em Paris.

Fotografia e Investigação

É com grande prazer que o convidamos para o encontro Fotografia e Investigação, que terá lugar no dia 2 de Maio, pelas 18 horas, no Auditório do Instituto da Educação, da Universidade do Minho. Esta sessão do Ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura conta com a participação de Álvaro Domingues, Professor da Faculdade de Arquitetura, da Universidade do Porto, e de Isabel Alves, Responsável pelo Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe.

A fotografia é um recurso apreciável na investigação social, como fonte direta ou como fonte secundária de informação. Não se confina, portanto, ao mero uso ilustrativo. Álvaro Domingues é um exemplo de quanto a máquina fotográfica pode ser um auxiliar do olhar e a fotografia um suporte para a análise e a ilustração. A sua arte peculiar de aproximação à realidade não é alheia ao sucesso alcançado pelos livros Rua da Estrada, publicado em 2010, e Vida no Campo, recém-publicado em Março de 2012, ambos pela Dafne Editora, do Porto.

Gérald Bloncourt é um reputado fotógrafo francês que, nos anos sessenta, direcionou a sua objetiva para os emigrantes portugueses residentes em bairros de lata da região parisiense. Resultou um espólio apreciado por muitos investigadores. As fotografias de Gérald Bloncourt já foram expostas em Fafe, em Lisboa, em Braga e, no final de 2011, em Viana do Castelo. Gérald Bloncourt doou mais de uma centena de fotografias originais ao Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe. Isabel Alves, guardiã atenta deste valioso espólio, falará da obra de Gérald Bloncourt.

O Director do Curso de Mestrado em Comunicação , Arte e Cultura

Abraço elétrico

A publicidade do Infiniti sempre teve apetência por fluxos e fluídos turbulentos em interação com o automóvel. Assim acontece, por exemplo, com os fluídos líquidos nos anúncios G-spot & FXM (em baixo) e Wave (http://tendimag.com/?s=infiniti), ambos de 2006. Neste novo anúncio, Blue Essence, são as descargas elétricas que adquirem protagonismo. A exuberância da cor mantem-se, tal como o bailado do carro com os fluxos envolventes. No século XIX, falava-se muito no “beijo elétrico”. Neste caso, trata-se mais de um abraço.

Marca: Infiniti. Título: Blue Essence. Agência: TBWA ELSE Passion Paris Productions. No country, Abril 2012.

Marca: Infiniti. Título: G-spot & FXM. EUA, 2006.

Pinturas limpas

Somos poliédricos, irisados e camaleónicos. Assim nos pintam os sábios da pós-modernidade. Mas a mistura de tantas cores pode terminar numa enorme mancha cinzenta. Felizmente há ideias capazes de trazer alguma brancura a esta policromia noturna. O Service Civique (http://www.service-civique.gouv.fr/) é um organismo oficial francês que mobiliza os jovens entre 16 e 25 anos para a intervenção social. A TBWA/Paris associou-se à campanha do Service Civique com um anúncio que filma a aplicação de “clean tags” nos muros de Paris. O “clean tag” é uma modalidade de arte de rua que consiste em lavar os muros com água fluvial através de um estêncil, resultando uma marca ou uma figura. Este procedimento coaduna-se com os objetivos ecológicos do Service Civique. Colocadas em locais chave, as silhuetas brancas em tamanho natural retratam as principais atividades desenvolvidas pelos voluntários: apoio aos sem-abrigo, restauro do património histórico, proteção do ambiente… Posto isto, e não desfazendo, quer-me parecer que resulta mais fácil retirar uma marca suja de um muro limpo do que uma marca limpa de um muro sujo.

Anunciante: Service Civique. Título: Clean Tags. Agência: TBWA Paris. França, Março 2012.

A mecânica da paixão

Acabou de sair um anúncio de Bruno Aveillan, o meu realizador de publicidade preferido. Em L’Odyssée de Cartier, Aveillan confirma que, não obstante uma obra vasta e variada, ainda é capaz de inovar, sem, no entanto, prescindir de um piscar de olhos a anúncios anteriores. Este anúncio, que celebra os 160 anos da casa Cartier, é também uma homenagem a Jeanne Toussain, mais conhecida por Coco Chanel. Aproveito o ensejo para repescar este Mechanics of Passion, um anúncio muito escheriano da Cartier, realizado, desta vez, por Christophe Hewitt.

Marca: Cartier. Título: L’Odyssée de Cartier. Agência: Marcel (Publicis) / Wam. Direção: Bruno Aveillan. França, Março 2012.

Marca : Calibre de Cartier. Título: Mechanics of Passion Episode II. Produção : Moonwalk. Direcção: Christophe Hewitt. França, 2011.

A menina do bairro de lata

Costuma dizer-se que em Agosto nada acontece. Pois…  para muita gente é em Agosto que quase tudo acontece. No dia 12, rumei a Fafe para assistir à apresentação do livro “A Terra do Chiculate – Relatos da Emigração Portuguesa” de Isabel Mateus. Mas também me movia conhecer uma mulher que já foi menina.

Gérald Bloncourt é o grande fotógrafo da emigração portuguesa para França. Retratou os bairros de lata, os locais de trabalho e a própria viagem a salto (ver http://www.bloncourt.net/). As suas fotografias foram expostas no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, em 2008, na Casa Municipal da Cultura de Fafe, em 2009, e no Museu da Imagem, em Braga, em 2010. Permito-me destacar quatro fotografias.

Gérald Bloncourt: Immigré portugais dans bidonville de la région parisienne - 1967

Gérald Bloncourt: Il faut faire la queue pour se procurer de l'eau à l'unique robinet de ce bidonville portugais en région parisienne - 1964

Gérald Bloncourt: Le coiffeur du bidonville - Champigny - mai 1964

Na primeira fotografia, um emigrante abre caminho por entre a lama, proverbial no bairro de Champigny. As pessoas, para resguardar a roupa e o calçado, enfiavam sacas de plástico até ao joelho. Nas barracas, não havia água, nem electricidade. A fila para o único fontanário era garantida (fotografia 2). O barbeiro ao ar livre estava em voga (fotografia 3). As barracas não tinham luz. Muitos emigrantes faziam a barba no exterior com o espelho pendurado em qualquer canto. A última fotografia mostra-nos, enfim, a Tina, assim baptizada há escassos três meses. Rodeada de lama, uma boneca e uma bola de azeite na mão. Esta é certamente a imagem mais vista da emigração portuguesa.

Gérald Bloncourt: Menina portuguesa no bairro de St. Denis

Descobriu-se este ano quem era a menina. Como escreve Gérald Bloncourt no seu blogue (http://bloncourt.over-blog.net/): “J’ai retrouvé la petite portugaise, Maria da Conceição Tina Melhorado, le 26 Juin à Paris. Je l’ai photographié dans le Bidonville de St Denis en 1966. Elle est aujourd’hui mère de famille et professeur de Français à Coimbra au Portugal ». Tina também não tinha conhecimento da fotografia. O acaso fez a junção. O símbolo adquiriu corpo, voz e nome. Quarenta e cinco anos depois, Tina mostra-se à altura do ícone.

No dia 12 de Agosto, rumei a Fafe. Não esperava nem uma epifania, nem uma revelação. Testemunhei, outrossim, uma encarnação. Algo que se guarda bem guardado para um dia fazer inveja aos anjinhos do purgatório.