A pandemia como comunicação

No início da pandemia, o discurso político e a comunicação social quiseram-se parcimoniosos. Hoje, a situação é distinta. A informação manifesta-se inesgotável, redundante e, por vezes, delirante. Para além de contexto, a pandemia tornou-se pretexto para outros fins. No anúncio Kerstcadeau, da holandesa Kruidvat, uma criança incentiva o “Pai Natal” a utilizar máscara; por seu turno, o anúncio Covidman, da tailandesa Thai Health Promotion Foundation, alerta que a obsessão com a Covid-19 pode ofuscar a consciência de outros riscos, tais como os acidentes rodoviários.
Ontem, fui submetido a uma cirurgia. Habitualmente, não vejo televisão. Mas, agora, proporciona-se. Pasmo com tamanha sobre-excitação! A diversidade de assuntos foi de férias e não se sabe quando regressa. Neste momento, bastam dois: a violência no aeroporto e a pandemia. Quem comece de manhã e acabe à noite, fica a saber o mesmo, mais do mesmo. Tudo comentado até à náusea. Por especialistas de tudo e por especialistas de nada, mais os testemunhos que dizem o que já se sabe e os jornalistas que registam e veiculam o que também já se sabe. Estou com vontade de sair da convalescença.
Ternura em tempos de epidemia

Bourvil é um ator de cinema e de teatro de muito grata memória em França. A exemplo de Fernandel, Louis de Funès ou Jacques Tati. Lembra Raúl Solnado. Além de ator, Bourvil canta. La Tendresse é um marco da canção francesa (vídeo 1). Inspirou muitas reinterpretações. Nenhuma ofuscou o original. Algumas merecem menção. É o caso da Symphonie Confinée, uma “banda” composta por 45 elementos confinados, que interpreta La Tendresse online (vídeo 2). “O vídeo é dedicado às pessoas afetadas, de perto ou de longe, pela pandemia de Covid-19”.
Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.
Regressar

Semideuses, quase divinos, os ídolos desportivos vingam na comunicação e na publicidade. No anúncio Never too far down, da Nike, o basquetebolista Lebron James, a tenista Serena Williams, o jogador de golfe Tiger Woods e o futebolista Cristiano Ronaldo persuadem-nos que vamos recuperar (da pandemia). Não há abismo ou descaminho que não tenha regresso. Estes quatro campeões não são peritos em coronavírus, mas são magos da bola. Possuem aura e argumentos. Exorbitam. A sequência com o maratonista a arrastar-se até à meta (ver imagem) é a quintessência da mensagem do anúncio: importa resistir, mais que resistir, importa não desistir.
Com a mestria da agência Wieden + Kennedy, uma das melhores a nível mundial, as imagens dos rostos, dos corpos e das posturas dos atletas resultam magníficas, quase transcendentes. Lembram as esculturas da Grécia Clássica. Lembram, também, os atletas do filme Olympia, de Leni Riefenstahl (1936). Será que existe uma estética dos semideuses desportivos? Aproxima-se da estética dos semideuses militares? Afasta-se da estética dos semideuses poetas?













