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Anjos no purgatório: os cuidadores

Imagem extraída da página https://www.lusa.pt/article/KZWL5w4ocqE5TpC4ikpCwjMSZM5iuSI1/covid-19-miseric%C3%B3rdia-de-vila-real-com-13-casos-nos-cuidados-continuados-e-5-em-lar.

Oportuno, esperado e bem-vindo o anúncio One Crisis Has caused another, promovido pela britânica Frontline 19, com o selo de qualidade da agência Adam & Eve, de Londres. A pandemia do covid-19 exponenciou o protagonismo da figura do cuidador mas não a criou. O desafio do envelhecimento, dos idosos desprotegidos, não é menos grave e premente. É certo que a pandemia do covid-10 comporta uma dificuldade adicional: o desconhecimento e a imprevisibilidade. Agudizou, também, a consciência do problema.

Os cuidados, institucionais ou informais, dedicados à pandemia ou à velhice evidenciam-se sem comparação mais urgentes e exigentes do que os reivindicados por outras categorias, algumas parasitas, que ofuscam a comunicação social e colonizam o espaço público. Dispenso invocar exemplos.

A figura do cuidador existe desde que o homem é homem. Sem cuidadores, a sociedade esmigalha-se, colapsa. Mas resultam, paradoxalmente, votados a uma invisibilidade social e a um desamparo desconcertantes, num misto de letargia e vergonha coletivas. Abençoados os cerca de 1.4 milhões de portugueses (segundo inquérito da Associação Nacional de Cuidadores Informais, de 2020) que, informalmente, se esforçam e sacrificam pela qualidade de vida de familiares, amigos e vizinhos vulneráveis. Um gesto, uma palavra ou uma simples presença podem dar vida à vida. Cresce e perdura, lamentavelmente, o número de pessoas que sobrevivem e morrem desapoiadas, por vezes numa extrema solidão, entregues ao mal do século, a morte social. O cuidado dos enfermos e dos idosos, dos dependentes, oferece-se como uma medida da nossa insuficiência. Será tão mesquinha a nossa solidariedade e tão entorpecida a nossa preocupação? Oremos, senhor!

Anunciante: Frontline 19. Título: One Crisis has caused another. Agência: adam&eveDDB/London. Direção: NOVEMBA. Reino Unido, setembro 2021.

A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

As estrelas do confinamento

Tchaikovsky

Proliferam os peritos de nada e os sábios de tudo. Um deslumbramento. O carnaval da ignorância certificada. A medida de tudo e a relevância de nada, os novos candelabros da razão. Tudo merece uma martelada da notícia. Sem hesitação. Abundam os convidados, os entrevistados e os comunicadores nos estúdios ou à distância. São centenas os génios e milhares as asneiras. Repetidas, cada uma se oferece mais certeira que a outra. Tanta gente sábia e experiente. Sabem tudo, sabem tudo e não deixam nada. Sabem, de qualquer modo, mais do que os responsáveis, os idiotas dos bastidores. Como diria Goscinny, parecem aspirantes a vizires no lugar do vizir. Ver televisão ultrapassa as expectativas do público. Emerge uma nova geração de jornalistas. Perguntam imediatamente ao entrevistada quais são os problemas de uma dada iniciativa. Os objetivos, os recursos, as estratégias e os resultados são dispensáveis. A reflexividade jornalística também se tem adaptado. Numa entrevista, o jornalista faz as perguntas e dá as respostas, o entrevistado resume-se a uma mera mediação ou pretexto. Zelo profissional? Assim como não me oponho à figura do sociólogo engajado, também não me oponho à figura do jornalista que toma posição. Dispenso, no entanto, a exposição ao espetáculo mediático.

A televisão apresenta-se como um templo da modernidade. Temos direito à reivindicação e ao protesto. A televisão assume-se como uma plataforma ou uma alavanca de desejos e vontades. Sem eufemismos! Um cidadão ou uma categoria social, presumivelmente injustiçados, recorrem à televisão. Parte substantiva da programação inclui este peditório com laivos de egoísmo. Existe um plano de vacinação? Melhor não existisse. Nós devíamos ser os primeiros. Nós somos os prioritários. O egoísmo anda à solta. Não chegam os dedos das mãos para contar as categorias socias que defenderam estas correções. Lembram as corporações renascentistas!

Perdi, nos últimos meses, alguma mobilidade. Vejo bastante televisão. Com alguma estranheza. O jornalismo sempre teve a tentação de contar as notícias. Esta propensão exacerbou-se com a pandemia. As telenovelas representam uma fatia importante da oferta televisiva. A própria informação também está a adotar o formato da telenovela.

Nestes dias de confinamento, quase sempre que vejo televisão, o assunto é a pandemia: hospitais, médicos, enfermeiros, ambulâncias, doentes, mortos, vacina, estatísticas, previsões, entrevistas, testemunhos… Um canal de televisão quase monopolizado pela epidemia revela-se um excesso. É muito ecrã pandémico para uma população confinada e fustigada pela epidemia. Pois a televisão quase só mostra pandemia. É muita pandemia! Sei que existem teóricos que sustentam que a melhor forma de tratar a fobia de uma pessoa é submete-la sistematicamente a condições dessa fobia. Não creio que seja o caso do novo coronavírus nem da epidemia em palavras e imagens.

O mais avisado é ouvir música. O Tendências do Imaginário não contempla nenhuma obra de Tchaikovsky. Seguem dois excertos: do Piano Concerto No 1 e do Lago dos Cisnes.

Piotr Ilyich Tchaikovsky. Piano Concerto No. 1 / Alexis Weissenberg, piano; Herbert von Karajan, conductor. Berliner Philharmoniker. Recorded at the Berlin Philharmonie, April 1967.
Piotr Ilyich Tchaikovsky. Swan Lake (Theme). Israel Philharmonic orchestra. Tel Aviv. 2001.

Nove meses

Gustavo Rosa. Ela grávida laranja amarelo. 1971.

O José Neves enviou-me o anúncio 9 meses, da Volkswagen. Interpretar é jogar o jogo. Um coro trágico recita notícias pandémicas. Um automóvel segue o seu destino. O coro silencia-se e o automóvel estaciona junto a um hospital. Sai um casal. O homem ajuda a mulher grávida. O ambiente ambarino, “o âmbar de um tempo humano e divino” (https://tendimag.com/2017/06/28/despasmar-o-prazer/), é complementado pela tranquilidade do azul celeste. Apesar das ameaças, o Volkswagen transporta, seguro e sereno, a vida. O anúncio é marcado pelo sentido de oportunidade: nove meses de gravidez, nove meses de pandemia. Recorre a dualidades clássicas: a morte e a vida: a ameaça e a proteção. Não obstante o momento trágico, o anúncio emana esperança: “apesar de todo, la luz siempre encontra el caminho”.

Marca: Volkswagen España. Título: 9 meses. Espanha, dezembro 2020.

A pandemia como comunicação

Covidman

No início da pandemia, o discurso político e a comunicação social quiseram-se parcimoniosos. Hoje, a situação é distinta. A informação manifesta-se inesgotável, redundante e, por vezes, delirante. Para além de contexto, a pandemia tornou-se pretexto para outros fins. No anúncio Kerstcadeau, da holandesa Kruidvat, uma criança incentiva o “Pai Natal” a utilizar máscara; por seu turno, o anúncio Covidman, da tailandesa Thai Health Promotion Foundation, alerta que a obsessão com a Covid-19 pode ofuscar a consciência de outros riscos, tais como os acidentes rodoviários.

Ontem, fui submetido a uma cirurgia. Habitualmente, não vejo televisão. Mas, agora, proporciona-se. Pasmo com tamanha sobre-excitação! A diversidade de assuntos foi de férias e não se sabe quando regressa. Neste momento, bastam dois: a violência no aeroporto e a pandemia. Quem comece de manhã e acabe à noite, fica a saber o mesmo, mais do mesmo. Tudo comentado até à náusea. Por especialistas de tudo e por especialistas de nada, mais os testemunhos que dizem o que já se sabe e os jornalistas que registam e veiculam o que também já se sabe. Estou com vontade de sair da convalescença.

Marca: Kruidvat. Título: Kerstcadeau. Produção: Holy Fools. Direção: Jelle de Jonge. Holanda, dezembro 2020.
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Covidman. Agência: BBDO (Bangkok). Direção: Suthisak Sucharittanonta. Tailândia, dezembro 2020.

Ternura em tempos de epidemia

André Bourvil.

Bourvil é um ator de cinema e de teatro de muito grata memória em França. A exemplo de Fernandel, Louis de Funès ou Jacques Tati. Lembra Raúl Solnado. Além de ator, Bourvil canta. La Tendresse é um marco da canção francesa (vídeo 1). Inspirou muitas reinterpretações. Nenhuma ofuscou o original. Algumas merecem menção. É o caso da Symphonie Confinée, uma “banda” composta por 45 elementos confinados, que interpreta La Tendresse online (vídeo 2). “O vídeo é dedicado às pessoas afetadas, de perto ou de longe, pela pandemia de Covid-19”.

André Bourvil. La Tendresse. 1963.
Symphonie Confinée (Valentin Vander). La Tendresse Symphonie Confinée. Março 2020.

Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.

Marca: Facebook. Título: Survive – Coogan’s. Agência: Droga 5, New York. Direção: Miles Jay. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Intro song to the tv show Cheers ( 1983-1992); Where everybody knows your name, by Gary Portnoy (1982).

Recolhimento responsável

A man takes a nap on the street using a protective mask in Tokyo, Japan July 16, 2020. REUTERS-Issei Kato

A publicidade é um barómetro do imaginário. Mudam os valores, mudam os anúncios. Já existiam anúncios com discursos de responsabilidade social. Agora, generalizaram-se. A publicidade reforça a esfera intimista que nunca descuidou (ver, no fim do artigo, a galeria com obras do pintor “intimista” Pierre Bonnard). Estes tempos mórbidos pedem responsabilidade social e refúgio na intimidade. Recentes, o anúncio brasileiro “Seja exemplo”, da Bradesco, e o anúncio argentino “Mientras esperamos”, da Corona, ilustram este duplo constrangimento: responsabilidade social e recolhimento na intimidade.

Marca: Bradesco. Título: Seja exemplo. Brasil, Agosto 2020.
Marca: Corona. Título: Mientras esperamos. Agência: Draftline Argentina. Direcção: Guido “Chapa” Lofiego. Argentina, Agosto 2020.

Selecção de obras de Pierre Bonnard

Regressar

Semideuses, quase divinos, os ídolos desportivos vingam na comunicação e na publicidade. No anúncio Never too far down, da Nike, o basquetebolista Lebron James, a tenista Serena Williams, o jogador de golfe Tiger Woods e o futebolista Cristiano Ronaldo persuadem-nos que vamos recuperar (da pandemia). Não há abismo ou descaminho que não tenha regresso. Estes quatro campeões não são peritos em coronavírus, mas são magos da bola. Possuem aura e argumentos. Exorbitam. A sequência com o maratonista a arrastar-se até à meta (ver imagem) é a quintessência da mensagem do anúncio: importa resistir, mais que resistir, importa não desistir.

Com a mestria da agência Wieden + Kennedy, uma das melhores a nível mundial, as imagens dos rostos, dos corpos e das posturas dos atletas resultam magníficas, quase transcendentes. Lembram as esculturas da Grécia Clássica. Lembram, também, os atletas do filme Olympia, de Leni Riefenstahl (1936). Será que existe uma estética dos semideuses desportivos? Aproxima-se da estética dos semideuses militares? Afasta-se da estética dos semideuses poetas?

Marca: Nike. Título: Never too far down. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Lance Acord. Estados-Unidos, Maio 2020.