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À deriva

Costuma dizer-se que somos uma geração blasée (enfastiada): nada nos espanta. Contudo, no que me respeita, continua a surpreender-me com bastante frequência a extraordinária criatividade humana.

É o caso do recente filme de animação Flow – À Deriva (estreado em 22 de maio de 2024 em Cannes e vencedor de um Óscar em 2 de março de 2025).

Straume (no Brasil: Flow) é um filme de animação de aventura e fantasia de 2024 dirigido por Gints Zilbalodis e escrito por Zilbalodis e Matīss Kaža. O filme é notável por ser completamente renderizado no software de código aberto Blender e não conter nenhum diálogo.
Após sua estreia no Festival de Cinema de Cannes de 2024, o filme recebeu aclamação da crítica e ganhou vários prémios de cinema e animação, incluindo os prémios de Melhor Filme de Animação no European Film Awards, no New York Film Critics Circle Awards, no Los Angeles Film Critics Association Awards e no National Board of Review Awards (…) No dia 2 de março de 2025, o filme venceu o Óscar de melhor filme de animação, marcando a primeira vitória no Óscar para a Letônia”. (Wikipédia – Straume: https://pt.wikipedia.org/wiki/Straume).

O mundo parece estar à beira do fim, marcado pelos vestígios deixados pela presença humana. Um gato, solitário por natureza, vê a sua casa ser destruída por uma cheia catastrófica. Encontra refúgio num barco habitado por diversas espécies, com as quais terá de colaborar, apesar das suas diferenças. Neste barco à deriva, que navega por entre paisagens místicas e inundadas, os animais terão de enfrentar os desafios e perigos de se adaptarem a um novo mundo. (Films4You: https://films4you.pt/filme/flow-a-deriva/).

Creio que o filme Flow ainda não está em acesso livre. As incorporações tendem a ser retiradas devido à violação dos direitos de autor. Nada como procurar e tentar. De momento, está acessível, provavelmente provisoriamente, no seguinte endereço. [Colocar o filme no início]

Flow – À Deriva. Direção: Gints Zilbalodis. Letónia, Bélgica e França. Lançamento: 22 de maio 2024, em Cannes, 2 de fevereiro 2025, no Brasil. 85 minutos

Coisas, pessoas e animações

Retomo o texto e a curta-metragem de animação (Paperman, 2012) que coloquei faz mais de dez anos num artigo do Tendências do Imaginário, intitulado O amor, o papel e o digital. Serve para introduzir outra curta-metragem de animação (French Roast, 2008), nomeada para um óscar. O primeiro, Paperman, convoca a alma das coisas, o segundo, French Roast, as coisas da alma.

Que seria do amor sem o papel? Um amor digital? Cartas de amor, quem as não tem? E emails com 720 kb de amor? Corpos Photoshop. Virais ou protegidos, com firewall e anti-vírus. Carícias à velocidade da luz… Tenho cá para mim que um dia virá em que as crianças vão nascer na motherboard por contacto online. Em suma, filhos digitais. Nada que não esteja ao alcance da nossa elite científica, discriminada positivamente pela actual sagacidade política. Vai ser emocionante ler no rodapé dos telejornais: oito gémeos provenientes de uma ligação no Twitter nasceram por download; no Japão, uma consola deu à luz uma futura equipa de futebol… Era tão giro, não era? A descoberta científica do milénio para resolver o problema do século! Agora ou nunca!… Os portugueses ficaram famosos por andar a espalhar sexo pelo mundo. Pelo menos assim o advoga a teoria do lusotropicalismo. Em breve, será a vez do sexo digital e do lusodigitalismo. (https://tendimag.com/2014/02/16/o-amor-o-papel-e-o-digital/).

Paperman (O rapaz do Papel). Realização: John Kahrs. Walt Disney Films, 2012
Oscar-nominated comedy about not trusting appearances | CGI Short film ‘French Roast’. Direção: Fabrice O. Joubert, 2008