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Coro dos ciganos

Giuseppe Verdi

Em vinte dias de férias em Itália, engordei três quilos. Recordo um restaurante na praia de Lignano Sabbiadoro. Foram horas solitárias de antipasto, primo piatto (massas), secondo piatto (prato de resistência), formaggi (queijos) e dolci (sobremesa). Camilo Castelo Branco falava em coração, cabeça e estômago. Há quem pense com o coração e sinta com a cabeça. No que me respeita, sinto e penso com o estômago.

Não é de estranhar que um belo “escalope al marsala” me lembre Giuseppe Verdi. Garantia Verdi que não trocava a Itália pelo mundo inteiro. Também não troco Portugal. Quando ouvi, pela primeira vez, as aberturas de Verdi foi uma revelação. Os coros são cósmicos. Saem das entranhas e para as entranhas regressam. Rivalizam com os melhores riffs de guitarra da história do jazz, do blues e do rock.

Anfiteatro de Orange

O Tendências do Imaginário já inclui o “Coro dos escravos hebreus” (Nabucco, 1841) e “La Donna è Mobile” (Rigoletto, 1851). É a vez do “Coro dos ciganos” (Il Trovatore, 1853). Convoca a vulnerabilidade e a potência humanas. Coloco dois vídeos com o mesmo excerto. Duas interpretações excelentes e distintas: uma no anfiteatro de Orange; a outra, na Ópera de Paris. Quando se faz difícil escolher, faço como o burro de Burídan: não escolho.

Giuseppe Verdi :Vedi le fosche notturne (coro dos ciganos, 2º ato). Il Trovatore, 1853.
Le Trouvère by Giuseppe Verdi – Chœur des Gitans (Ekaterina Semenchuk).

Estética da libertação

Ana Luisa Santos. Crisálida. Fotografia de guto Muniz.

Ana Luísa Santos. Crisálida. Fotografia de Guto Muniz.

Há dias assim, em que se dispensam discursos que se desfazem em ideias; barrocos por fora, ocos por dentro. Basta uma ideia bem explorada, uma pequena centelha para acender a imaginação. O que sugerem as imagens do anúncio Incoming? Uma múmia? Uma crisálida? Uma clausura? Uma bandagem? Uma dança contemporânea? Um nu feminino? Uma manta simbólica para uma estética da libertação.

Carregar na imagem ou no seguinte endereço (http://www.culturepub.fr/videos/orange-incoming/) para aceder ao anúncio.

Orange Incoming

Marca: Orange. Título: Incoming. Agência: WCRS. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, 1995.

O caso do planeta apagado

Orange

Coitados dos astronautas! O planeta sumiu. Pintaram-no com tinta preta. Toda a humanidade. Não sobrou um pincel.

Amália Rodrigues (2)

Amália Rodrigues

À semelhança das farsas medievais, os anúncios da Orange não perseguem objectivos morais. Lembram o Principezinho e o reino do coração e da imaginação. “O importante é a Rosa” é uma frase do Principezinho que inspirou a canção homónima de Gilbert Bécaud. Desta vez, é interpretada por Amália Rodrigues. No planeta do Principezinho, se não imaginamos, não vemos.

Marca: Orange. Título: Planet. Agência: Publicis Conseil Paris. Direcção: Frederic Planchon. França, 2007.

Amália Rodrigues. C’est la rose l’important. Ao vivo, em França, em 1968.

São Valentim Ecosófico

the-flower-orangeNeste anúncio, a Orange brinda-nos com uma lenda que, embora passada algures em África, se manifesta actual. Uma princesa deseja uma flor mítica. Vários pretendentes se dispõem a procurá-la. Apenas um vence a prova: aquele que respeita a flor, não lhe toca e regressa tornando-a presente pela descrição, pela palavra. “Words are the most precious gift”. Trata-se de uma mensagem de São Valentim ecosófica, com animação e música a condizer.

Marca: Orange. Título: The Flower. Agência: Marcel, Paris. Direcção: Scott Benson. França, Fevereiro 2014.

Inconveniência amigável

calimeroA publicidade insiste em perturbar o nosso recato. Deu-lhe, agora, para anúncios com trago disfórico! Mas esta maré não nos apanha desarmados. Foi precedida pelas campanhas de consciencialização: rodoviária, contra o álcool, tabaco, violência, poluição… O choque a dar a mão ao medo numa valsa do Apocalipse tornou-se espectáculo familiar. Mas estes “novos” anúncios são distintos: banham em humor. A pessoa que exibe o rosário multimédia excede-se, raiando a inconveniência e o ridículo. O amigo, enredado, também não sai bem na fotografia: pastou até à última imagem! Vale o anúncio não se pretender disfórico, mas cómico. A desgraça é bom combustível do humor. Sobra, contudo, um não sei quê disfórico. Um incómodo que se aloja no sótão da consciência. Um espelho distorcido. Podia acontecer comigo…

Marca: Orange. Título: Retrouvailles. Agência: Publicis Conseil. Direção: Xavier Giannoli. França. 2013.

Desgraça rima com humor. Que o digam os desenhos animados, a começar por Calimero, herói ternamente disfórico. A primeira aparição de Calimero foi, por sinal, num anúncio do detergente italiano AVA.

Calimero. Detergente AVA (Carosello; Mira Lanza). Autores: NinoToni Pagot e Ignazio Colnaghi. Itália, 1963.

Palavras com imagens

A palavra sempre foi importante na publicidade. Em alguns anúncios é, porém, muito importante. A França é um país que cultiva sobremaneira a palavra. Vê-se nestes dois excelentes anúncios produzidos pela mesma agência de publicidade, a Publicis Conseil (Paris), para marcas francesas (Galeries Lafayette e Orange), com realizadores franceses (Philippe André e Bruno Aveillan). A palavra como eixo da imagem.

Marca: Orange. Título: Les Mots. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Philippe André. França, 2009.

Marca: Galeries Lafayette. Título: Recette d’une femme mode. Agência : Publicis Conseil, Paris. Direcção : Bruno Aveillan. França, 1998.

Revolução Digital

Orange. Ten Little FingersPor cá, onde andamos a meter os dedos?

Respira uma beleza requintada, mas singela, este anúncio da Orange com o toque de Bruno Aveillan. Por falar nisso, por cá, onde andamos a meter os dedos?

Marca: Orange. Título: Ten Little Fingers. Agência: Marcel (Publicis). DOP: Bruno Aveillan. França, Junho 2013.

Anomalia

Marcel Duchampl. L.H.O.O.Q. Mona Lisa with moustache. 1919

Marcel Duchampl. L.H.O.O.Q. Mona Lisa with moustache. 1919

Este anúncio admirável da Orange ilustra como os “apanhados” inventivos, simulados ou não, podem desafiar as próprias ciências sociais. Como lidam as pessoas com uma dissonância cognitiva inesperada? Os olhos acreditam no que vêem? Quanta exposição é necessária para se reconhecer um facto anómalo? Para admitir a presença do “impossível”? Como é gerido o conflito entre a razão e a percepção? Quem é anormal? A pintura embuste ou o público estupefacto? Como se desloca esta sensação de anormalidade? Quanto tempo demora a procura de confirmação alheia? O olhar dos outros, a experiência comum, funciona como uma âncora para a travessia cognitiva? Uma dissonância partilhada deixa de ser uma dissonância? A comunicação e o consenso conduzem à verdade? O que justifica o alívio festivo provocado pela “reposição dos factos”? Uma catarse? Uma recomposição? O resgate do “mundo natural”, do conforto da evidência? Pode a reconversão do olhar tornar-se profética? Suspender a ordem? Reconfigurar os dispositivos de acção? E, já agora, até que ponto estes sorrisos e estas piscadelas de Mona Lisa atrevida são estratégicos para a Orange? Por quê a Mona Lisa e não outro quadro qualquer? Este anúncio é da Orange, para a Orange, da Publicis Conseil ou da Publicis Conseil  para a Orange? Aceitam-se respostas múltiplas.

Marca: Orange. Título: Mona Lisa. Agência: Publicis Conseil. Direção: Bo Platt. França, Julho 2013.

Fantasia

Para este fim de semana, sugiro um magnífico cocktail de fantasia. Gosto muito dos anúncios de Frédéric Planchon. Pelo menos, desde o Upside down, que foi amor à primeira vista. Este Entertainment é simplesmente fantástico. O canal Orange Tv deve ser fabuloso! Parece faltar-lhe apenas um tipo de fábulas a que estamos acostumados e que convencionámos chamar notícias.

Marca: Orange. Título: Entertainment. Agência: Publicis Conseil. Direção: Frédéric Planchon. França, Novembro 2008.

Recordar é acordar (os espanhóis recordar dizem acordar).

Marca: Peugeot. Título: Upside down. Agência: BETC Euro RSCG. Direção: Frédéric Planchon. Prança, Novembro 2001.