Com o Filho no Colo

Alguém se lembra da conversa “O olhar de Deus na cruz. O Cristo Estrábico”? Foi há quase dois anos, no dia 29 de novembro de 2022, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Convido-os, hoje, a observar os olhos da Virgem e do Menino neste relevo do primeiro quartel do século XV. A próxima conversa incidirá, precisamente, sobre Maria. O título será aproximadamente o seguinte: “Com o Filho no Colo. Naturalismo e Simbolismo nas Esculturas da Pietà”. Até breve!

O Olhar de Deus na Cruz. O Cristo Estrábico
Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecesseis (São Paulo, 2 Coríntios 8:9).


Consegui extrair a lição sobre o “Cristo estrábico” (de 29 de novembro) com o som mais nítido. Ao vídeo no YouTube, acrescento a respetiva apresentação (Powerpoint). Fica assim concluído o episódio, grato, da homenagem. Outras atividades esperam: um capítulo, com o Américo Rodrigues, para um livro sobre Castro Laboreiro; a criação, que se arrasta, de um blogue coletivo; e a preparação da aula “Vestir os nus: a destruição e a censura da arte”, prevista para o dia 18 de fevereiro.
Para aceder à apresentação em powerpoint, descarregar a partir do seguinte link:
Um mandamento novo

Mandamentos antigos:
Amai-vos uns aos outros
Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje
Born, buy and die
Make love not war
Give peace a chance
Carpe die
Live and let die
Soyez réalistes, demandez l’impossible
Mandamento novo:
Be seen, be heard
Acrescento um vídeo com a canção Questions, do álbum The Roaring Silence (1976), dos Manfred Mann’s Earth Band, com imagens do filme Blade Runner (1982).
Cristo estrábico

Continuo perdido na procissão de imagens de Cristo que me tira do meu conforto. Uma autêntica peregrinação que me desvia para os lugares mais desencontrados. Por exemplo, o Brasil, menos pelo Cristo Redentor do Corcovado (figura 2) e mais pelo Cristo zarolho do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, esculpido por António Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho (figura 1).

Trata-se de uma imagem particularmente notável e singular, porque comporta um misto de dois tipos de temas de Cristo: O Cristo Triunfante (Christus Triunfans) e o Cristo resignado (Chistus Patiens). O seu olho esquerdo fita em frente, fixo no infinito, ao jeito do Cristo triunfante, enquanto que o olho direito olha mais para baixo, tendendo a perder-se no solo, ao jeito das primeiras versões do Cristo resignado. Sobre esta combinação, e sobre o olhar de Cristo em geral, recomento o excelente artigo de Alexandre Ragazzi: “De olhos abertos, de olhos fechados: passado e presente da iconografia do Cristo crucificado”. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v.4, n.2, p. 144-161, mai. 2020. Disponível em: https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/mod/article/view/4324).

Asseveram-se raras as figuras ambivalentes de Cristo. Encontra-se uma polivalente em Portugal, no Museu Grão Vasco, em Viseu: um cristo articulado, datado de meados do séc. XII até ao 1.º quartel do séc. XIII (ver figura 3). “Esta escultura de madeira em tamanho natural (…) tem a particularidade de ser articulada no pescoço, braços – ombros, cotovelos e pulsos –, joelhos, quadril esquerdo e dois pés (…) Com esta configuração, a escultura pode ser adaptada tanto a uma configuração estática de um Cristo na Cruz , com os braços e pernas esticados, quanto a cabeça levantada e voltada para a frente ; e da Deposição da Cruz , bem como a Deposição na Tumba,outras iconografias igualmente poderosas no mobiliário litúrgico das igrejas da Península Ibérica, Itália, França e Alemanha, desde o século X, com especial incidência nos séculos XII e XIII, prosseguidas pelos séculos seguintes, até à Contra-Reforma em algumas regiões” (Carla Varela Fernandes: PATHOS – os corpos de Cristo na Cruz. Retórica do Sofrimento na Escultura em Madeira Encontrada em Portugal, Séculos XII-XIV. Alguns exemplos. Revista RIHA 0078 | 28 de novembro de 2013. Disponível em: https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/view/69842/67265).
Seria muita distração visitar as imagens de Cristo no Brasil e não recordar a canção Jesus Cristo, do Roberto Carlos, editada em 1970.
Dentro e fora. O olhar do século.
Dentro ou fora? De dentro para fora? De fora para dentro? Dentro e fora.
Para Francesco Casetti, o cinema é o olhar do século XX (L’occhio del Novecento. Cinema, esperienza, modernità, Milano, Bompiani, 2005), um olhar que entra no ecrã, do cinema ou da televisão (Dentro lo sguardo. Il film e il suo spettatore, Milano, Bompiani, 1986; com F. di Chio, Analisi della televisione. Strumenti, metodi e pratiche di ricerca, Milano, Bompiani, 1998).
“With regard to vision, the film aims to “fill the eyes” of the spectator, to solicit him sensually: the filmic experience mobilizes a perceptive intensity that allows the spectator to “immerse” him or herself in that which he or she is watching. In this sense we can say that filmic images, more than objects to be seen, constitute a visual environment. But film seems to do other things, as well: it seems to want to “restitute” to the spectator that reality which on the screen is not present if not in its appearance; and it seems to want to do so through an illusion” (Casetti, Francesco, 2007, The Filmic Experience: An Introduction, p. 10: https://francescocasetti.files.wordpress.com/2011/03/filmicexperience1.pdf).
O envolvimento visual, além de propiciar a entrada do olhar no ecrã, promove a imersão do próprio espectador, convidado a co-construir a experiência fílmica. “O olhar do século XX” não é apenas imersivo, não se limita a “encher os olhos”, é também interactivo. A imersão coexiste com um sentido de distanciação. Dentro e fora, o cruzamento de olhares conjuga-se na experiência fílmica. O anúncio do Seattle International Film Festival contempla, de algum modo, este tango de perspectivas.
Anunciante: Seattle International Film Festival / SIFF. Título: Be Watching. Agência: Wongdoody. Direcção: Lindsay Daniels. USA, 2015.
Guiar o olhar
Nesta campanha da SNCF, Micro Prix TGV, cada anúncio abre com uma bela sequência de imagens de um pequeno animal: gafanhoto, joaninha, louva-a-deus e rã. Apelativas, estas imagens prendem o olhar, conduzindo-o até a um inesperado letreiro com o preço de um bilhete de comboio. Cada anúncio não é longo (cerca de 35 segundos), mas produz um efeito de duração notável, e aprazível. Neste conjunto de aspectos, os anúncios são eficazes. Já a ponte entre o infinitamente pequeno dos animais e o infinitamente pequeno dos preços, parece-me, como dizem os franceses, tirée par les oreilles.
Anunciante: SNCF Micro Prix TGV. Título: La Sauterelle. Agência TBWA Paris. Direção: Jérôme Raynaud. França, Setembro 2013.
Anunciante: SNCF Micro Prix TGV. Título: La Coccinelle. Agência TBWA Paris. Direção: Jérôme Raynaud. França, Setembro 2013.
Anunciante: SNCF Micro Prix TGV. Título: La Mante. Agência TBWA Paris. Direção: Jérôme Raynaud. França, Setembro 2013.
Sem pestanejar
Há anúncios assim. Comparativamente longos, optam por se atardar em torno de um assunto lateral. O produto propriamente dito é abordado na parte final. O corpo e a conclusão do anúncio requerem, no entanto, algum tipo de ligação. É frequente a ligação entre o tema e o produto convocar as figuras do excesso e da excepção. Por excesso, a mulher, ofuscada pelo Honda, não conseguiria parar de pestanejar. O anúncio aposta, porém, na excepção: seduzida pelo automóvel, a mulher, contra a natureza humana, deixa de pestanejar. De qualquer modo, seja por excesso, seja por excepção, o produto, o automóvel, respira diferença e distinção, num piscar de olhos feito de luz e visão.
Existe um anúncio argentino, enternecedor, que também incide sobre o ato de pestanejar (para aceder: http://tendimag.com/2012/06/24/teus-olhos-risonhos-sao-mundos-sao-sonhos-alves-coelho/).
Marca: Honda. Título: Papadeos. Agência: DraftFCB, Puerto Rico. Direção: Alvaro Aponte Centeno, Porto Rico, Agosto 2013.
O olhar e a realidade
Muitas vezes, voltamos a olhar e não vemos o mesmo. A realidade muda.
Outras vezes, a realidade permanece inalterada, mas vemo-la diferente porque muda a posição, o ângulo e a perspectiva do nosso olhar.
Anunciante: The Guardian. Título: Point of View. Agência: BMP Davidson Pearce. Direção: Paul Weiland. Reino Unido, 1987.
A realidade, a posição e a perspectiva podem manter-se e, mesmo assim, mudar o que vemos. Porque muda o nosso olhar e nós próprios mudamos.
Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.


