Libertação da lei da morte

Ao ritmo a que são publicados, os artigos do Tendências do Imaginário são flashes de palavras e imagens, fruto aparente de geração espontânea. Mas acontece um ou outro estar na forja durante dias, senão semanas. Continuam a ser palpites, mas um pouco menos. Nestes casos, gosto de falar em imaginação criativa de médio alcance. O artigo Até que a morte nos separe?, colocado pela primeira vez no dia 22 de setembro de 2018, representa um exemplo.
Merdificação
Vivemos tempos de incerteza em que as oportunidades mais promissoras são também as ameaças mais sérias.
Em francês, resulta difícil distinguir Ça sent la mer d’ici (Daqui, cheira-se o mar) e Ça sent la merde ici (Aqui cheira a merda).
O Fernando deu-me a conhecer uma palavra nova, “merdificação”, ilustrando-a com o anúncio de consciencialização “A Day in the Life of an Ensh*ttificator”, do Norwegian Consumer Council.
Enshitification é um neologismo criado em 2022 por Cory Doctorow para aludir ao ciclo de perversão das plataformas digitais: “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários; depois, elas abusam dos usuários para tornar as coisas melhores para seus parceiros de negócios; por fim, elas abusam desses parceiros para reaver todo o valor para si mesmas. Então, elas morrem.” Aplicada inicialmente às plataformas digitais, a noção acaba por ser alargada pelo próprio Cory Doctorow à generalidade dos “bens” de consumo (Doctorow, “‘Enshittification’ is coming for absolutely everything”. Financial Times, 2024, January).

Os novos virtuosos, “merdeiros”, conseguem cativar o maior número de consumidores graças não a uma elevada mas a uma baixa relação benefício/custo. Transformam uma proposta promissora numa porcaria, eventualmente, aditiva.
Para uma síntese mais desenvolvida da noção de enshittification, sugiro, os artigos “A ‘Merdificação’ das redes sociais”, de Raul Oliveira Jung, e “The Age fo Enshittification”, de Philippe Buschini, ambos publicados em 2025.
Estamos confrontados com uma vaga de mudança não revolucionária: proliferam novidades que exacerbam a ordem existente sem a questionar. Por exemplo, o reforço e a expansão do capitalismo pelo hiperneoliberalismo.
O “hiperneoliberalismo” (ou hiper-neoliberalismo) é um conceito que descreve o aprofundamento radical das políticas neoliberais clássicas. Longe de defender um Estado mínimo tradicional, ele atua como um modelo onde o Estado é reconfigurado de forma autoritária para agir ativamente em prol dos interesses corporativos e do grande capital, impondo a lógica do mercado e da competição a todas as esferas da vida social e individual. As suas principais características incluem: Estado como Provedor do Mercado: Ao invés de simplesmente recuar, o poder público atua como um facilitador ativo de acumulação de riqueza, priorizando desregulamentações e benefícios fiscais para grandes corporações e super-ricos. Intensificação da Desigualdade: Promove a financeirização da economia e uma enorme concentração de renda, ignorando ou enfraquecendo redes de proteção social e direitos laborais. Governança Algorítmica e Individualismo: Transforma o indivíduo num “empresário de si mesmo” (capital humano), gerando uma cultura de hipercompetitividade e individualismo que enfraquece os laços sociais. Tendências Autoritárias: Requer a supressão de resistências sociais, movimentos de contestação e até de instâncias representativas e democráticas, impondo um consenso de mercado goela abaixo. O termo é frequentemente utilizado por sociólogos e analistas políticos (como o geógrafo David Harvey) para descrever as mutações do capitalismo na contemporaneidade. (IA, 21.06.2026)
Pontos quase invisíveis num coração de mercúrio
Numa poltrona ampla, perto de uma lareira abençoada, pode-se viajar, no inverno, até ao infinito (Hippolyte Laroche)
Em janeiro de 2023, escrevi:
Há anos que não me expunha assim, tão fora de casa e tão fora de mim. Deixei o mundo penetrar até aos ossos e a expressão soltar-se. Como desfecho, sinto-me massajado, amassado e moído. Surpreendo-me, por drástica que tenha sido a vacina, a desejar o torpor cálido da caverna. Com a visita desta frente nórdica, frio apenas tolero o da música, compassada, suave, minimalista… Etérea!
Por exemplo, a trompete do norueguês Nils Peter Molvær.” (A Caverna dos Fantasmas de Estimação. The Cinematic Orchestra. 17.01.2023)
Apesar desta menção, o Tendências do Imaginário ainda não contempla nenhuma obra do trompetista norueguês Nils Petter Molvær, pioneiro da fusão do jazz com a música eletrónica. Aproveito esta vaga gélida para reparar o esquecimento.
Nils Petter Molvaer soa diferente, mas ser diferente, mormente pioneiro na diferença, merece apreço. Nada como ensaiar entranhar, de preferência com a ajuda do crepitar da lenha na lareira.
Começo com o belíssimo vídeo oficial de “Nearly Invisible Stitches”, do álbum de estúdio mais recente Stitches (2021). Prossigo com “Mercury Heart”, do álbum Baboon Moon (2011). Por último, regresso a duas músicas do primeiro álbum, o meu preferido, Khmer (1996): “Song of Sand II” (ao vivo em 2001) e “Khmer”.
Traseiro arrojado
O grotesco está a pegar de estaca. Na publicidade como na política. Que significa a coexistência de uma censura omnívora cada vez mais zelosa, a que nem sequer escapa a sombra de um seio de uma escultura clássica, com uma permissividade desbragada, em que as nádegas podem falar mais alto? Dualismo ou forma de gerir valores e emoções?
O anúncio norueguês “Start your own”, da DNB, apostado no desafio de uma nova vida, proporciona uma oportunidade para abraçar o dia bem-disposto e irreverente.
Insinuação estética
“Os privilégios da beleza são imensos. Afeta inclusivamente quem não a reconhece.” (Jean Cocteau. Les enfants terribles. Paris, Grasset, 1929, p. 19)
Quando a beleza passar perto, abram as janelas! Seguem mais duas canções da norueguesa Ane Brun.
Herança viking
O amigo Joel sugeriu-me a música dos noruegueses Wardruna (c/ Einar Selvik) acrescentando o link para a canção “Snakepit Poetry: “lembro-me que gostava da Lisa Gerrard. É capaz de gostar desta música de 2 cantores que gosto bastante também”. Em boa hora! Abençoada partilha. Obrigado, Joel!
Ressalvando uma ou duas amigas, quase ninguém me música. Talvez devido a um erro de ótica. Pressupõe-se que conhecendo quanto baste, um acréscimo resulta uma minudência. Ora, quanto maior é o conhecimento, maior o valor de uma novidade. Tive a experiência como colecionador de selos. Com a música não é diferente
Passei o dia a ouvir os Wardruna. Segue uma seleção apressada.
Os anjos sempre cantaram

A Fátima Guimarães e a Almerinda Van Der Giezen colocaram, respetivamente, as canções “Oh Love” e “These Days” interpretadas pela norueguesa Ane Brun. Uma voz a seguir! O prazer partilhado é um regalo exponencial. Acrescento, um pouco no espírito da época, um videoclip, também da Ane Brun: “Do You Remember”. Delirante e cheio de ressonâncias, como apreciam algumas amigas.
As crianças na escola

Contar histórias curtas é uma arte. Os anúncios Clean Conscience, da Usa, e Love Note, da Protection Environnement, constituem um bom exemplo. Duas pérolas do arquivo culturepub. Mas outros anúncios parecem requerer mais tempo como que para uma maior abertura ou massagem do espírito. É o caso do anúncio The Lunchbox, da Bufdir.


Indecisão

Começar a semana com uma música é uma boa prática. Para a música do lado A, Lonely Boy, falta-me energia; para a música do lado B, Nocturne, falta-me a tranquilidade. O mais avisado é não começar a semana.

