Nascimentos por mês. A sazonalidade do sexo
“É em setembro que a vida começa a sério” (Gilbert Bécaud, vídeo musical 1). É, pelo menos, o mês em que nascem mais crianças em Portugal. Na tabela 1, os valores mais baixos aparecem carregados a vermelho; a verde, os valores mais elevados. O gráfico 1 ilustra esta distribuição.
Tabela 1. Nascimentos por ano e por mês. Portugal, de 2014 a 2019.

De 2014 a 2019, os meses mais “férteis” são, por ordem decrescente, setembro, outubro e agosto. Os menos “férteis” situam-se entre fevereiro e junho.

As crianças nascidas em setembro foram concebidas em dezembro. O que justifica este destaque? O reencontro natalício? O imaginário da natividade? A Senhora do Ó? A disponibilidade de tempo? A esperança associada ao Ano Novo e aos dias crescentes após o solstício de inverno? A indigência invernal? A última pseudoexplicação, a relação entre indigência e sexualidade.
Estas pseudoexplicações da proeminência de dezembro, na conceção, e setembro, no nascimento, relevam, de algum modo, do disparate. A realidade é complicada.
Os valores dos nascimentos em setembro não se afastam dos valores de agosto e outubro (ver tabela). Mas a maioria dos fatores convocados vale apenas para o mês de dezembro/setembro: reencontro natalício, imaginário da natividade, ano novo e solstício.
Eira de milho
Luar de Agosto
Quem faz um filho
Fá-lo por gosto
(Simone de Oliveira. Desfolhada. 1969.)
Gráfico 2, Nascimentos por mês e ano. Portugal. De 1980 a 2015.

No tempo de Simone de Oliveira, o pico nos nascimentos era, provavelmente, em abril, e não em setembro, e a conceção das crianças em agosto, e não em dezembro (ver gráfico 2). Como explicar o predomínio do mês de agosto? As férias? O regresso dos emigrantes? A praia? As romarias? A exposição dos corpos? A concentração dos casamentos? A efervescência social? Não sei! Não sei! Não sei! Sabe bem um banho de ignorância documentada.
Falos electrónicos
O anúncio Phondoms Primavera, da Tulipan, abre com as seguintes palavras: “Chega a Primavera, e embora os jovens se divirtam com responsabilidade, há algumas coisas que ainda não aprenderam a cuidar”.
Em Portugal, 1985, não era na Primavera, mas no fim do Verão, que mais se semeava; nove meses depois, ocorria, em Maio, o pico de nascimentos (ver Gráfico 01).

Em trinta anos, a distribuição mudou. Em 2015, o pico dos nascimentos é, agora, em Setembro. A sementeira desloca-se para o Inverno. Em França, a evolução é semelhante: em 1975, o pico era em Maio; em 2005, o pico é em Setembro (ver Gráfico 02). Os portugueses não se comportam como os passarinhos. A procriação distribui-se por todo o ano, sem destaque para a Primavera.
02. Movimento sazonal dos nascimentos em França Metropolitana: anos 1975 e 2005.

O anúncio Phondoms Primavera foca, com humor, um problema nevrálgico. A Internet é perigosa. Acolhe toda a bondade e toda a maldade da humanidade. O excesso de exposição pessoal torna-nos vulneráveis. Por exemplo, ao cyberbullying, responsável por vários suicídios. Os preservativos já foram colocados em tantas figuras e em tantos locais que não são os telemóveis que vão destoar.
Escrevi que existem “produtos publicitários particularmente difíceis. Por exemplo, o papel higiénico, os slips, as sanitas, os preservativos… E, no entanto, têm dado azo a anúncios memoráveis. A adversidade pode espicaçar a criatividade” (https://tendimag.com/2015/09/10/o-cronometro-da-morte/). O anúncio Phondoms Primavera é um exemplo inspirador: os telemóveis como falos electrónicos carentes de preservativos que evitem as consequências da exibição pública da intimidade.
Marca: Tulipán. Título: Phondoms Primavera. Agência: BBDO Argentina. Argentina, Setembro 2015.

