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Máquinas desejadas

Old Spice. Soccer 2

Mais um cheirinho a  Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos,  mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (https://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.

Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.

Com a verdade me enganas

Folha de S. Paulo

“Falar verdade a mentir” é o nome de uma peça de teatro de Almeida Garrett (1846). Neste anúncio, clássico, da Folha de S. Paulo (1987), trata-se, antes, de mentir a falar verdade”: “É possível contar um monte mentiras dizendo só a verdade”. Criteriosamente adiado, o desfecho do anúncio é desconcertante. Em 1988, ganhou o Leão de Ouro em Cannes. É possível contar mentiras cingindo-se à verdade, bem como surpreender o “espectador blasé”. As grandes mentiras não acabaram. Tão pouco as grandes narrativas.

Marca: Folha de S. Paulo. Título: Propaganda – Hitler. Agência: W/Brasil. Brasil, 1987.

 

 

 

Os Últimos Desejos

Volkswagen Kombi. Os últimos desejos.Não me digam que já não há histórias para contar, que terminaram as narrativas prenhes de sentido! Pois ainda existem: com pessoas e com objectos. A carrinha Kombi (“pão de forma”) deixou de ser produzida no ano passado (2013). A Volkswagen não encontrou solução para a equipar com air bag e travões ABS, entretanto obrigatórios. A pretexto da “última viagem”, o anúncio, bastante longo, convoca alguns dos momentos mais simbólicos da vida da carrinha.

Marca: Volkswagen Kombi. Título: Os Últimos Desejos. Agência: AlmapBBDO. Direcção: Fernando Grostein Andrade. Brasil, Março 2014.

Laços electrónicos

Este anúncio da Samsung acompanha a tendência para a multiplicação de sequências desencontradas sem costura narrativa. As imagens sucedem-se sem encadeamento. Mais ou menos discreto, apenas o Samsung  Galaxy SII smart phone estabelece alguma ligação. Uma voz percorre todo o anúncio. À semelhança das imagens, envolve menos a razão e mais a sensação, o sentimento e a emoção. A voz é música para o cérebro. Como diria Michel Maffesoli, não se trata de uma demonstração, mas de uma “monstração”. Este anúncio é um exemplo de um coq-à-l’âne bem elaborado. É desconexo mas logra o efeito desejado: a empatia com o produto.

Marca: Samsung. Título: The way we’re wired. Agência: Leo Burnett Chicago. Direcção: Nicolas Caicoya. EUA, Outubro 2011.

Já agora, a voz, a “música para o cérebro”, canta o seguinte:

“Nobody ever set their sights on second place. Who among us aspires to be almost remembered. There’s a reason there are no giant foam fingers that say, “You’re number three!”. No one wants to tell an average joke, make an underwhelming entrance, go out with a whimper. No one ever stood in front of the mirror with a hairbrush pretending to be the tambourine player. And there are definitely more kids dressed as Batman than Robin. We aspire. So when we built our new Android phone we built it to be the best and the brightest. Faster. Better. With a screen every other phone has a poster of. ‘Cause we’re Samsung. And that’s just the way we’re wired.”