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O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

O perfume e o hálito

O Tendências do Imaginário dedicou uma série de artigos a anúncios de perfumes. Lugares mágicos, modelos extra belos e fragâncias sedutoras. Importa dissentir!

O ser humano dá sentido a tudo, e tudo avalia. A começar pelo corpo. É de entendimento comum que existem fenómenos corporais que são bons e outros que são maus. O que sai do corpo tende a ser desagradável: a transpiração, a urina, os excrementos, a mucosidade, a cera, o cuspo, o hálito…  Existem, porém, excepções: o parto, a lágrima e a palavra. A alimentação e a respiração são bons exemplos desta dualidade: os alimentos são bons, mas o arroto e vómito são maus; inspirar é bom, expirar, nem por isso. Desçamos, pois, da alteza dos perfumes para a baixeza do corpo.

No anúncio tailandês, da Dentiste, o mau hálito ameaça a interacção humana. Entre modulações e repetições, durante seis minutos, os contratempos do mau hálito são ridicularizados. Com imaginação e desenvoltura. Bizarro, disse bizarro? Estranho. A percepção do corpo dos orientais difere, porventura, da nossa.

Marca: Dentiste. Título: Hálito. Agência: Lobster & Co. (Tailândia). Direcção: Thanonchai Sornsrriwichcha. Tailândia, Fevereiro 2020.

Querer com as velas levar o vento

Pablo Picasso. Seated Harlequin. 1901.

P. Picasso. Seated Harlequin. 1901.

Longe no tempo, o ancião, longe no espaço, o eremita, ambos vêem de longe o que já viram de perto. “Cansada já a velhice” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 90), sabem que é insensato “querer com as velas levar o vento” (Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IV, oitava 91), bem como é imprudente querer com a técnica levar o mundo. Aos olhos sentados, a técnica corre sempre adiantada em relação a nós, sempre atrasada, em relação a ela própria. O controlo remoto, como no anúncio GPS, recalculando, da BC, é a sua metonímia.

Marca: BC. Título: GPS recalculando. Agência: Delcampo Nazca Saatchi & Saatchi. Argentina, 2010.

A alcoviteira electrónica

A campanha do novo Guerra das Estrelas é notável. A HP, por exemplo, lança produtos e multiplica os anúncios alusivos ao filme. Este Reinvent Romance with R2-D2 é simples, criativo e cirúrgico. O pequeno e dedicado robot, anjo de lata com rodas, assume o papel de alcoviteira. Dele para ela, com resultados desejados. Mais um passo na relação entre homens e máquinas.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

h2r2

Marca: HP. Título: DYU / Reinvent Romance with R2-D2. Agência: BBDO New York. Direcção: Tom Tagholm. Estados Unidos, Novembro 2015.

Desencanto

Suzie 1

Este anúncio indiano é invulgar. Como diria o Principezinho, “o essencial é invisível aos olhos”. Uma das graças que o Criador nos concedeu consiste em pintar o mundo com as cores do desejo. Quando, invisuais ou não, vemos a princesa que sonhamos, ela dá-nos a mão para pintar o mundo.

Para além das cores do desejo, o Criador dotou-nos, também, com o “apanágio do riso”. O anúncio inscreve-se, com sucesso, num registo cómico. Um jovem com deficiência visual toma a cadela por namorada. Mas um dia, um novo par de óculos desfaz o encanto.

Esta aposta no disparate como detonador exacerba o riso, num cocktail absurdo, insólito e extravagante, concentrado num único momento, o momento que fecha o anúncio.

Acontece aos normais rir-se a um espelho invertido; dos deficientes, dos corcundas, dos surdos, dos cegos, dos coxos, dos feios e demais aberrações. Faz parte da nossa “natureza imbecil” (Blaise Pascal). Não é o caso deste anúncio. Seria má pontaria. Não seria?

Marca: Lenskart.com. Título: Suzie. Agência: Enormous, Ashish Khazanchi. Direcção:  Shirsha Guha Thakurta. Índia, Julho 2015.

Virados do avesso

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Kate MacDowell. Daphne. 2007.

Quem rejeita desencontros como este?
O anúncio da Interflora é uma bela parábola.
Diferença, aproximação, devir.
O gótico torna-se clássico, e vice-versa.
Tu não és apenas o que és mas o que podes ser.
Contraditorial, é atributo do homem poder virar-se do avesso.

Marca: Interflora. Título: Odd love. Agência: Brandhouse. Direcção: Martin Werner. Dinamarca, Fevereiro 2015.

O amor, o papel e o digital

Paperman

Que seria do amor sem o papel? Um amor digital? Cartas de amor, quem as não tem? E emails com 720 kb de amor? Corpos Photoshop. Virais ou protegidos, com firewall e anti-vírus. Carícias à velocidade da luz… Tenho cá para mim que um dia virá em que as crianças vão nascer na motherboard por contacto online. Em suma, filhos digitais. Nada que não esteja ao alcance da nossa elite científica, discriminada positivamente pela actual sagacidade política. Vai ser emocionante ler no rodapé dos telejornais: oito gémeos provenientes de uma ligação no Twitter nasceram por download; no Japão, uma consola deu à luz uma futura equipa de futebol… Era tão giro, não era? A descoberta científica do milénio para resolver o problema do século! Agora ou nunca!… Os portugueses ficaram famosos por andar a espalhar sexo pelo mundo. Pelo menos assim o advoga a teoria do lusotropicalismo. Em breve, será a vez do sexo digital e do lusodigitalismo. Para uma visualização de Paperman com mais qualidade, aceder http://www.dailymotion.com/video/xzt3vb_paperman_shortfilms.

Paperman (O rapaz do Papel). John Kahrs. 2012.

voo pré-nupcial

O retorno aos arquivos pode ser compensador. Em 2007, teve lugar no Mosteiro de Tibães a exposição “Vertigens do barroco”. A um canto, recortava-se uma sala de estar com móveis modernos extravagantes e um baú do séc. XVIII com anjos a dançar. No centro, corriam num  ecrã “cápsulas de emoções, ou seja, dezenas de anúncios publicitários. Por exemplo, o Marry me, da Siemens, de 2006.