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A Parte e o Corpo

The Hands of Orlac . 1924.

The Hands of Orlac . 1924.

Realidade ou fantasia, a personalidade dupla é um tópico comum. Mais insólito é o tópico da corporalidade dupla. Mais prótese, menos prótese, o corpo pode prescindir de uma parte. A ficção científica vai mais longe: no romance Não Temerei Nenhum Mal, de Robert Heinlein (I Will Fear No Evil,1970), Johann Sebastian Bach Smith enxerta o seu cérebro no corpo de uma funcionária. O problema resume-se em saber a que parte vai sair o híbrido: ao patrão ou à funcionária? O dilema é antigo. No filme mudo The Hands of Orlac (1924), um pianista sofre um acidente que lhe destroça as mãos. Recorre a um transplante. Mas o pianista começa a adoptar comportamentos criminosos. As mãos transplantadas pertenciam a um assassino!

Marca: Cervejaria Nacional. Título: Bike & Beer Belgium 2014. Agência: Brancozulu. Brasil,  Julho 2014.

Este comentário sofre de um vício de interpretação. O anúncio é uma comédia e o comentário enreda-se em tragédias. Como redimir esta perversidade? Neste blogue, analisam-se  muitos anúncios, o que não quer dizer que seja essa a sua vocação. O blogue é um grande “desvocacionado”. Os anúncios são, frequentemente, tomados como pretexto. Neste caso, a aura cultural, e civilizacional, do romance I Will Fear No Evil e do filme The Hands of Orlac é de tal ordem que, proporcionando-se, ignorá-los seria uma falha. No blogue Tendências do Imaginário, os dedos correm sobre as teclas como se fossem cabras.

Máquinas desejadas

Old Spice. Soccer 2

Mais um cheirinho a  Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos,  mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (https://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.

Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.

O Sonho e a Multiplicidade

Chorus

O Sonho
“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era um artesão(…) a vida é um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos).

A Multiplicidade (sugestão de Álvaro Domingues)
“Alguém poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior, a descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, respondo, quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode sercontinuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. Mas a resposta que mais me agradaria dar é outra: quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico” (Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milénio).

O Sonho e a Multiplicidade
É um privilégio aprender com os alunos. Este vídeo, Chorus, publicado no grupo de facebook do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, convoca o sonho e a multiplicidade: “A chorus of women are borne from the movements of a single dancer in this dreamlike pas de trente-deux. In the tradition of Marey and McLaren, Michael Langan and Terah Maher combine music, dance, and image multiplication to create a film that enhances our perception of motion. ‘Choros’ delivers a visually mesmerizing narrative in three movements, following a dancer’s (Maher) experience of discovery, euphoria, and rebirth through this surreal phenomenon. Featuring music from Steve Reich’s ‘Music for 18 Musicians’” (texto de presentação do vídeo).

Chorus, dirigido por Michael Langan e Terah Maher, com música de Steve Reich. 2011, 13 minutos.