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Uma formiga com uma dúzia de ovos numa ponte silenciosa

No dia 15 de dezembro, entre as 21 e as 23 horas, o Tendências do Imaginário “bateu um recorde”: o artigo Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia obteve 1 033 visualizações (correspondentes a mais de 500 visitantes) provenientes dos Estados Unidos, mormente nas cidades de Portland (931 visualizações) e Ashburn (45). Precise-se que, de um modo geral, dois terços (67,4%) das visualizações do blogue têm origem fora de Portugal. Algo como vibrações cosmopolitas pelas tímidas antenas de uma formiguinha eremita perdida na imensa selva digital.

Para assinalar o momento, um anúncio com “doze ovos”, realizado pelo criativo Michel Gondry para o iPhone 13 Pro, da Apple, e um vídeo musical com “o som do silêncio” e uma “ponte sobre água turbulenta” dos inesquecíveis Simon & Garfunkel (ao vivo, naturalmente).

iPhone 17 Pro – Apple. Título: A Dozen Eggs | Shot on iPhone 13 Pro by Michel Gondry | Apple. Partizan Studio. Novembro 2021

Transições e variações

“Mas, para além da figura do puzzle, o movimento de “decomposição de uma ordem e composição de uma desordem” comporta, ainda, a ideia de descentramento, se não de uma fragmentação policêntrica. Esta cosmogonia, este modo de estar e de sentir o mundo, remonta aos tempos de Giuseppe Arcimboldo abalados pela revolução Kepleriana que tanto influenciou a mundividência barroca. Com Johannes Kepler (1571-1630), o centro, que Copérnico deslocara da Terra para o Sol, perde-se no infinito: “Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, 1609, citado por Severo Sarduy, Barroco, Paris, Ed. de Minuit, 1975: 89). Um sentimento partilhado por Blaise Pascal (1623-1662) que confessava: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me” (Pensamentos, 1ª ed. 1670).

Este descentramento marca também a nossa experiência. Deambulamos sem ponto fixo. Filhos da compressão do tempo e do espaço, comprazemo-nos com o simulacro, o zapping e o flash. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, atirados de um lado para o outro”, o que é um jeito de navegar numa “esfera cujo centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma (Blaise Pascal, Pensamentos, 1ª ed. 1670). Nada, porém, que uma boa publicidade não possa contemplar. Por exemplo, o anúncio Worlds da Ford (Ford S-Max, Velocity Films, República da África do Sul, 2006). Um homem pega numa maçaneta, atravessa uma parede e entra num cenário de deserto; novo golpe de maçaneta, e passa para uma paisagem de neve; de porta em porta, segue-se um observatório, o oceano e, por último, um automóvel, que, num ápice, o transporta para uma estrada de montanha. O mundo da vida surge, assim, associado a um zapping numa espécie de origami japonês, dobrado e desdobrado à velocidade de um flash.” (Albertino Gonçalves, “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, Vertigens: Para uma Sociologia da Perversidade, Grácio Editora, 2009, pp. 47-63).

Recordo este excerto a propósito do anúncio All it takes is a Yes, da Lufthansa, lançado este mês. Qualquer semelhança com os anúncios Worlds, da Ford, The Dream, da Motorola ou Sony makes believe it’s everywhere, da Sony, é mera coincidência. Apenas, homólogos, partilham o mesmo modelo ou conceito: transição mágica disruptiva entre mundos ou momentos distintos.

Estive para intitular este artigo “Mais do mesmo”. Não seria justo! Constituem versões que valem por si, variações que acrescentam valor. Como escreve João Capela: “Haverá sempre um antes, e um antes do antes. Melhor é sempre o que vem depois, enaltecendo ou divergindo, acrescenta sempre”. E, como costume, os gostos dividir-se-ão, para enriquecimento geral.

Seguem os quatro anúncios, do mais recente para o mais antigo. Para acompanhar, o Adagio das Variações Goldberg, de J. S. Bach, interpretadas por Keith Jarrett.

Marca: Lufthansa. Título: All It Takes Is a Yes. Agência: Serviceplan Germany. Direção: Niclas Larsson. Alemanha, fevereiro 2025
Marca: Sony. Título: Sony makes believe it’s everyshere. Agência: 180 Amsterdam/LA. Direção: Noam Murro, 2009
Marca: Motorola Razr2. Título: The Dream. Agência: Cutwater San Francisco. Direção: Michel Gondry, USA, 2007
Marca: Ford S-Max. Título: Worlds. Produção: Velocity Filmes. República da África do Sul, 2006
J.S. Bach: Goldberg Variations, BWV 988: Var. 25. a 2 Clav. Adagio. 1741. By Keith Jarrett, 1989

Transfiguração

O anúncio Flip, da B&Q, é exotérico e surpreendente. Baralha o olhar. Uma mulher inteira-se que está grávida e o mundo transfigura-se. Porque de transfiguração se trata! A religião cristã sempre se debateu com um desafio: apostada na catequese e na mediação com o divino através da imagem, como lograr dar visibilidade ao invisível? A publicidade confronta-se com outro problema: como expressar um pico hiperbólico de emoção?

Marca: B&Q. Título: Flip. Agência: Uncommon, London. Direção: Oscar Hudson. Reino Unido, maio 2022

No que respeita à transfiguração, a resposta mais corrente parece ser, desde os evangelhos até aos anime, a suspensão da gravidade (ver A civilização da leveza), que neste anúncio se desdobra, em termos de relação com o espaço, em decomposição, à Tarkovsky, desorientação, à Escher, e transição, à Michel Gondry.

Andrei Tarkovsky. O Espelho. Excerto. 1975.
M.C. Escher. Relatividade. 1953.
Marca: Motorola. Título: Experience. Agência: Cutwater. Direção: Michel Gondry. USA, 2007.

Ver as nuvens passar

Air France. The passageO facebook desencantou um artigo, colocado há oito anos, com o anúncio The Passage, realizado por Michel Gondry para a Air France. Acrescento um segundo anúncio, publicado dois anos depois, em 2002, para a mesma marca, com mesmo realizador. Duvido da bondade de relembrar anúncios geniais e de extremo bom gosto. É que o bom gosto também se perde. Não estou, naturalmente, a falar nem da Air France, nem do Michel Gondry.

Uma confidência: caiu-me em sorte uma prenda de Natal antecipada. Traz-me ocupado e tolda-me a lucidez.

Marca: Air France. Título: The passage. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção: Michel Gondry. França, 2000.

Marca: Air France. Título: The Clowd. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção Michel Gondry. França, 2002.

Imagens da música

Pandora. Sounds like you. 2017.Com uma dúzia de capas de discos faz-se um anúncio e escolhe-se música: The Rolling Stones, The Doors, The Cure, Nirvana… O anúncio Sounds like you foi dirigido por Michel Gondry para a Pandora. Acrescento o vídeo The Man Who Sold The World, na versão dos Nirvana. Quantas capas ficaram de fora neste anúncio? Por exemplo, a capa de The Man Who Sold The World (1970) de David Bowie.

Marca: Pandora. Título: Sounds like you. Direcção: Michel Gondry. USA, Maio 2017.

Nirvana. The Man Who Sold The World. MTV Unplugged. 1994.

Alucinação

smirnoffMichel Gondry é um cineasta francês que ganhou um Óscar com o filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2005). A par de Chris Cunningham e Spike Jonze, Michel Gondry é um dos mais destacados realizadores de vídeos musicais. Dirigiu vários anúncios publicitários. É conhecido pelo efeito Gondry, uma variante complexa da técnica de frozen. Os seus vídeos propõem uma relação com o espaço e um encadeamento de sequências alucinantes. Seguem duas relíquias: o anúncio Flashbacks (1997), para Smirnoff, e o vídeo musical Like a Rolling Stone (1995), dos Rolling Stones, um dos primeiros vídeos em que Michel Gondry recorre ao efeito Gondry.

Marca: Smirnoff. Título: Flashbacks. Agência: Lowe-Horward-Spink. Direcção: Michel Gondry. UK, 1997.

Rolling Stones. Like a Rolling Stone. Michel Gondry. 1995.

Músculos Musicais

Gillette. Training TracksMichel Gondry é um dos grandes realizadores da atualidade. Ganhou um óscar em 2005, com o filme Eternal Sunshine of the Spotless. Dirigiu dezenas de vídeos musicais: para Bjork, The Rolling Stones, Beck, The Chemical Brothers, The White Stripes… É uma figura incontornável da publicidade (ver  http://tendimag.com/2011/09/15/um-voo-sem-asas/).

A Gillette apostou forte neste anúncio: Training Tracks. Contratou Michel Gondry e não regateou meios. Reuniu estrelas do futebol americano e recorreu a Phil Mossman, dos LCD Soundsystem.

Marca: Gillett. Título: Training Tracks. Agência: BBDO New York. Direção: Michel Gondry. USA, Setembro 2013.

O esquema utilizado no anúncio é antigo. No século XVI, Giuseppe Arcimboldo já contrabandeava realidades: com frutos, flores, legumes e objectos díspares, configurava retratos de imperadores, princesas, bibliotecários, cozinheiros, advogados… (http://tendimag.com/2012/01/22/comer-com-os-olhos-os-alimentos-em-arcimboldo/; e http://tendimag.com/2011/09/15/jogos-de-legos-com-humanos/). Neste anúncio, os fragmentos de realidade não são imagens mas sons. Provenientes do treino dos desportistas no ginásio adquirem ritmo e musicalidade. É possível que a ideia de recomposição de sons não seja completamente original. Mas, como diria Pascal, “ninguém me acuse de não ter dito coisas originais. A dispo­sição das matérias é nova, e isso é que importa”. Pois, com o toque de Michel Gondry, que foi baterista de uma banda, e de Phil Mossman, guitarrista e percussionista, a “disposição das matérias” resulta excelente.