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Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Pinturicchio – Madonna with Writing Child. Ca. 1494-1498. Philadelphia Museum of Art. Detail

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.

A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.

O Pintassilgo de Vivaldi

Faz dois meses (24 de março) publiquei um artigo dedicado à lenda do pintassilgo, que incluía oito pinturas com o Menino Jesus e um pintassilgo, acompanhadas pela música “Grantchester Meadows” (1969), dos Pink Floyd. Hoje, não resisto a acrescentar quatro, acompanhadas agora pelo concerto para flauta Il Cardellino (O Pintassilgo), de Antonio Vivaldi, interpretado pela multifacetada Anna Fuzek, de origem checa.

Imagem: Anna Fuzek

Pelos vistos, não vai ser fácil espaçar os artigos. Não convence a perspetiva de congelar as ideias em bicos de pés numa fila de espera. Mesmo ao ritmo atual, muitas acabam abortadas pelo caminho… Armazenar restos pesa numa mente cansada. E importa semear e comunicar. Até no deserto com a própria sombra. Enquanto houver um nada a acrescentar.

Antonio Vivaldi – Il Gardellino, op. 10, no. 3, RV 428. Anna Fuzek com a Orquestra Barroca de Veneza, 2020

A lenda do pintassilgo

Raffaello Sanzio. Virgem do Pintassilgo.1505-1506. Galleria degli Uffizi. Detalhe

Segundo uma lenda medieval, um pequeno pintassilgo voou até Jesus no momento em que Ele carregava a cruz para o Calvário. O pássaro tentou arrancar os espinhos da coroa que perfuravam a Sua testa. Ao puxar um dos espinhos, uma gota do sangue de Cristo caiu-lhe sobre a cabeça, tingindo as suas penas de vermelho.

Na realidade, os pintassilgos possuem uma mancha vermelha na cabeça e não evitam os cardos, constando entre as poucas aves que conseguem alimentar-se das respetivas sementes. A tradução de pintassilgo em francês é chardonneret; e em italiano, cardelino. Ora, o francês chardon e o italiano cardo significam, precisamente, cardo.

O pintassilgo aparece com alguma frequência nas pinturas junto ao Menino Jesus, quase sempre nas suas mãos. Alude, simbolicamente, à Paixão e à Redenção, funcionando como um presságio do sacrifício de Cristo.

Inteirei-me desta lenda graças à Virgem do pintassilgo, pintura renascentista de Rafael. O motivo do pintassilgo representava um desafio. Ora, sempre que o sentido de um detalhe numa grande obra me escapa, parto do princípio que o problema é meu. A solução foi rápida e fácil. Por acréscimo, deparei com meia dúzia de pinturas similares, algumas anteriores à Virgem do Pintassilgo de Rafael, as mais antigas remontando ao século XIV (ver galeria de imagens).

Galeria de Imagens: Virgem e Menino Jesus com Passarinho

O pintassilgo do Menino Jesus acabou por me lembrar uma canção, antiga e pouco conhecida, dos Pink Floyd: “Grantchester Meadows”.

Pink Floyd – Pink Floyd – Grantchester Meadows. Ummagumma, 1969

Repouso

Virgem com o Menino. Fresco. Catacumba de Priscila. Roma. Fim do séc. II ou início do séc. III. Consta ser a imagem mais antiga com a Virgem.

Se não encontrar uma oração que lhe convenha, invente-a (Santo Agostinho, 354-430).

Demoremos-nos, suspensos no colo divino, com o olhar perdido nas mãos desertas. A música proporciona-se como uma forma de comunhão. Algumas composições de Yann Tiersen prestam-se especialmente para esse efeito. Seguem Tempelhof, Erc’h e Pell, do álbum All (2019).

Yann Tiersen – Templehof. All, 2019. Recorded at The Eskal.
Yann Tiersen – Erc’h. All, 2019
Yann Tiersen – Pell. All, 2019

Boa Disposição Divina (continuação)

Ontem, mudança na medicação: mais contra a tensão, menos calmante. Hoje, sinto-me quebrado. Nem sequer tive disposição para assistir à Liberdade à Deriva (Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura). Afundei-me numa sesta arrastada.

Com alguma ajuda, por modesta que seja, os caminhos tornam-se mais acessíveis e amplos. Reagindo ao artigo “Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes”, uma amiga enviou-me uma imagem com a estatueta da Virgem com o Menino, dita da Sainte-Chapelle, datada do século XIII e localizada no Museu do Louvre (Figuras 16 e 17).

Resultam deveras gratificantes estes retornos.

Uma imagem desconhecida é fonte, ponte ou porta para outras, avulsas ou em cadeia, num efeito multiplicador. A partilha amiga ofereceu-se, portanto, como um estímulo, ou desafio, para retomar a busca.

Figura 13. Vierge à l’Enfant. Ca. 1240 a 1260. Ivoire. Musée de Cluny

Adoro esgaravatar, como as galinhas. É um vício. Não me recordo, por exemplo, de colocar os pés na praia de Moledo e resulta raro sentar-me nas esplanadas. Em contrapartida, não perco a mínima oportunidade para ir até à zona dos rochedos.

As pessoas que me acompanham costumam entreter-se a apanhar “beijinhos”, umas conchas minúsculas. O meu alvo é ainda mais raro e exigente: picos e bifaces pré-históricos, que remontam ao Paleolítico. De insucesso em insucesso, a coleção cresce. Há quem goste de oferecer flores do jardim, o meu cúmulo é surpreender com picos apanhados na areia ou resgatados de poças de água salgada, com sérios riscos de, apesar da bengala, escorregar e dar uma queda.

Picos descobertos em Moledo

Esgaravatar é um vício facilitado pela Internet. Em dois dias, o número de imagens guardadas na pasta “Virgem e Menino Sorridentes” disparou de meia dúzia para mais de uma quinzena (Figuras 13 a 27), excluindo aquelas em que a Virgem esboça um sorriso à Gioconda. Quase todas provêm do século XIII e da primeira metade do século XIV. A maioria é em marfim e provém da região parisiense, berço do estilo gótico.

Segue a colheita mais recente, mas, espero, não a definitiva. Repare-se que na figura 27 até os leões riem!

Galeria de imagens com a Virgem e o Menino Sorridentes (continuação)

Perfeitamente divino e perfeitamente humano

Divino, perfeitamente divino, e humano, perfeitamente humano, a natureza de Cristo em três pinturas de Antonello da Messina (1430-1479): a anunciação (a Virgem Maria lendo); a infância (no colo da Virgem Maria); e o calvário (Ecce Homo: Jesus chorando). O arco da salvação, desde a anunciação do menino Jesus, Deus feito homem, ao Cristo crucificado, o homem que vence a morte. Mas chora!

Antonello da Messina. Ecce Homo. Pormenor. 1470–1475.