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Canção puxa canção

Violeta Parra
Palavra puxa palavra: canções de amor, ódio e melancolia. Tendências do Imaginário, 06.09.2011

Aniversário: Peso nos ombros

Joy Division – Closer, 1980

Vi-me grego para recuperar o vídeo com a canção Decades, dos Joy Division, realizado por Anemic Silence. O texto que o introduz é curto, mas promissor. Comecei a procurá-lo à meia-noite, com a ajuda da IA. Recorremos a todos os meios e vias. Às 2 horas, nada! Teimoso como um galego, prossegui a busca do vídeo por minha conta. Após uma hora de escavação nos restos arqueológicos do Tendências do Imaginário e do WordPress, acabei por conseguir. Cansado, mas satisfeito, deitei-me com receio de pesadelos digitais.

Este artigo é uma primeira prenda de aniversário do blogue: um vídeo musical que dificilmente se encontrará noutra página da Internet. Um exclusivo, portanto. Logo seguir-se-á outra prenda, por sinal, mais surpreendente e pessoal.

Peso nos ombros. Tendências do Imaginário, 30.08.2013

Breves apontamentos musicais

Abel Korzeniowski, compositor polaco
Pergunta. Tendências do Imaginário, 25.08.2012
Rosas e urtigas. Tendências do Imaginário, 25.08.2016

Descorar

Edvard Munch – Melancolia. Presumivelmente 1892. Museu Nacional de Arte. Oslo

La Mélancolie

C’est un’ rue barrée
C’est c’qu’on peut pas dire
C’est dix ans d’purée
Dans un souvenir
C’est ce qu’on voudrait
Sans devoir choisir
La mélancolie

C’est un chat perdu
Qu’on croit retrouvé
C’est un chien de plus
Dans le mond’ qu’on sait
C’est un nom de rue
Où l’on va jamais
La mélancolie
(Léo Ferré)

A Melancolia

É uma rua bloqueada
É aquilo que não pode ser dito
São dez anos de massagem
Envoltos numa recordação
É aquilo que desejaríamos
Sem ter de escolher
A melancolia

É um gato perdido
Que se acredita ter reencontrado
É mais um cachorro
No mundo que se sabe
É um nome de rua
Onde nunca se vai
A Melancolia
(Tradução livre)

Sonhar sem cismar

Albrecht Dürer – Melancolia, 1514

“Com escassa mobilidade”, em junho de 2022, navegava na Internet e escrevia, escrevia, escrevia…. sentia e imaginava, também! De preferência, sem dar azo à melancolia.

Concha crepuscular

Imagino os anos noventa como uma concha com bastantes pérolas raras, mas de pouco aconchego para a geração vindoura. Mergulhou-a em águas paradoxais e paroxísticas, com a herança por desventura mais complicada desde a Segunda Guerra.

Os Mazzy Star eclodiram nos anos noventa. As suas canções ainda reverberam, sem, contudo, viralizar. Um rio subterrâneo em território sombrio e confuso. Em suma, desconchavado. Em vez de nos ufanar com as riquezas e conquistas que conseguimos, creio revelar-se mais oportuno assumir os desafios e as misérias que criámos e não enfrentámos. Um legado de tanta potência e vulnerabilidade numa vertigem de ansiedade e melancolia.

Os Mazzy Star são uma banda norte-americana de rock alternativo, fundada em 1989, composta, principalmente, pelo guitarrista David Roback e pela vocalista Hope Sandoval. Particularmente ativa até 1997, lançou três álbuns durante esse período: She Hangs Brightly (1990); So Tonight That I Might See (1993); e Among My Swan (1996). O quarto álbum, Seasons Of Your Day, foi editado em 2013, um ano antes de a banda se dissolver. “Fade Into You” (1993), “Into Dust” (1993), “Blue Light” (1993), “Flowers in December” (1996) e “Look On Down The Bridge” (1996) constam entre as canções mais caraterísticas e de maior sucesso.

Mazzy Star – Fade Into You. So Tonight That I Might See, 1993. Live at the Shoreline Amphitheatre in 1994
Mazzy Star – Into Dust. So Tonight That I Might See, 1993. Black Session, Studio 105 Paris. October 26th 1993
Mazzy Star – Blue Light. So Tonight That I Might See, 1993
Mazzy Star – Flowers In December. Among My Swan, 1996. Dutch music show “2 Meter Sessies”. Filmed on November 6, 1996
Mazzy Star – Look On Down From The Bridge. Among My Swan, 1996

O Passarinho Azul

Um conto de carnaval sem palavras.

Morning Joy. Realizador: John Henry Hinkel. USA. 2023

Bom Dia, Tristeza

“Somos poucos a pensar demasiado, demasiados a pensar pouco” (Françoise Sagan, Le Cheval évanoui, Paris : René Julliard, c1966)

Quando desejo música a preceito, costumo pesquisar neste blogue. Do compositor polaco Zbigniew Preisner, encontrei uma dúzia de obras repartidas por 4 artigos: Tristeza pasmada, Purgatório eterno, Zbigniew Preisner e Amor e lamentação. O mais antigo, Tristeza pasmada, encontrava-se desformatado e amputado. Retomo-o como lembrete da existência de fases em que a desolação, embora acompanhada por lindas palavras e boa música, se arrasta até secar a esperança.

Não me apetece dormir como o gato, nem pensar como a Françoise Sagan

Tristeza pasmada

Edvard Munch. Melancholy. 1894.

Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.

Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.

Zbigniew Preisner – Decision (Instrumental, From “A Short Film About Killing”). 1988
Zbigniew Preisner – Homecoming. When a Man Loves a Woman. 1994
Zbigniew Preisner – Damage. Fatale. 1992
Zbigniew Preisner – Holocaust. Decalogue 8. 1988-1989

Desenhar vidas / Animar Edward Hopper

Gragnano, Villa rustica in Località Carmiano, Villa A. Room 9, in proprietà de Luca, Pompeii, 1st century BC

A memória não descansa. Tudo me lembra alguma coisa.

Uma amiga de Melgaço partilhou este belo vídeo, com música de fundo de Vangelis: La Petite Fille de la Mer. O Tendências do Imaginário já contempla o vídeo oficial desta música (https://tendimag.com/2022/06/30/top-of-the-pops-com-rugas-5-michel-colombier-vangelis-e-francis-lai/). Neste caso, “Maria” (2015) limitou-se a retomar a curta-metragem LILA (2014) de Carlos Lascano mantendo o vídeo e substituindo apenas a música. Esta “remistura” não desmerece os originais. Coloco os dois vídeos: a adaptação de “Maria” e o original de Carlos Lascano.

A curta-metragem LILA lembra-me [adoro co(r)tejar realidades distintas] os quadros de Edward Hopper: seres humanos entregues a si mesmos, isolados em ambientes amplos, delineados e despojados com uma luminosidade estranha. Só por magia ou milagre as personagens parecem suscetíveis de resgate, de ganhar vida. Algo semelhante carateriza as situações iniciais no vídeo do realizador e escritor argentino Carlos Lascano, animadas pelos desenhos, por vezes em stop-motion, esboçados por uma jovem, qual anjo ou cupido travesso, (re)anima, incutindo vida e amor às pessoas e seus contextos. Como que restaura, transfigura e subverte o universo melancólico, desolado e solitário de Hopper.

Vangelis. La Petit Fille de la Mer. Apocalypse des Animaux. 1973. Gravado para a banda sonora de uma série de documentários sobre o reino animal dirigida por Frédéric Rossif e apresentada na televisão francesa em 1970. Versão do vídeo colocada por “Maria”, em 19/06/2015
LILA. Curta-metragem de Carlos Lascano, com música de Sandy Lavallart. Argentina, 2014

Galeria com quadros de Edward Hopper

Melancolias

“La mélancolie, c’est le bonheur d’être triste / A melancolia é a felicidade de estar triste (Victor Hugo, Les Travailleurs de la mer, Tome II. 1892, p. 253).

Melancólico, em solidão; trágico, em companhia; quixotesco e grotesco nos entretantos. Melancolias e introspeções à parte, recomenda-se o artigo André Soares em Viana do Castelo.

Imagem: Vincent Van Gogh. Retrato de Dr. Gachet. 1890

Jacob Gurevitsch. Melancolia (ft Buika). 2022
The Moody Blues. Melancholy Man. A Question of Balance. 1970