O Novo País das Maravilhas

Os artigos A Teia e Extensões do Homem, de 28 de setembro de 2014, desafiam-me, mas não me são estranhos. Consigo enxergá-los. Em contrapartida, a curta-metragem Al!ce não me é estranha, mas ultrapassa-me. Não logro alcançar as potencialidades de tantas artes e possibilidades. Não “alicia” ser arrastado por uma enxurrada de afluentes sem leito nem estuário antecipáveis. Tamanha maravilha confunde-me.
AL1ICE: Uma fábula cômica surreal sobre uma Alice moderna que ensaia inspirar um filme de IA para uma competição. Consoante a produção se desenrola, a linha entre a vida real, o processo de filmagem e o País das Maravilhas começa a dissolver-se. Estruturado como uma narrativa recursiva, a curta-metragem trata o País das Maravilhas não como uma adaptação, mas como um ciclo de retroalimentação cultural, onde a ficção do século XIX, a produção de imagens contemporânea e a mitologia do cinema começam a se influenciar mutuamente. Produzido pelo estúdio MIMAGIE, com roteiro de Daria Sherstobitova e direção de Miguel Ivanov, Al!CE foi originalmente desenvolvido para a competição Higgsfield. O trabalho combinou desenvolvimento de roteiro e argumento, seleção de elenco, figurino e design de locação, planeamento de storyboard, pré-visualização, geração de vídeo, edição, preparação de diálogos, música e design de som. O processo visual central começou com o texto. Rostos e figurinos gerados tornaram-se referências para composições cénicas; essas composições, por sua vez, guiaram a geração de vídeo. Ilustrações de Tenniel, em domínio público, serviram de inspiração para poses e arranjos selecionados. As imagens foram editadas e tiveram suas cores corrigidas no Photoshop antes de ser preparadas para o Seedance, enquanto as músicas foram desenvolvidas com o Suno. Todas as vozes foram criadas nos laboratórios elevel. Os locais foram construídos como ambientes gerados, com atenção à geografia, ângulos reversos e iluminação consistente. O tratamento guiou a atuação, o movimento da camara e a revisão ao longo de todo o processo.
Extensões ou intrusões do humano?

As novas ferramentas — a teleconferência, os telemóveis, a IA — são extensões que nos capacitam, mas que também nos podem possuir, por vezes sem passar pelo filtro da consciência. Não esconjuradas, mas desejadas, relevam mais da maçã do que da serpente. Estreados este mês, os três anúncios que se seguem oferecem-se como pretexto para pensar essa ambivalência.
Imagem: Marshall McLuhan – Understanding Media The extensions of Man. 1ª ed 1964
Extensões do homem
Escrevi no artigo anterior que o que capacita pode não libertar. Acrescento, agora, que as “extensões do homem” o podem atrofiar. Como diria, McLuhan, o homem cria a ferramenta e a ferramenta recria o homem: “Nós moldamos as nossas ferramentas, e posteriormente as nossas ferramentas moldam-nos a nós” (Compreender os Meios de Comunicação – As Extensões do Homem, 1ª ed. 1964). Esta interacção é uma caixa de Pandora. O homem foi concebido de tal modo que tudo o pode estupidificar. Uma técnica inovadora de comunicação pode ser agraciada com um enorme ruído comunicativo. Atente-se, por exemplo, no efeito das novas tecnologias na comunicação face a face. Foca-se bastante este assunto, mas faltava um vídeo como este.
Marca: Vs.Magazine. Título: Aspirational. Agência: Produção: Iconoclast. Direção: Matthew Frost. USA, Setembro 2014.
