Por quem tocam os sinos?
A McDonald’s publicou um anúncio ousado, demasiado ousado. Estou admirado! Uma criança caminha com a mãe e procura encontrar pontes de identificação com o pai, falecido. Só o consegue no McDonald’s. A indignação das associações não se fez esperar. Estou admiradíssimo! As associações? As novas guardiãs da opinião? Algumas de tão puritanas lembram-me confrarias. A McDonald’s devia ter juízo! A morte é um assunto tabu. A morte? Duvido. Ando com os bolsos carregados de cemitérios em jeito de publicidade anti-tabaco. Mas o luto, é outra coisa. O luto, naturalmente. Já não há respeito! “Tristeza! Passamos metade da vida à espera daqueles que amaremos e a outra metade a deixar os que amamos” (Victor Hugo, Tas de pierres, 1901). Insistimos em exorcizar os mesmos demónios. Já aborrece! Alguém ouviu falar do luto da inteligência? Pelo sim, pelo não, com a preventiva água benta, segue o anúncio Dead Dad, da McDonald’s. Para memória futura. A McDonald’s já pediu desculpa e palpita-me que o anúncio vai ser retirado de circulação. Indignação, auto da fé e cinzas.
Marca: McDonald’s. Título: Dead Dad. Agência: Leo Burnett (London). Reino Unido, Maio 2017.
Hambúrger
O anúncio da McDonald’s, Appetite needs Opportunity, proveniente da Austrália, sustenta, com vários exemplos, que a política laboral da empresa facilita o sucesso dos seus colaboradores. Mas o que me atraiu no anúncio foi a música. Uma canção brasileira num anúncio australiano: Drinkee, de Sofi Tukker (Soft Animals, 2016).
Marca: McDonald’s Australia. Título: Appetite needs opportunity. Agência: DDB Sydney. Direcção: Justin McMillan. Austrália, Fevereiro 2017.
Sofi Tukker. Drinkee. Soft Animals. 2016.
O monstro e a boneca

Por que motivo os humanos recorrem ao não humano para dizer o humano? Esta é uma pergunta repisada. Por quê convocar animais, bonecos, desenhos, marionetas, monstros, ciborgues? Na publicidade, no cinema, nos videojogos, nos vídeos musicais, na arte, na literatura… Será porque dão a ver, como diria o Principezinho, um esboço do essencial? Porque configuram uma alavanca para a imaginação? Estranha forma de olhar, estranha forma de espelho! Perante um monstro ou uma marioneta, somos compelidos, como diria McLuhan, a participar na comunicação. Passará o reconhecimento e a adesão pela ritualização fetichista da diferença? Qual seria o efeito emocional do anúncio da McDonald’s se a boneca fosse substituída por uma mulher? E se, no anúncio da Apple, Frankie fosse substituído por um modelo masculino?
Marca: McDonald’s. Título: Juliette the doll. Agência: Leo Burnett (London). Direcção: Gary Freedman. Reino Unido, Novembro 2016.
Marca: Apple. Título: Frankie’s Holiday. EUA, Novembro 2016.
Sexualidades 1

Como o mundo “pula e avança”! Um jovem “sai do armário” e assume a homossexualidade perante o pai. Trata-se de um anúncio da McDonald’s, de Taiwan. Disse “sai do armário”? Uma tradução literal do inglês… As traduções literais para o português são uma epidemia, uma incontinência linguística. Um destes dias, falamos inglês, falando português.
Marca: McDonald’s. Título: acceptance. Agência: Leo Burnett Taipei. Taiwan, Março 2016.
Sintonia
Há quem se empenhe a estudar o modo como as marcas se sintonizam com os contextos locais. A McDonald’s é uma dessas marcas ditas “multiculturais” e este anúncio é um bom exemplo desse interesse pela ancoragem local.
A agência de publicidade, Alma, é norte-americana, a filmagem foi feita no México e os países da América Latina, empolgados com o próximo mundial de futebol, constituem o alvo. A solução é judiciosa: um desafio informal de futebol é iluminado por um reclame da McDonald’s.
Marca: McDonald’s. Título: Cancha. Agência: Alma. Direção: Tarsem Singh. EUA, Março 2013.




