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Sociologia sem palavras 21. A massificação e o homem-máquina

“The mediator between head and hands must be the Heart” (Metropolis).

Metropolis. Cartaz.

Metropolis. Cartaz.

Há palavras bipolares. A esquerda romântica do século XX encarava a massificação como uma doença social desumanizadora. Nos últimos anos, o argumento migrou, sendo adoptado pelo poder. Arrebanha-se, normaliza-se e disciplina-se a pretexto de se estar a lidar com realidades massificadas: os hospitais, os tribunais, as casernas, as escolas, as universidades, os concursos… Estamos confrontados com uma massificação de segundo grau, uma massificação da massificação. Uma hipermassificação temperada pelo fantasma do homem-máquina. Max Weber alerta para a seguinte propensão:  quando ocorre um problema numa burocracia, a solução consiste em acrescentar mais burocracia, criar, por exemplo, uma nova comissão, que, por sua vez, comporta novos problemas para a burocracia. Algo como o milagre da multiplicação das comissões com peritos responsáveis inimputáveis.

Gamboa. Moledo do Minho. Albertino Gonçalves.

Gamboa. Moledo do Minho. Albertino Gonçalves.

Tenho pouco apreço pelo conceito de massificação. Em Moledo, o nevoeiro parece espuma das ondas. Vê-se e sente-se. Já, ao lado, em Caminha. o nevoeiro não se vê nem se sente. Mas subindo à Serra de Arga, vê-se nevoeiro em Moledo e, embora menos, em Caminha. Vê-se mas não se sente. Muitos fenómenos naturais e culturais são assim: dependem da escala e da perspectiva, não estando isentos de ilusões. Os rios também são dados a ilusões: o nevoeiro é sempre maior na outra margem. A massificação é um conceito que requer distância sobranceira. Fabula-se de longe e em plano picado.

O realizador Fritz Lang e o filme Metropolis (1927) dispensam apresentação. Retive dois excertos dedicados aos temas da massificação e do homem-máquina.

Fritz Lang. Metropolis. 1927

Sociologia sem palavras 9: Desporto e propaganda

Sou humano, nada do que é humano me é estranho.
(Terêncio, Heautontimorumenos, 163 d. C.)

Berlin 1936 OG, Shooting of "Olympia", documentary film by Leni RIEFENSTAHL - A cameraman on the diving board, filming a female diver.O nono episódio de Sociologia sem palavras não é cómico. Parte do mundo também não o é. Mas pode sempre ser filmada com humor. Não é o caso. Neste episódio, o assunto é sério e o filme também.  Leni Riefenstahl (1902-2003) realizou vários filmes encomendados pelo governo nazi, entre os quais O Triunfo da Vontade (1935), filme-documentário-espectáculo sobre o congresso do partido nazi de 1934 em Nuremberga, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Ambos os filmes são propaganda nazi, o que não obsta a que Leni Riefenstahl seja, hoje, considerada uma das grandes realizadoras da história do cinema, com uma obra inovadora, pautada por uma criatividade estética excecional. Os excertos apresentados pertencem ao filme Olympia: o primeiro à segunda parte (Festival da Beleza) e o segundo à primeira parte (Festival das Nações). Na série Sociologia sem palavras, este episódio inscreve-se a contracorrente. Não dá vontade de rir. “Nada do que é humano me é estranho”!

Sociologia sem palavras 9: Desporto e Propaganda. Excertos de Leni Riefenstahl, Olympia, 1938.