A velha grávida e o riso da morte

O artigo O riso da velha grávida (revisto), colocado em 29 de janeiro de 2023, não surgiu por geração espontânea. Uma primeira versão homónima remonta ao do dia 13 de março de 2016. um intervalo de reincubação de quase sete anos. E ainda não está fechado. Hoje, volvidos três anos, introduzir-lhe-ia bastantes alterações. Mas assinei-o, e continuo a identificar-me com ele.
Imagem: Terracota com Baubo sentada num porco. British Museum.
O riso da velha grávida evidencia alguns defeitos e virtudes de uma forma de pensamento e de um estilo de escrita. Não são uniformes, nem lineares: adotam o desvio e a fragmentação como roteiro e arquitetura. Atardam-se nos detalhes e nas margens para aceder ao todo e ao núcleo. Como os vitrais, convocam uma variedade de pedaços não transparentes que aspriram a configurar-se juntos proporcionando uma nova luz. Pelo meio, esquecem a arte de ir direito ao assunto, de procurar sem se perder e de argumentar sem complicar. Empenham-se em seduzir o interlocutor, mas não ao ponto de lhe facilitar a recepção, um risco de preguiça mental e anestesia criativa.
Ontem, 31 de agosto, os artigos incidiram sobre a música e a publicidade. Hoje, será questão de imagens e pensamentos.
Música refrescante
Em Melgaço, estava um calor insuportável. No regresso a Braga, ainda foi pior: vinte minutos a torrar para percorrer 1 km. Em casa, apeteceu arejar. As janelas não bastavam. Recostei-me, imaginei-me na Irlanda enquanto ouvia as bandas sonoras de três filmes dos anos oitenta, todas compostas por Mark Knopfler. Segue uma amostra.
Ao Estilo de Mark Knopfler e David Gilmour

“E se Mark Knopfler e David Gilmour protagonizassem um pequeno jam? Laszlo Buring concebeu e simulou este “diálogo improvisado” entre ambos, concretizando-o com uma interpretação soberba. Seguem dois vídeos: If Mark Knopfler & David Gilmour had a little jam… I e II, por ordem inversa.
Imagem: Laszlo Buring
Sempre me tentou tocar guitarra, acústica ou elétrica. Adquiri uma acústica. Isolado em casa, sobrava motivação e tempo para dedilhar cordas. Cometi dois erros de perspetiva. Todas as manhãs pico um dedo da mão esquerda para medir a glicémia, a parte do corpo mais sacrificada pela guitarra. Por outro lado, não fiz uma boa opção: a acústica exige mais esforço ao nível dos dedos do que a elétrica. Tocar o Samba Pa Ti tornou-se um desejo impraticável. Mais ou menos conformado, acabei por reciclar a guitarra atribuindo-lhe uma função para que se presta: meramente decorativa.
Irmãos de armas

Existem interpretações que propiciam um suplemento de alma a músicas que outrora nos tocaram. É o caso da canção Brothers In Arms, por Mark Knopfler, magistralmente filmada pelo canal alemão de televisão RBB ao vivo no Meistersaal, sala histórica de concertos de Berlim, no dia 10 de setembro de 2007. Perfeita para preceder a sesta.
A princesa noiva e a velha grávida

Estou a escrever sobre velhas grávidas impúdicas, de preferência, risonhas [pertence a um conjunto de textos que não dá para publicar no Tendências]. Para compensar a carga grotesca e a penúria de escrita, recorro à músicas, sobretudo, músicas harmoniosas como as compostas por Mark knopfler para filmes dos anos oitenta.
