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Um contra um, todos por todos

Keith Vaughan. Cain and Abel. Tate. 1946.

O videojogo afirma-se como vanguarda das indústrias do lúdico e do audiovisual. Potente, competitivo, flexível, acelerado, certeiro e ubíquo. Como o arco de Dario (sobre o arco de Dario, rei da Pérsia, recomendo o artigo: O Espetáculo do Poder).

Não é de admirar que os anúncios a videojogos constem entre os mais impactantes das últimas décadas. HUMANKIND (Amplitude Studios) frisa a perfeição apelativa, narrativa, técnica e estética. Nada é descurado: a luz, a cor, a fotografia, o desenho, os cortes, os contrastes, o enquadramento, a profundidade, os planos, os ritmos, as sequências, o som, as referências… Qualidade, critério e criatividade. HUMANKIND recupera uma opção cada vez mais frequente: a substituição da figura humana por objetos e símbolos. Ganha em projeção e sublimação. Os objetos e os símbolos tornam-se, porventura, mais humanos do que o humano.

HUMANKIND. Amplitude Studios. Official trailer. Agosto 2021.

Retenhamos a lição: agonístico e diabólico, o universo, assevera-se exíguo para dois protagonistas; o anúncio termina, porém, com uma avalanche de multidão. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto: o anúncio não enjeita ressonâncias bíblicas e míticas: o crepúsculo, egoísta e homicida, de Caim, e a alvorada, coletiva e mobilizadora, de Moisés. Onde não cabem dois, cabem milhões.

Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves

Confidências de um guarda-chuva solitário

Pendurado na cancela. Fotografia de João Gigante. Livro Pedra e Pele. 2018.

O meu dono deixou-me pendurado nesta cancela metálica. Deixou-me a falar com os meus botões. Um guarda-chuva não fala? Se assim o diz, mas, na verdade, não pode não comunicar, como os humanos de Erving Goffman. O meu dono deixou-me aqui sozinho e pendurado. Pareço um marco ou um padrão: este território tem dono e o dono anda por perto. Sinais de guarda-chuva! Quem passa olha para mim e inteira-se: o Tio Zé anda nos campos. Se não houvesse outras possibilidades, a minha capacidade de comunicar seria questionável. Mas quando há alternativas, a vontade e o sentido intrometem-se. O meu dono possui dezenas de sítios para me colocar. Por exemplo, dentro da propriedade. Mas coloca-me logo à entrada. De outro modo, os transeuntes não saberiam que o Tio Zé está no campo. Para me consolar, sonho que sou um guarda imperial na fronteira de um “reino maravilhoso” (Miguel Torga).

Disse que lembro um marco. Nestes tempos de satelização, assemelho-me também a um ponto de GPS. Na minha aldeia, passa-se a palavra. Uma pessoa pode não estar comigo e saber onde estou. O Tio Zé? O Tio Zé está no campo, deixou o guarda-chuva à entrada.

Pendurado nesta cancela, aguardo a hora da missa. Se chover, vamos em cortejo. Os guarda-chuvas e os donos (ver A Sociedade dos guarda-chuvas). Abrem-se as varetas como os anjos abrem as asas. Discursos e sinais à parte, a nossa missão não é falar, é molhar-nos pelos outros.

Os guarda-chuvas apreciam a música e a dança. Quem não se lembra de Singin’ in the rain (1952)? Entre a cancela e a igreja, apetece ouvir a canção Le Parapluie (original de Georges Brassens, 1952) na versão de Yann Tiersen & Natacha Regnier (2001), com fotografias de Robert Doisneau.

Yann Tiersen & Natacha Regnier. Le Parapluie. 2001.