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Solidão assistida

Conheço a solidão. É uma amiga nem sempre desejada. Respeito-a! Solitário, dedicava-me à leitura de um livro ou a ver televisão. Nunca dancei com um robot, mas lutei com o travesseiro. Hoje, entrego-me ao computador ou ao telemóvel. Estranha forma de companhia. Por enquanto, não há máquina que substitua o ser humano. A este falta-lhe um botão para ligar e desligar. De qualquer modo, às vezes vale a pena “estar no computador”. O anúncio B.E.N., da Société de Saint Vincent de Paul, é uma obra de arte.

Anunciante: Société de Saint Vincent de Paul. Título: B.E.N. (Bionically Engineered Nursing). Agência: CLIM & BBDO. Direcção: David Wilson. França, Novembro 2016.

O robot que ri

Sprint Evelyn

“A guerra interior da razão contra as paixões fez com que os que quiseram ter a paz se dividissem em duas seitas: uns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses; outros quiseram renunciar à razão e tornar-se brutos. Mas, não o conseguiram nem uns nem outros; e a razão, ficando sempre, acusa a baixeza e a injustiça das paixões e perturba o repouso dos que a elas se abandonam; e as paixões estão sempre vivas nos que querem renunciar a elas” (Pascal, Blaise, 1670, Pensamentos).

O homem é um ser racional? Talvez menos do que nos aprestamos a acreditar. Os grandes clássicos da sociologia duvidam. Atente-se nas “acções racionais com relação a valores”, nas “acções afectivas” e nas “acções tradicionais”, de Max Weber (1864-1920); ou nas “acções não lógicas”, de Vilfredo Pareto (1848-1923). Acrescente-se que, ao arrepio de G.W.F. Hegel (1770-1831), um fenómeno pode ter sentido sem ser racional.

O anúncio Evelyn, da Sprint, mais do que uma paródia, aproxima-se de um cúmulo da racionalidade. O próprio anúncio é racional, como a maioria dos anúncios. O objetivo é um efeito São Paulo: a conversão dos espectadores da Veryson para a Sprint. O meio é eficaz: uma paródia de uma “escolha racional”, ou seja, da emergência de uma decisão inteligente.

Os robots são os protagonistas do anúncio. Eles e nós, que nos identificamos com o cientista. A exemplo da Evelyn, são capazes de aprender. E de dar instruções. Creio que já existem máquinas capazes de aprender e de instruir. Configuram, de algum modo, um efeito de realidade.

Para além de aprender e instruir, os robots têm sentido de humor. Entramos no cerne do anúncio. Os robots riem! Riem do cientista, com o qual nos identificamos. Riem de nós, os tansos que ainda não mudaram para a Sprint. Embora não pareça, o anúncio apela ao sonho, um sonho embalado pela razão.

A identificação é um processo complexo, nada linear. Podemos identificar-nos com o cientista e, ao mesmo tempo, com os robots. Uma identificação dupla. Somos propensos à identificação com animais, cartoons, bebés e robots. Os robots riem-se de nós; e nós com eles.

Marca: Sprint. Título: Evelyn. Agência: Droga 5. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Sexualidades 2

Com a aproximação da Primavera, tudo desperta. Até a sexualidade. Sabia que andar num Audi A1 é algo como fazer amor? “Llamémoslo amor” confirma o anúncio: Audi A1, o carro do amor, parado ou em movimento. Uma bela colagem: sexo e máquina.

devendra-banhart

Devendra Banhart.

A música é do norte-americano Devendra Banhart, um compositor e intérprete sui generis. Acrescento uma segunda música bastante antiga: Inaniel, do álbum Cripple Crow (2005).

Marca: Audi A1. Título: Amor. Agência: DDB España. Direcção: David Vergés. Espanha, Fevereiro 2016.

Devendra Banhart. Inaniel. Cripple Crow. 2005.

Andróides

O Halloween já passou, mas o próximo ano vai ter andróides como nunca. Convém dar-lhes as boas vindas.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Nike Goat boy

Marca: Nike. Título: Johnny The Angry Android. G Agência: Goodby, Silverstone & Partners. Direcção: Michael Bay. USA, 1999.

O anúncio The Angry Android, da Nike, centra-se numa cabeça associada a uma máquina. O director , Michael Bay, realizou, entre outros, os seguintes filmes: Bad Boys (1995), A Rocha (1996), Armageddon (1998), Pearl Harbor (2001), The Island (2005), Transformers (2007), Pain and Gain (2013) e The Last Ship (2014).

No vídeo musical Dare, dos Gorillaz, também sobra uma cabeça com queda para a música.

Gorillaz. Dare. 2005.

Os dois vídeos lembram-me o livro de ficção científica I Will Fear no Evil, de Robert H. Heinlein (1970): o cérebro de um homem é transplantado no corpo de uma mulher. Ficção por ficção, se o cérebro masculino transplantado num corpo feminino acaba por pensar e agir como uma mulher, será que uma cabeça ligada a numa máquina também poderá pensar como uma máquina? E o Leviatã (1651), de Thomas Hobbes, sobreviveria sem corpo?

Amor mecânico

heyyou

Se sente um amor ingénuo, sincero, fiel e ternurento e não o consegue expressar, diga-o com máquinas. Funciona. Un robot y una aspiradora logran estimular más nuestras fibras sensibles do que Romeo y Julieta. Por supuesto. No palco da vida, o amor mecânico está em vias de superar o amor trágico. Em breve, Cyrano de Bergerac vai declarar-se mais ou menos deste jeito: “És uma máquina! Adoro o modo como trabalhas. Os parafusos todos no sítio e um aroma a lubrificante…”

Vêm a propósito muitos vídeos, alguns famosos como o All is full of love, da Bjork. Opto, porém, pelo vídeo Just like, da desconhecida banda Beat Dis.

Marca: Vorwerk Kobold VR200. Título: Love sucks. Agência: Saatchi & Saatchi Dusseldorf. Direção: Jamie Rafn. Alemanha, Setembro 2014.

Beat Dis (2), Just like, Keep Still, Hungria, 2007.

Máquinas desejadas

Old Spice. Soccer 2

Mais um cheirinho a  Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos,  mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (https://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.

Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.

Feronomas

Interpol2Charlie White é um realizador cujo fascínio pela iconografia porno é conhecido. Neste videoclipe Lights, para os Interpol (2010), o enredo resume-se em poucas palavras: acompanhada por duas ajudantes orientais, uma mulher, a “Pheromone Doe”, despe-se e veste-se com latex, injecta e expele um líquido seminal. Não obstante a carga erótica, Lights é um vídeo estranho e desconfortável. Lembra filmes como Histoire d’O (1975). Lembra, também, embora de uma forma invertida, o videoclipe All is full of love, de Chris Cunningham, para a Björk: erotismo eufórico de máquinas humanizadas versus erotismo disfórico (sacrificial) de humanos maquinizados, ambos percorridos por fluídos aparentemente seminais. Enfrentam-se no filme Blade Runner (1982), com humanos demasiado máquinas a perseguir máquinas demasiado humanas.

Charlie White. Interpol: Lights. Interpol.2010

Chris Cunningham. Björk. All is full of love. 1999.

A sensualidade da máquina

Nestle the androidAo ver um filme, um vídeo musical, um videojogo ou um anúncio publicitário, ocorre-me, muitas vezes, perguntar: por que é que, no ecrã, as máquinas expressam melhor as sensações do que os seres humanos? Por que é que o efeito de sensualidade, o jogo dos sentidos, é nelas mais eficiente? Que estranha química é essa do nosso olhar? Esta campanha publicitária da Nestlé é inequivocamente subordinada a esse tema: “’Nestlé Grand Chocolat’ is back on TV in 2013 under the sign of ‘Sense Revolution’, with a communication strong in sensations…” (JWT Paris).

Marca: Nestlé. Título: The Android. Agência: JWT Paris. Direção: Chris Delaponte. França, Fevereiro 2013.

Pornografia mecânica

Apresentado na 21ª edição do SIHH – Salon International de la Haute Horlogerie, dias 17 a 21 de Janeiro de 2011, em Genebra, este anúncio da Cartier suscita três apontamentos. 1) A Cartier desafia a força da gravidade, desígnio reafirmado com a citação da Relativity, de Escher, no anúncio Mechanics of Passion Episode II. 2) Contra a tendência de  a publicidade se concentrar cada vez menos nos produtos, este anúncio focaliza-se exclusivamente no relógio, encarado como uma obra-prima da arte e da técnica. 3) Esta obra-prima é filmada por fora e por dentro, em repouso e em movimento, com tal sensibilidade cinética e estética que lembra uma pornografia mecânica capaz de rivalizar com as estrelas carnais de Hollywood.

J.P. Goude: Garganta funda

É ingrato seleccionar anúncios de Jean-Paul Goude. A sua obra é extensa, única e variada. Pode-se começar com o Grace Jones, para a Citroen, e o La Femme et le Lion, para a Perrier. No primeiro, um clássico, a ousadia visionária lembra Dali e Grace Jones veste à perfeição o papel de uma biomecanóide. No segundo, dois felinos enfrentam-se até ao limite do possível; a mulher animal substitui a mulher máquina, e Jean-Paul Goude esmera-se num efeito gráfico que lembra Francis Bacon: a distorção do pescoço e da boca.

Marca: Citroen. Título: Grace Jones. Agência: RSCG. Direção: Jean-Paul Goude. França, 1985.

Perrier. La Femme et le Lion

Marca: Perrier. Título: La Femme et le Lion. Agência : Ogilvy & Mather. Direção : Jean-Paul Goude. França, 1990.