Tag Archive | M. C. Escher

Com a verdade me enganas

M. C. Escher, Reptiles, 1943.

A realidade engana. Menos porque nos ilude, e mais porque a encantamos. Tudo significa e tudo significamos.  Os anúncios argentinos Bigote e Mano, da Marcha por la Vida, são um exemplo de interpretação abusiva. Recordam uma história que Edgar Morin inclui no livro Para Sair do Século XX (1982):

Passeava na rua quando assisto a um acidente: um Mercedes desrespeita um sinal vermelho e embate contra um Dois Cavalos. Só chapa. Aproximo-me para testemunhar. O Mercedes desrespeitou o sinal vermelho? O condutor do Mercedes nega e o condutor do Dois Cavalos confirma. Foi ele quem passou no sinal vermelho. Mas não tenho nenhuma dúvida que foi o Mercedes que embateu no Dois Cavalos. Parece que não. O Dois Cavalos está amachucado na frente e o Mercedes no lado. Serei um idiota?

Desenhamos a realidade com os nossos esquemas mentais. Observar é construir a realidade. Por que motivo vi o Mercedes a desrespeitar o sinal vermelho e a bater no Dois Cavalos? Talvez porque para o meu arranjo mental é natural que o forte bata no fraco, predestinado como vítima. Se a realidade resiste, a gente converte-a. Será?

Anunciante: Marcha por la vida. Título: Bigote. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.
Anunciante: Marcha por la vida. Título: Mano. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.

Saudades

braccelli-p-42

Braccelli, Giovanni Battista (1624). Bizzarie di Varie Figure. Livorno. p. 42.

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos” (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa, Ática, 1982).

“Insiste-se no sentimento de falta a propósito da saudade. Às vezes, o motivo também é o excesso, a imensa vontade de dar e não ter quem receba” (Albertino Gonçalves).

Andrea Bocelli. Con te Partiro. 2015.

Grandville: Disfarces e Metamorfoses

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

Jean-Jacques Grandville (1803-1847) é um ilustrador e caricaturista francês da primeira metade do século XIX. Adquiriu fama com as suas metamorfoses envolvendo homens, animais, vegetais e objectos.

11. J.J. Grandeville. Jongleur des univers.

Conhecido como o “avô do surrealismo”, Grandvielle convoca o maneirismo, nomeadamente Giovanni Battista Braccelli e Lorenz Stoer (ver figuras 07 e 12). Algumas gravuras antecipam M.C. Escher (ver figuras 1, 7, 8, 9 e 19). Os Queen recorreram aos desenhos de Grandville para as capas do álbum Innuendo (1991) e respectivos singles (figuras 11 a 14.1).

11.1. Queen. Innuendo.

11.1. Queen. Innuendo.

Exceptuando as figuras 1 e 10, ambas de 1847, todas as imagens deste artigo foram extraídas directamente do livro Un Autre Monde, publicado em 1844. Grandville ilustrou vários livros, tais como as Fábulas, de La Fontaine, o Don Quixote, de Cervantes, as Viagens de Gulliver, de Swift, ou Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.

Segue a música Innuendo, dos Queen (1991) e uma galeria com imagens de Grandville e do álbum Innuendo, dos Queen.

Galeria de imagens: J.J. Grandville e Innuendo dos Queen.

A engenharia da imagem

É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem (Friedrich Nietzsche, Considerações Extemporâneas, 1873-1876)

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

The Marmalade é uma empresa, conceituada, de criação de vídeos, particularmente exímia ao nível da pós-produção. Showreel reúne excertos de vídeos produzidos pela empresa até 2016. A técnica ao serviço da estética. A técnica e a estética ao serviço do cliente e do consumidor.

“É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem”, escreve Nietzsche, a partir de Arthur Schopenhauer. Existem correntes na Sociologia que se concentram nos sujeitos colectivos em detrimento dos sujeitos individuais. Por exemplo, Lucien Goldmann e o estruturalismo genético. Não me ocorrem abordagens da arte que tenham logrado esta suspensão do artista. De qualquer modo, nada de mais social, histórico e cultural do que uma pessoa, artista ou não.

The Marmalade. Showreel. 2016.