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O avô do surrealismo

Jean I. I. Gérard (1803 – 1847) foi um ilustrador e caricaturista francês que publicou sob o pseudônimo de Grandville (…) Historiadores e críticos da arte chamaram-no de “a primeira estrela da grande era da caricatura francesa” e descreveram suas ilustrações como apresentando “elementos do simbólico, onírico e incongruente”, mantendo um senso de comentário social e “a transfiguração mais estranha e perniciosa da forma humana já produzida pela imaginação romântica” (Wikipedia, 11.08.2026)

Grandville: Disfarces e Metamorfoses. Tendências do Imaginário, 11.08.2016

Miscelânea visual

Vasily Kandinsky – Sem título. Primeira aquarela abstrata de Kandinsky (Estudo para Composição VII, abstração Première), 1913. Musée National d’Art Moderne. Paris

As agências de produção audiovisual costumam publicar miscelâneas (“medleys”) de vídeos como forma de autopromoção. Algumas raiam a arte. Creio ser o caso de “Showreel”, da agência de pós-produção alemã The Marmalade, anúncio contemplado no artigo A engenharia da imagem, de 10 de julho de 2016. Um regalo duplo: para a vista e para o ouvido.

Vai uma aula? Versão alargada do vídeo Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo

À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
E valentes remadores! …
À barca, à barca segura,
Barca bem guarnecida,
À barca, à barca da vida!
(Gil Vicente)

Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo é o meu vídeo mais extenso e, porventura, predileto. Também é aquele a que mais me entreguei. Cristaliza anos de estudo e investigação. Não está perfeito, mas dou por encerrado o capítulo. Cada novo retoque implica horas de renderização. Esta versão aumentada inclui, no início, a curta-metragem Destino, idealizada por Salvador Dalí e Walt Disney, e, no fim, a apresentação Maniera: A Arte do Artista, entretanto produzida. Trata-se da minha rosa mais recente. Com pétalas, folhas e espinhos. Não é uma mercadoria mas possui o seu valor, e está ao alcance de todos e de ninguém em particular.

Incorporei este vídeo com a qualidade que o WordPress permitiu. Parece-me mais conseguida a visualização disponível no seguinte link da Clipchamp: https://clipchamp.com/watch/DmbfFtHuPz8. A versão reduzida, apenas com a conversa e respetivas apresentações, está acessível em HD no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=1LM9SLzHzIA&t=18s.

Antepassados do surrealismo: o maneirismo (versão alargada). Albertino Gonçalves. Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, Braga. 27 de maio de 2023

Com a verdade me enganas

M. C. Escher, Reptiles, 1943.

A realidade engana. Menos porque nos ilude, e mais porque a encantamos. Tudo significa e tudo significamos.  Os anúncios argentinos Bigote e Mano, da Marcha por la Vida, são um exemplo de interpretação abusiva. Recordam uma história que Edgar Morin inclui no livro Para Sair do Século XX (1982):

Passeava na rua quando assisto a um acidente: um Mercedes desrespeita um sinal vermelho e embate contra um Dois Cavalos. Só chapa. Aproximo-me para testemunhar. O Mercedes desrespeitou o sinal vermelho? O condutor do Mercedes nega e o condutor do Dois Cavalos confirma. Foi ele quem passou no sinal vermelho. Mas não tenho nenhuma dúvida que foi o Mercedes que embateu no Dois Cavalos. Parece que não. O Dois Cavalos está amachucado na frente e o Mercedes no lado. Serei um idiota?

Desenhamos a realidade com os nossos esquemas mentais. Observar é construir a realidade. Por que motivo vi o Mercedes a desrespeitar o sinal vermelho e a bater no Dois Cavalos? Talvez porque para o meu arranjo mental é natural que o forte bata no fraco, predestinado como vítima. Se a realidade resiste, a gente converte-a. Será?

Anunciante: Marcha por la vida. Título: Bigote. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.
Anunciante: Marcha por la vida. Título: Mano. Agência: Geometry. Direcção: Javier Altholz. Argentina, Abril 2020.

Saudades

braccelli-p-42

Braccelli, Giovanni Battista (1624). Bizzarie di Varie Figure. Livorno. p. 42.

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida…, isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos” (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa, Ática, 1982).

“Insiste-se no sentimento de falta a propósito da saudade. Às vezes, o motivo também é o excesso, a imensa vontade de dar e não ter quem receba” (Albertino Gonçalves).

Andrea Bocelli. Con te Partiro. 2015.

Grandville: Disfarces e Metamorfoses

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

01. J. J. Grandville, Une promenade dans le ciel. Le Magasin pittoresque. 1847.

Jean-Jacques Grandville (1803-1847) é um ilustrador e caricaturista francês da primeira metade do século XIX. Adquiriu fama com as suas metamorfoses envolvendo homens, animais, vegetais e objectos.

11. J.J. Grandeville. Jongleur des univers.

Conhecido como o “avô do surrealismo”, Grandvielle convoca o maneirismo, nomeadamente Giovanni Battista Braccelli e Lorenz Stoer (ver figuras 07 e 12). Algumas gravuras antecipam M.C. Escher (ver figuras 1, 7, 8, 9 e 19). Os Queen recorreram aos desenhos de Grandville para as capas do álbum Innuendo (1991) e respectivos singles (figuras 11 a 14.1).

11.1. Queen. Innuendo.

11.1. Queen. Innuendo.

Exceptuando as figuras 1 e 10, ambas de 1847, todas as imagens deste artigo foram extraídas directamente do livro Un Autre Monde, publicado em 1844. Grandville ilustrou vários livros, tais como as Fábulas, de La Fontaine, o Don Quixote, de Cervantes, as Viagens de Gulliver, de Swift, ou Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.

Segue a música Innuendo, dos Queen (1991) e uma galeria com imagens de Grandville e do álbum Innuendo, dos Queen.

Galeria de imagens: J.J. Grandville e Innuendo dos Queen.

A engenharia da imagem

É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem (Friedrich Nietzsche, Considerações Extemporâneas, 1873-1876)

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

Hand with Reflecting Sphere by M. C. Escher. Lithograph, 1935.

The Marmalade é uma empresa, conceituada, de criação de vídeos, particularmente exímia ao nível da pós-produção. Showreel reúne excertos de vídeos produzidos pela empresa até 2016. A técnica ao serviço da estética. A técnica e a estética ao serviço do cliente e do consumidor.

“É preciso adivinhar o pintor, para entender a imagem”, escreve Nietzsche, a partir de Arthur Schopenhauer. Existem correntes na Sociologia que se concentram nos sujeitos colectivos em detrimento dos sujeitos individuais. Por exemplo, Lucien Goldmann e o estruturalismo genético. Não me ocorrem abordagens da arte que tenham logrado esta suspensão do artista. De qualquer modo, nada de mais social, histórico e cultural do que uma pessoa, artista ou não.

The Marmalade. Showreel. 2016.