Martelada
Escrevi, em 1980, um trabalho extenso sobre Thomas Muntzer. Emprestei-o a uma psicóloga grega e nunca mais o vi. Ainda estávamos no tempo da galáxia da máquina de escrever. Thomas Muntzer (1489-1525) foi um teólogo “revolucionário”, dissidente de Martinho Lutero. Muntzer foi uma figura proeminente na Guerra dos Camponeses que incendiou a Europa Central entre 1924 e 1926. Capturado em Mühlhausen, em 1925, foi decapitado com 35 anos de idade.Thomas Muntzer misturava o misticismo com uma espécie de comunismo, granjeando a simpatia póstuma dos marxistas. Friedrich Engels dedicou-lhe um livro (A Guerra dos Camponeses na Alemanha, 1850) e Ernst Bloch outro (Thomas Munzer, Théologien de la Revolution, 1921). Inspirou um filme realizado por Martin Hellberg, na Alemanha de Leste, em 1956.
Thomas Muntzer opunha-se à nobreza e à Igreja, Lutero incluído. A sua linguagem era, no mínimo, expressiva:
“A maior infâmia neste mundo consiste em que ninguém quer tomar para si a miséria dos necessitados, os grandes deste mundo fazem o que lhes apetece. Eis, pois, o cúmulo da usura, do roubo e da pilhagem, eis os nossos senhores e os nossos príncipes: apossam-se de toda criatura, sejam peixes n’água, aves no céu ou plantas na terra; tudo deve ser deles. Em seguida, apregoam o mandamento de Deus entre os pobres, e dizem: Deus ordenou que não roubeis! Contudo, quanto a eles, não se sentem obrigados a obedecer a este preceito” (Thomas Muntzer).
“Agora, vê-se bem como fornicam juntas, apinhadas, as enguias e as serpentes. Os Padres e todos os maus homens da Igreja são as serpentes (…) os senhores e potentados deste mundo são as enguias” (Thomas Muntzer).
A razão de ser deste artigo não radica neste esboço histórico. O meu trabalho intitulava-se Thomas Muntzer: a sutana e o martelo. Thomas Muntzer assinava os textos que afixava na porta das igrejas do seguinte modo: “Thomas Muntzer à martelada” (au marteau). Sempre pensei que esta “martelada” era mais simbólica do que real. O que condiz com o carácter de Thomas Muntzer. Mas não, a martelada era mais real do que simbólica. Nos meus atalhos pelas imagens, encontrei várias gravuras com textos pregados com um martelo na porta das igrejas. Incorri em erro durante 35 anos! Mas não! As referidas imagens retratam Lutero a afixar, em 1517, as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. As imagens não são da época. Estamos perante uma lenda: Lutero a martelar alto e bom som as suas 95 teses. A martelada volta a ser mais simbólica do que real.
- 01. Lutero em Wittenberg. 1517.
- 02. Lutero em Wittenberg. 1517.
- 03. Lutero em Wittenberg. 1517.
- 04. Lutero em Wittenberg. 1517.
- 05. Lutero em Wittenberg. 1517.
- 06. Lutero em Wittenberg. 1517.
A Profilaxia da Luxúria (Para maiores de 18 anos)
Hans Sebald Beham (1500-1550) é um gravurista alemão. Com o irmão, Barthel Beham, e o primo, Georg Pencz, foi considerado herege, “pintor sem Deus”, e expulso, em 1525, da cidade de Nuremberga pelos luteranos. O motivo residia na sua simpatia por Thomas Müntzer, o discípulo mais indigesto de Martinho Lutero. Hans Sebald Beham volta a ser expulso da cidade, em 1528, acusado de plágio de um desenho inédito de Albrecht Dürer.
As gravuras de Hans Beham são ousadas em matéria de sexualidade. Mas a prática não era rara. Por exemplo, as ilustrações do Romance da Rosa ultrapassavam-nas em fantasia e evidência. Configuram um apelo a Sodoma e a Gomorra? Hans Sebald Beham era religioso, cristão temente de Deus. Gravou dezenas de imagens de santos. Não existiam ateus no tempo de François Rabelais (Lucien Febvre). Ainda menos entre os seguidores de Thomas Müntzer, “teólogo da revolução” (Ernst Bloch).
Estas imagens querem-se profilácticas. Não seduzem, esconjuram! Mostram o mal, para o evitar. Quanto mais chocantes, mais eficazes. Caso contrário, como explicar a profusão de diabos nas iluminuras medievais? A profilaxia pela imagem precedeu a catequese pela imagem. “Para maior glória de Deus”. Os desígnios do Senhor são insondáveis…
Nas gravuras de Hans Sebald Beham, o corpo nu não vale pelo nu mas pela carne pecadora, irredutível ao nu estético e depurado da antiguidade clássica e do renascimento italiano.













