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O Papel e o Digital

Pedro H. da Sila e Lúcia Caruso

« Quando se trata não apenas de saber o que seja o método positivo, mas de ter dele um conhecimento bastante nítido e profundo para usá-lo efectivamente, é mister considerá-lo em acção (…) O método não é susceptível de ser estudado separadamente das investigações em que se emprega; ou, ao menos, este é apenas um estudo morto, incapaz de fecundar o espírito que a ele se entrega. Tudo o que se pode dizer de real, quando o tomamos abstractamente, se reduz a generalidades de tal modo vagas que não poderiam ter qualquer influência sobre o regime intelectual (…) É por ter desconhecido esse fato essencial que nossos psicólogos foram conduzidos a tomar por ciência seus próprios sonhos, acreditando compreender o método positivo por ter lido os preceitos de Bacon ou o discurso de Descartes » (Auguste Comte, Curso de Filosofia Positiva, 1830).

Perguntam-me o motivo por que, em casos como o do texto da folia, opto pelo blogue em detrimento da publicação em revista de papel. Lograria outro estatuto. E contaria para a avaliação, incluindo as instituições de que sou membro. É verdade que não se augura que os órgãos de avaliação se apressem a contemplar os artigos de blogue no cardápio dos valores. O dispositivo da avaliação assenta numa mistura sui generis de burocracia e aristocracia com pouca disponibilidade para a diversidade e para a novidade. Tudo indica que, em termos da avaliação, um artigo publicado num blogue é menos que lixo.

Como se justifica um investimento que, do ponto de vista institucional, não acrescenta valor?

1)      A maior parte dos artigos de blogue nunca teriam visto a luz do dia como artigos de revista. Os artigos de revista requerem tempo e agendamento, condições cada vez mais raras. Um artigo de blogue pode escrever-se no momento e em pouco tempo, sem prejuízo do conteúdo.

2)      Para publicar um artigo de revista, não basta o substrato, convém acrescentar ingredientes teóricos e molho metodológico. Mesmo que o substrato pouco ou nada beneficie com o acrescento. O mundo científico é cioso dos seus rituais. Num artigo de blogue, a teoria e o método ganham em ser « considerados em acção », como sustenta Auguste, mais acto do que aparato.

3)      Redigir um artigo é apostar na comunicação. Há artigos do blogue que atingiram milhares de visualizações. Duvido que um artigo meu numa revista tenha recolhido tantas leituras.

4)      O blogue tem mais recursos de expressão do que uma revista em papel. Uma coisa é referir a folia de Manuel Machado ou um anúncio da Durex, outra é ver e ouvir ambas.

5)      As possibilidades de participação são incomparáveis. A interacção no blogue é mais imediata, mais variada e mais fácil. A longevidade suscita, contudo, mais reservas : um artigo de um blogue corre o risco de ser mais efémero.

Apesar deste balanço, vou aproveitar estas férias para escrever um artigo de fundo (a publicar em revista electrónica). A não ser mais, para o gosto de ser avaliado, sem ser lido.

A responsável por estas letras gongóricas é a Ana Barros, uma amiga, que, na sequência do artigo Folia Portuguesa (https://tendimag.com/?s=folia+portugues), me enviou estes vídeos com jovens músicos portugueses que compõem folias interpretadas com guitarra portuguesa. Escrevi artigos em revistas que, uma vez editados, pouco retorno tiveram, ou seja, pouco aprendi graças eles. Publico um artigo no blogue e, volvidos alguns minutos, começam a chegar contributos. Um artigo, mais do que uma prova, é um acto de conhecimento.

Pedro H. da Silva & Lucia Caruso. La Folia. Piano e Guitarra Portuguesa.

Pedro H. da Silva & Lucia Caruso. La Folia. Cravo e Guitarra Portuguesa.